EDIÇAO NºXX , IIº NUMERO DE MAIO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Liliana Josué
Do Salão de Baile para o Circo
Por
Martim Afonso FernandesImbituba, idos de 51, 52.
Ruas sem pavimentação, revestidas com cinza de carvão queimado e
conchinhas brancas retiradas dos sambaquis ou «casqueiros», como
eram chamados.
Existiam alguns salões de baile, além dos clubes sociais. Os
primeiros eram a salvação daqueles que não podiam ser sócios,
pois a ordem nos salões era: pagou, entrou...
Muitas coisas em Imbituba sempre vieram se arrastando. A avenida
Duque de Caxias, antiga cancha, (assim denominada porque ali
eram realizadas grandes corridas de cavalos), começou a esticar
e chegou até à praia, lá no riacho que naquela época existia.
Havia um salão de baile, mais ou menos no lugar do mercado
Abreu. Naquele tempo, já era um local habitado por trabalhadores
das Docas, da Estiva, da Cerâmica e de pescadores.
No lugar referido havia uma casa grande, de cor avermelhada, que
foi uma «venda», o proprietário era o Seu Francisco, homem
conhecidíssimo, casado com dona Olívia, pais de mais ou menos
uns seis filhos, família unida e trabalhadora.
Seu Francisco, animado como era, resolveu mudar de ramo de
negócios. Abriu as portas e fez um salão de Baile. Aí,
aconteceram bailes muito bons, eram contratados ótimos conjuntos
musicais, a casa lotava. Vinham pessoas de outras localidades.
Certo dia, Seu Francisco, destemido, resolveu ir com a família
embora de Imbituba e mudou desta vez de ramo e rumo, montando
uma companhia de circo. Como a vida circense não tem residência
fixa, a companhia do Seu Francisco, após vários anos veio se
apresentar, para a felicidade dos imbitubenses que aqui ficaram,
e o circo foi montado em Vila Nova.
Era circo, teatro e tourada. E, naquele tempo, quando chegava
circo com tourada em Imbituba, quem emprestava ou alugava os
touros para serem toreados eram alguns açougueiros da região.
Foram dez dias de casa lotada. Antes da tourada era apresentada
uma peça teatral. Numa das noites, desenrolava-se um comovente
drama e a artista principal, esposa de um dos componentes da
companhia, encontrava-se grávida, na vida real. Enquanto se
desenvolvia o drama no qual seu marido chegava de viagem e a
encontrava enferma, preocupado correu a chamar um médico que
começou a examiná-la. Este, com um semblante carregado,
movimentava a cabeça para cima e para baixo.
O artista que fazia o papel de marido, perguntava repetidas
vezes: - O que é que ela tem, doutor? O silêncio dos
espectadores era tal que ouvia-se até uma mosca voando.
Um dos presentes na platéia, cansou pela demora, porque queria
ver a tourada. Foi aí que a mais um: _ O que é que ela tem,
doutor? , o gaiato grita bem alto da platéia: -«Ela ta
prenha»!!!
Foi uma explosão de gargalhadas e um silêncio sepulcral em
seguida, acompanhado de um olhar estarrecedor do corpulento
artista, que era também toureiro.
Ninguém soube, ninguém viu, mas todos ouviram quando mais um
grito foi dado: _ «Solta o touro»!.
Gargalhadas, risos, gritos, assobios e palmas para os artistas
que retiraram-se sem terminar a peça...
Era aquela uma época em que certas palavras não podiam ser
pronunciadas em público, eram censuradas como palavrões.
Imaginem os comentários ao término do espetáculo e durante muito
tempo...
Quando se cogitava que ia chegar um circo na cidade, logo alguém
perguntava: -Será que virá alguma artista prenha?
Cheguei à Aldeia
Poema de Armando Sousa
Cheguei à aldeia onde morei
O campanário horas não dava
Naquele momento batia
Batia batia muitas saudades
Estaquei frigido a ouvir
Mas nada, apenas solidão
Entrei no cemitério
Senti doer-me o coração
Os nomes eu conhecia
Os meus amigos não via
As pedras diziam
Aqui jaz ; resta em paz
Perguntei ao meu ser
Morrer virá um dia?.
As lágrimas caiam
Saudades que a solidão traz
Entrei na rua do amor
Onde minha mãe jazia
Na campa uma flor
Mas mais nada eu via
Apenas a minha dor
Em meu coração vivia
O seu ser desapareceu
Quem tantos beijos me deu
E me ensinou a falar
Lágrimas que lhe rolavam
A minha cara lavavam
Eu ali no cemitério
A todos via e pensava
O sino não badalava
Nem horas do dia dava
Para mim só solidão
Para quem aqui jaz
Eterna escuridão
Pó natureza mãe
Eu vos vou juntar também
Depois voltarei a nascer
Borboleta até serei
Ou um pequeno bichinho
Que alimentarei um passarinho
Mas viverei......
Nem tudo é o que queremos
Conto
de Isabel Fontes
A hora de levantar aproximava-se. Mais uma noite de tormento chegava ao fim e a sensação de medo já se estava a afastar. Sentia um enorme cansaço por todo o corpo e a cabeça ainda latejava de tanto sonho mal difundido, sentia ainda um latejo do lado esquerdo da cabeça que já se tornava hábito em mim todas as manhãs.
Aos poucos o nevoeiro ia-se dissipando de mim e de todo o quarto. Perfazia hoje um mês desde que eu a Inês e o nosso filho Gui nos tínhamos mudado para esta casa em plena Baixa Pombalina, fazia hoje um mês relativo ao aumento que o meu patrão nos despachantes me tinha dado e o novo posto que ocupava na «Salgado e Filhos, SA – Despachantes Oficiais».
Hoje, apesar de mais uma noite mal passada, sentia-me angustiado com a minha vida, tem de existir mais alguma coisa, a vida não pode ser só trabalho e nenhum conhaque, não posso obrigar o meu corpo a ser sempre o mesmo. Todos os dias a mesma cara, a mesma barba, o mesmo cheiro e todas as refeições a horas.
O único gostinho que ainda me resta é o meu charrinho todas as manhãs antes do pequeno-almoço o meu esconderijo preferido. A manhã de hoje ia ser diferente, o pequeno-almoço vai ficar em casa, vou sozinho para o trabalho. A Inês é que não ficou nada satisfeita com esta decisão, tinha acordado de propósito para fazer o meu ritual matinal.
Nem perguntou porquê, voltou para a cama e enroscou-se no edredon mesmo ao lado do Gui. Encontrava-se pouco motivada desde que teve por obrigação vir para casa, por despedimento, estava a ser difícil encontrar novo emprego e alguém para ficar com o nosso filho dentro das condições que podíamos pagar.
Tentava a todo o custo ganhar à minha consciência e tentar não chegar mais uma vez atrasado ao trabalho. Tentava perceber porque é que algumas pessoas eram evasivas no que dizia respeito à morte e a todo o processo para se chegar lá, que cada vez haviam mais carros na cidade de Lisboa e as obras eram infinitas por toda ela.
Mais uma vez o carro não pegou logo à primeira tive que o aquecer, vou começar a andar de transportes, é uma vergonha todos os dias de manhã estar quase meia-hora para conseguir arrancar e com os vizinhos na sua malícia a olhar para mim em vez de virem ajudar. Hoje foi mais um dia desses.
Também pensava que só me restavam mais dois charros até logo à noite, bendito jantar de Natal com a malta amiga. O dia estava a custar a passar, tenho de fazer uma pausa para aliviar a cabeça de todos os despachos de queijo ainda fico sem memória. O jantar de logo não me saia da cabeça e o encontro com o Bruno para aliviar a tensão de toda esta vida, é sempre bom ter um amigo Dealer, alguém que nos mantenha no subconsciente alguma esperança.
A pausa estava no fim mas também já não pensava em nada, tinha esvaziado a cabeça, bendito Bruno. Em cima da secretária já tinha mais uns despachos para efectuar e mais uma jornada no mundo dos queijos. Dei comigo ao telefone com uma colega da alfândega a falar de flores, que gostava de flores, de correr pelo campo.
Ela gostava do cheiro da erva acabada de ser regada e de se deitar nela, de contemplar o céu azul e salpicá-lo de nuvens. Também gostava de sonhar com o doce sol a queimar a sua pele e imaginava-se embalada no aconchego de Deus. Não cheguei como aconteceu aquela conversa e quem é que estava mais pedrado naquela altura, enquanto ela falava uma lágrima escorreu pela minha face, como um cristal de profunda dor, pedi desculpa e desliguei o telefone.
A hora da saída chegou em segundos sem que eu tivesse tempo de limpar da cara a lágrima caída ao acaso, fiquei imóvel por uns momentos não tinha percebido o que tinha acabado de acontecer. Senti uma profunda mágoa e as lágrimas não paravam de cair, escondia a cara com vergonha dos meus colegas. Sentia vergonha e saudades do momento que ainda não tinha acabado, sentia inveja de todos os meus colegas que me desejavam boa-noite e de saber que em casa tinham uma outra vida à espera deles, e eu não.
Apercebi-me que não era inveja mas sim medo de toda a solidão que me esperava em casa mesmo hoje ir estar rodeado de amigos, mas que amigos eram os meus que se alimentavam das minhas necessidades, mas que amigos tinha eu que se aproveitavam do meu desespero? Levantei-me, peguei no casaco e saí sem fechar a porta atrás de mim.
Ao chegar ao carro reparei que tinha um pneu furado, o que faz não dar uma moedinha ao pintas, decidi ir a pé para casa e também não era assim tão longe e sempre podia reflectir na minha estranha e básica forma de viver.
Peguei no meu último charro e fui subindo a calçada sempre pensativo, estava a tornar-se um inferno e não fazia sentido todo este tormento hoje.
Não fazia sentido este meu pensamento sobre a vida e morte ao mesmo tempo, sei que muitas pessoas passam por estas experiências todos os dias mas eu nunca tinha experimentado todo este luxo de emoções que nem sequer conseguia assimilar, não sei se por incapacidade se por desilusão, se por vontade de desistir.
Estava do outro lado do passeio em frente ao prédio onde vivia e já ouvia o barulho que lá se passava. Naquele momento fiquei apático e não sabia se havia de atravessar para a outra margem se ficar naquela insatisfação, sentia um medo forte de morrer naquele momento, um medo de me ver morrer.
Sentia-me um psicopata sem rumo e sem vontade de matar, sentia-me manipulado por cordéis que alguém os manobrava e não conseguia libertar-me deles. Apercebi-me que o mundo é feito de todas as nossas emoções de tudo o que lhe quisermos depositar, é feito de sonhos e de desilusões, a esperança não existe por nós mas por ser uma palavra do longo dicionário que é a vida. Com este pensamento atravessei a rua sem olhar, senti um puxão.
Dei comigo a flutuar, a sobrevoar o meu corpo a observar todos os meus amigos à volta da minha carne dos meus ossos, senti-me aliviado. Estava deslumbrado com o que sentia e via, sentia-me recompensado por tudo o que tinha sentido naquele dia por toda a minha vida de sacrifícios. De certa forma sentia um alívio por poder pensar que estava tudo bem.
Naquele momento pensei no meu filho e na Inês, imaginei o futuro que lhes esperava, se iriam sofrer ou ser recompensados como eu. Lembrei-me das tardes que passávamos à beira mar, de como éramos felizes e como naqueles instantes o mundo nos parecia um enorme jardim. Algo invadia a minha alma, endireitei-me, sem medos preparei-me para enfrentar a minha nova vida.