EDIÇAO NºXX , IIº NUMERO DE MAIO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Liliana Josué
A ucraniana triste
Conto / Crónica de Michel C.

Todos nós temos, pelo menos durante alguns dias, uma ucraniana nas nossas vidas,
sendo isto válido quer para homens quer para mulheres. As ucranianas, louraças
na sua grande parte, um pouco pimbas também em grande parte - para o nosso gosto
- são normalmente bem feitas.Este «normalmente» refere-se à visão geral que se
tem das ucranianas porque também há frascos, pentes, tábuas, bundas descaÃdas
quase a roçar o solo e caras de meter medo como em todos os povos e
nacionalidades e nas ucranianas também.
Mas, estas, as ucranianas têm tido um efeito despoletador de algumas situações
que as tornam desconfiáveis aos olhos das consolidadas mães de famÃlia: alguns
maridos vêm nesse maná mais jovem uma oportunidade para se safarem de situações
de opressão ou simplesmente da monotonia matriarcal, e, casamentos duradouros,
em princÃpio presos por fios (nem outra coisa seria de supor) têm sido desfeitos
por meia dúzia de arranjos internacionalizados e, como seria normal se não fosse
anormal, as ucranianas, sendo uma parte Ãnfima nos processos de separações e
divórcio que têm lugar todos os dias, acabam por funcionar como bodes
expiatórios.
«Estavas a olhar para aquela ucraniana!!»- diz meio gritado uma mulher para o
seu legÃtimo e esta é uma acusação que pode irromper ecoando em qualquer
instante da nossa vida mesmo quando estamos a olhar para a montra da
ourivesaria. «Não sabia que aquela pulseira era ucraniana»- responde-se, lesto -
«estava a pensar oferecer-te o bijou quando fizéssemos 150 anos de casados». E
depois a história continua com o clássico «não disfarces que eu bem vi!» e mais
umas quantas vociferações possessivas que podem até levar à amostragem do cartão
amarelo da vida que é a fotocópia da certidão de casamento.
Mas a «minha» ucraniana é uma ucraniana triste, um pouco leve para o hábito da
nacionalidade, não muito alta, talvez com cerca de 1,70 m, e pouco mais de 60 /
65 Kgs. A sua riqueza maior está nos olhos tristes, cansados mesmo, que
apresenta. Não disse mas vou dizer que ela trabalha como caixa num supermercado
onde vou todos os dias. Em rigor é mais um minimercado alargado, está aberto aos
domingos e que só é possÃvel aos minimercado largos e não à s grandes
superfÃcies, e frequento-o entre outras coisas pelo facto de ter um
pronto-a-comer que me satisfaz relativamente na clássica e sempre estudada
relação preço qualidade.
O cozinheiro não é um barra, salga alguma comida em excesso, e quando não a
salga em excesso atasca-a de condimentos levando-me a um consumo excessivo de
água durante a tarde, mas, fundamentalmente desenrasca-se nos cozinhados e pelo
preço que é e pela proximidade de minha casa acho que vale no balanço.
Leve eu lulas recheadas, filetes de pescada ou mesmo lombo de porco assado, ela,
a ucraniana dos olhos tristes ou cansados está sempre lá, numa caixa: acho que
deve ser o horário de trabalho dela que coincide com o meu de ir ao super
mercado mas certo também me parece ser que mesmo que vá a horas desencontradas
ela acaba sempre por estar ali, sentada, a passar pelo leitor de códigos em
infra-vermelho os mais diversos produtos, desde sacos de batatas a embalagens de
pão - rico e na época mais próxima do Natal alguns perfumes e loiças.
Não faço qualquer esforço para ir àquela caixa, antes pelo contrário, porto-me
como se estivesse comprometido não estando e escolho a caixa que menor fila tem.
Mas, dentro desta ginástica de serpenteio entre cestos e carrinhos de empurrar
acabo por ir ter com a ucraniana dos olhos tristes vezes quase sem conta: é
preciso notar, para o caso de haver dúvidas sobre a minha seriedade intelectual,
que as caixas abertas são normalmente poucas, embora haja uma bateria delas ao
longo da casa ao ponto de quase saÃrem pelo corredor fora em direcção ao parque
de estacionamento.
Pois bem, e voltando donde nunca saÃmos: a ucraniana é simpática, ou pelo menos
não é antipática, mas é extremamente profissional: passa-me as sopas, o pão, as
embalagens de comida e o que mais levar pelo visor de infra vermelhos que vai
apitando e fá-lo não propriamente com pressa mas com eficácia e é no momento em
que ela me repete a soma que devo pagar - e que eu antes já vi no visor da
máquina - que tenho oportunidade de ver melhor os seus olhos tristes: acho que
são verdes, ou azuis, nunca reparei bem, mas que eles têm uma dose elevada de
tristeza espelhada isso é um facto que nunca me merecerá contestação.
É claro que aqueles que me lêem neste momento devem estar a pensar que eu estou
caidinho pela ucraniana dos olhos tristes mas posso confessar que não: o que me
interessou nela e sempre me interessa é ver os seus olhos tristes. Desejaria
saber um dia porque é que ela tem os olhos tão tristes, mas acho que nunca o
saberei, porque nunca o irei perguntar e daà talvez nem ela soubesse
responder-me a meu contento.
Não deve ser fácil a vida de uma ucraniana em Portugal ou em qualquer outro
lado. Nunca é fácil a vida de ninguém em lado nenhum por isso as razões para ter
os olhos tristes podem ser das mais diversas e algumas bem adivinháveis e que
são comuns entre a comunidade emigrante de um Leste que já foi mais ou menos
rico ou remediado e que agora exporta mão de obra barata.
Mas esta ucraniana tem os olhos tristes mais tristes que eu já vi...e é esse o
facto mais marcante na «minha» ucraniana.
Zorro, só capa e espada ? (IV)
Por Afonso Santana

Escurso primeiro sobre os Ã?ncriveis
Os IncrÃveis são em certa medida um exemplo claro de uma fusão entre o ser herói
e ser gente comum, sem que no entanto percam o seu estatuto elitista. Nota-se o
esforço dos argumentistas para tratarem o problema dos heróis de uma forma
original, talvez tendo chegado à conclusão de que o modelo tradicional se
encontra esgotado ou em vias de esgotamento.
Os IncrÃveis são uma famÃlia de super-heróis que, por razões de conflito entre
um povo de super-heróis, e logo gente comum entre si mas incomum para o resto do
mundo onde se vêm a inserir, envereda pelo processo de se confundir com essa
gente comum de um mundo de gente comum, abdicando até da demonstração das suas
capacidades. Para aquele povo, o facto de ter super-poderes foi um mal, pelo que
expiam e fazem o seu exorcismo num mundo de gente normal.

Mas nem tudo corre bem: primeiro temos a consolidação da imagem do chefe de
famÃlia que nos levará ao desenvolver da história em si e mesmo à possibilidade
de haver uma história. Encaixado num emprego rotineiro, que ainda por cima vive
de algum grau de injustiça, forçado a meter-se na confusão e lentidão do tráfego
de uma cidade, confrontado com pequenos problemas, Beto (em português) depressa
demonstra que não se vai manter na vulgaridade de um mundo vulgar por muito
tempo.
A super-heroicidade incontida encontra o principal e para logo agente no pai de
famÃlia, o que poderá ter o significado que lhe quisermos dar, mas acontece que
Beto receia a sua mulher, seguindo aquela tradição de que a gerência da casa e
da famÃlia é feita pela mulher e que o homem serve para trabalhar e ganhar
dinheiro (coisa que não deve ser abundante na sua função de burocrata de seguros
de saúde). Para exercer a super-heroicidade Beto tem de trair a mulher, não com
outra mulher é claro, mas levando uma vida paralela e secreta.
Os condimentos do Zorro e de outros heróis encontram-se aqui contidos dentro de
um outro envelope que esconde os poderes secretos dos restantes membros da
famÃlia, ou seja e para que a coisa fique bem clara, o secreto da actividade de
Beto é-o em relação à sua famÃlia e é também secreta em relação à sociedade em
geral, mas, no nÃvel mais próximo as qualidades especÃficas e não demonstradas
ou não exercidas da sua famÃlia são-no, secretas, em relação à sociedade.
Mas existe um confidente (um Bernardo tal como em Zorro) mas esse, igualmente
super-herói é seu companheiro nas suas escapadelas justiceiras. Um ponto que
deveremos achar é que existe, regra geral, e nestes casos em que os heróis são
solitários, uma ponte que os leva a viver a sua super-heroicidade sempre com uma
cumplicidade, fazendo com que o solitário não seja nunca totalmente solitário no
seu segredo.
Ele é verdade para Zorro, é verdade para este IncrÃvel, é verdade para o
super-homem (cujos pais adoptivos sabem que ele tem super-poderes), é verdade
para o Fantasma, é verdade até para as Tartarugas Ninja e isto para não desfiar
aqui uma série maior de super-heróis. O herói, mesmo que pratique a sua
actividade solitariamente nunca é solitário de facto.
A questão da mascarilha
Conforme tenho vindo a dizer, a mascarilha, no caso dos heróis e super-heróis,
não esconde por completo a identidade de quem se mascara e muito menos,
razoavelmente, quem com aquele que se mascara priva no dia a dia.
No caso de Don Diego de la Vega (o Zorro) o seu próprio pai, Don Alexandro de la
Vega, não o reconhece, e mesmo a pretendida de Diego, rejeita as suas
aproximações porque está secretamente apaixonado pelo Zorro, que é, ao fim e
cabo a mesma pessoa (com e sem máscara).
Já no caso do super-homem, e para ilustrar um pouco mais a ideia, o mesmo se
passa entre Lana e Clark Kent: este tem uma relação próxima com ela, tanto numa
posição como noutra, mas Lana Lane está apaixonada pelo super-homem e não por
Clark Kent.
Ora, há um episódio de alguns segundos, na série dos IncrÃveis, em que a mãe de
dois dos incrÃveis presentes (Flecha e Violeta) faz a iniciação dos mesmos ao
secretismo da sua actividade e diz, textualmente, ao mesmo tempo que entrega a
cada um a sua mascarilha: «Vocês têm de andar sempre com a máscara posta para
esconder a vossa verdadeira identidade!»
Ora, e se analisarmos, e quem tiver tido a felicidade de ver os IncrÃveis
sentirá isto de uma forma mais imediata e esclarecedora, não oferece dúvidas a
ninguém que a mascarilha, tanto nesta série como em qualquer outra não esconde
ninguém, de facto. Daà que nos possamos perguntar para que serve, qual o papel
que desempenha a mascarilha ou mesmo o disfarce uma vez que a sua utilidade é
nula?
Pois bem: temos duas versões que se interligam. Uma e a essencial, a mascarilha
é apenas e só uma eficaz forma de interagir com o público. O público sabe, o
público aceita esta ficção da mascarilha dentro da ficção e abre-se para a
ficção, entra dentro dela, é assim como que o coro grego na tragédia grega, só
que colocado na posição passiva em que Nietzsche a refere já nas «Origens da
Tragédia Grega».
Ou seja, interage mas de forma passiva, como espectador e simultaneamente actor
passivo. Como coro!
O segundo aspecto, que deriva deste, é que esta cumplicidade entre o público e a
ficção, é, guardadas as devidas distâncias temáticas, a mesma que levava Don
Juan a trair os maridos fazendo-se passar por eles. As mulheres, alegadamente
enganadas, ao encontrar à média luz ou mesmo no leito uma pessoa que dizia ser o
seu marido não eram de facto enganadas. Interagiam na burla, pois por muito
fraco que fosse o relacionamento sexual na época, a qualquer pessoa parecerá
evidente, que havia consentimento da parte delas, mesmo que contra mim se
levantem as vozes do feminismo, deixo em salvaguarda um extracto de uma
entrevista de José Saramago:
Dom Giovanni ou O Dissoluto Absolvido
Pergunta: Por que Don Giovanni não é vigorosamente desmistificado? Seria por se
ele o modelo do pecado e não da virtude?
José Saramago - Ao contrário do que parece pensar-se, o meu propósito não foi
tanto desmistificar Don Giovanni como pôr a descoberto a hipocrisia do
comportamento das restantes personagens principais, isto é, Comendador, Dona
Ana, Don Octávio e Dona Elvira. Todos eles têm sido apresentados como vÃtimas
inocentes do malvado Don Giovanni, e a verdade é que não encontro qualquer tipo
de inocência em nenhum deles. O meu texto é bastante claro a este respeito.
Nestes termos, a simulação de Don Juan e a máscara do Zorro encontram-se no
mesmo plano ainda que por razões diferentes e obedecem aos mesmos princÃpios
psicológicos. Há várias histórias de simulações ao longo da história, desde a
Grécia antiga, através da figura do Anfitrião que foi igualmente tratada por
Camões.
Assim, não sendo o Zorro uma personagem que resulte de um processo de pesquisa
cultural (conforme já disse é um simples personagem de aventuras) é no entanto
interessante realçar este aspecto e reconhecer que estes personagens estão
ancorados na popularização de episódios eruditos.
AS ALMAS INFELIZES
As almas dos infelizes
Envelhecem muito cedo
Porque de rir têm medo
Seguem outra directrizes .
Vogando desconsoladas
Entre suspiros e ais
Sem ornamentos vitais
Não passam d' almas penadas...
Pois o denso gargalhar
Que elas sabiam dar
Caiu em poço profundo:
Rege-as outro alvará...
Já não são almas de cá
São almas do outro mundo!!
( Soneto baseado em «As almas infelizes envelhecem muito mais cedo»
Pensamentos de Camilo Castelo Branco)

Camilo Castelo Branco na foto
ESCRITO PELO POETA QUE MAIS AMEI NESTE MUNDO, MEU PAI. (1921/2003) em 12/11/1990
Filipe Josué
(Enviado por Liliana Josué)