Agenda de EventosEmail BlogMotor de BuscaNewsletter ConvíviosLivro de Visitas Anuncios Gratis Homepage Album FotosIndice Geral Arquivo


EDIÇAO NºXX , IIº NUMERO  DE MAIO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Liliana Josué           



Coluna


     
      Antônio Carlos Affonso dos Santos.

          ACAS, o Caipira Urbano.



Semeando o dilúvio

 

Festas Juninas

Transcorrendo o mês de festas juninas, algo dentro do meu peito caipira fica chocado. Deturparam a imagem de um caipira numa festa junina. Nas grandes cidades, pintar a cara como palhaço ou se vestir com mau gosto é sinônimo de caipirismo: Explode coração!.

Bem, ouvindo as bombinhas espocando na periferia onde moro, pude na minha imaginação, voltar ao meu tempo de infância, quando vivenciava a ansiedade com que era aguardado o mês das festas de São João, São Pedro e Santo Antonio. As noites ficavam tão bonitas que a gente tinha pena que acabasse. Muitas fogueiras eram acesas logo que a noite envolvia a Terra; sendo possível uma ou duas horas após, encontrar-se batatas, mandiocas, carás, milho verde e pinhões assados nos braseiros das fogueiras.

Alguns ainda abriam um buraco no local onde se faria a fogueira, para enterrar ali uma «moranga», abóbora de gomos, na qual fazia-se uma janela na região do caule, retiravam-se todas as sementes e lá dentro eram colocados queijos meia cura e várias rapaduras. Essa parte no entanto era reservada só para o dono da casa, que comia a iguaria com a família; longe dos olhares gulosos, no dia seguinte, quando a retirava dos borralhos da fogueira. As fogueiras eram muito grandes; tanto que acho que havia até uma certa disputa para ver quem faria uma fogueira maior. E havia um cidadão que era «tirador de terços».

Os «terços» eram rezados de casa em casa, e ao final, sob o espocar dos rojões, levantava-se uma caixinha retangular na ponta de um mastro com as figuras coloridas dos santos dos dias, com um detalhe: no buraco onde se fixava o mastro eram colocados arroz, feijão, farinha, pó de café, ovos e etc.; -era para que nunca faltassem na casa de devotos tão fervorosos. Após o levantamento do mastro, os donos das casas ofereciam bebidas de época: para os homens e rapazes quentão e anizete, às vezes uma cachaça ou um vinho quinado, para as mulheres e crianças: chocolate, chá de cravo ou café, e bolo de fubá, é claro.

Nessas festas se envolviam todos os moradores da fazenda; e muito mais os jovens que procuravam falar com as moças que acompanhavam o cortejo do terço; pois após uma casa, iam a outra, e assim por diante. E os jovens aproveitavam porque em dias comuns os matutos tinham suas filhas ao alcance dos olhos, e eram muito durões para com os possíveis pretendentes.

E haviam os costumes de enfiar-se uma faca numa bananeira na noite de São João, e no dia seguinte poder-se-ia ver as iniciais dos príncipes encantados gravados nas lâminas. E as moças casadoiras se dedicavam a isto com muita fé; ou ainda, punham-se a pingar as lágrimas de uma vela numa bacia d'água, na noite de Santo Antonio, sendo que, se houvesse fé, no dia seguinte apareceria o rosto do bem-amado refletido na água pelos pingos da vela.

Porém, uma das coisas às quais assisti e de fato não pude esquecer, foi que numa noite de São João, cinco ou seis homens descalços atravessaram o braseiro de uma fogueira sem que lhes queimassem os pés. Impressionado perguntei, naquele tempo:

- Não dói? ; ao que um senhor respondeu: - não, só faz cócegas, mas precisa de se ter muita fé, senão o fogo queima.

Não sei se o fato era que São João queria agradar aos seus ardentes fãs, ou se de fato a fé remove montanhas. Quando me pediram neste dia para que tentasse atravessar o fogo, eu não o quis.

-Ainda hoje eu não teria coragem, pois se era fé de que se precisava para que os pés não se queimassem, se eu botasse os pés nas brasas, fatalmente seria queimado; é que a minha falta de fé é um caso sério.

 

Coluna de Rosa Pena

Viva la viva la viva México! 

Acordo do que não dormi. Maldita insônia! Escovo os dentes, lavo o rosto, tomo vitamina de acerola, que detesto, mas que atestam que faz muitíssimo bem ao estresse. Como um biscoito e bebo chá de camomila, que também é calmante pra não tomar os remédios em jejum.

Alguém me pergunta o que quero de almoço. Eu respondo rápido: —  Churros!

— Da onde tirou essa idéia louca (grita esse alguém) e eu penso sorrindo, mas não digo, que foi de sonhar com o mexicano Gael Garcia Bernal. «Má educação», não do alguém, nem minha, mas a do Almodóvar.

Ligo a TV na Ana Maria Braga para minha empregada assistir enquanto varre a casa. Percebo que não varre nada e internamente dou a maior força. Cacete, todos os dias fazer a mesma coisa!

O telefone toca e eu odeio telefone, sempre odiei, deixo ele tocar, tocar, pra depois ouvir a secretária eletrônica. Pra variar minha irmã:

— Você tem que se distrair com alguma coisa, muda os móveis de lugar, sai da mesmice, se cansa bastante para ter sono! Sou obrigada a concordar com ela, que algo em minha vida vai ter que mudar sim.

Ah! Pra começar almoço o Gael Garcia Bernal e se alguém perguntar digo que foi porque sonhei com churros, ora!


Matriz e filial

Felicidade e saudade
moram na mesma rua
onde a imaginação alcança.


Fica logo ali...
Entre o beco da lembrança
e a rua do ligeiro.


Não existe final
para um coração apaixonado.


A lágrima e o sorriso
fazem um duo de improviso
cantando debaixo do mesmo chuveiro...
Matriz e filial

 

                         
                         Por: Cecílio Elias Netto

(Por especial gentileza do autor)

Era tal o preciosismo de Flaubert – em busca da perfeição literária – que, dizia-se, passou a vida à procura de uma palavra para substituir outra, pensando tê-la usado inadequadamente.

Palavras podem matar. Por isso, o mestre hindu ensinou a lição maior da sabedoria: o silêncio. Tolos – entre os quais me incluo – nunca aprendemos.

Acompanhando o massacre que a maioria da chamada grande imprensa busca fazer do governo Lula – apesar de seus êxitos notáveis – e estendendo-o à Dilma Roussef, lembrei-me de um texto, de certo articulista da «Folha», há alguns anos passados, acho que uns cinco anos.

Lembrar daquilo foi rever – com nitidez doída – cenas de um filme feito de fel. O artigo ressuscitava uma velha escola jornalística rançosa, que marcou a minha geração e que a nada levou. Bebíamos o fel de Carlos Lacerda, de David Nasser, de Chateaubriand, de Edmar Morel – e, intoxicados de rancores, destilávamos os nossos. O Brasil terminou em tragédia.

Ora, apenas ingênuos, tolos e comprometidos não perceberam, desde o primeiro mandato, a orquestração de estridências para abalar os alicerces de Lula. Suas fragilidades são conhecidas, mas machucá-las agora é evocar as bruxas.

Aconteceu antes. E os atores são os mesmos segmentos rançosos da sociedade brasileira, posseiros da economia, dos grandes veículos de comunicação, dos bancos, das negociatas sem fim.

Se a história se repete como farsa, há que se lembrar ser, ela, perigosa, capaz de criar abismos intransponíveis, fraturas que não se recompõem. A repetição dessa burrice mostra-se patológica, soando como roncos de moribundos.

O articulista da «Folha» não se importou onde atingir, se fígado, baço, coração ou a alma de Lula. E confirmou que ódios políticos não têm limites. O título do artigo foi «Alcoolismo marca três gerações dos Silva» – título à Chateaubriand – enveredando por psicologismos de botequim.

Recolhia confissões amargas e dolorosas do Presidente Lula, registradas em livro – e, portanto, em outro contexto – doendo-se da saga de uma pobre família nordestina na secular toada da miséria de um Brasil miserável: violência, abandono, alcoolismo.

Até a avó de Lula ficou exposta, pobre mulher de que os próprios netos – com saudade compassiva – se lembravam: «caía no barreiro e ficava gritando para a gente ir acudir ela.»

Lembrei-me de Flaubert por ver-me procurando a palavra correta para qualificar aquele texto: indecente, impiedoso, repulsivo, torpe, desprezível? Revi, ainda vivos, os panfletários que ensinaram ferocidade à minha geração. Aquele Brasil – que nada respeitou – esfacelou-se diante da autoridade esfacelada. E os melhores pedaços foram abocanhados pelos mesmos grupos ainda insaciáveis.

Tem sido óbvia, pois, a manobra pelo fracasso do governo de Lula, que responde com sucessos aplaudidos em todo o mundo. Na verdade, Lula teve parte de culpa nisso, trocando a fidelidade ao povo pela aliança com coronéis de todos os naipes. Para eles, não há cidadãos, mas consumidores. Não há país, mas capitanias hereditárias. Não há nação, mas mercado.

O fracasso de Lula teria sido, para essa gente, a prova da tese secular que lhes interessa: o povo tem que ser tutelado. No entanto, o impiedoso texto do articulista acabou sendo, penso eu, ser um divisor de águas.

A partir dele, Lula não teve mais ilusões: o seu lugar e sua força estão no coração do povo que o elegeu por esperança, esse povo formado por muitas gerações de Silvas, sofridos, desamparados.

Aquele artigo contrapôs um Brasil de avós enlouquecidas, que bebem pinga por desespero, a um outro Brasil: o dos que saboreiam champanha nos salões de Higienópolis. Insensatos, tentaram e ainda tentam entregar Lula às turbas. Criam um Luiz XV às avessas: «Après Lula, le déluge.» Pois, se Lula fracassar neste final de mandato, depois dele, virá, sim, o dilúvio. Quem sobreviver verá.

Bom dia.

Pode comentar este texto carregando no seguinte link da Província de Piracicaba: Comentário.


Cecílio Elias Netto é fundador do Jornal A PROVINCIA

A PROVINCIA, como jornal impresso, foi fundada em 28 de Agosto de 1987, pelos jornalistas Cecílio Elias Netto e Gustavo Jacques Dias Alvim. Durante duas décadas, com idas e vindas, ela cumpriu o seu propósito e o sonho desenvolvido: recuperar a memória de Piracicaba, especialmente através da oralidade de seus mais antigos moradores, contar a história do município e da região, com fartura de documentos e de fotos e postais.

O lema continuou vivo quando, há cerca de dois anos, A PROVINCIA ingressou no universo digital, criando A PROVINCIA electrónica, com o mesmo objectivo e a mesma motivação: «Paixão por Piracicaba».

Piracicaba é um município do estado de São Paulo. Sua população estimada em 2008 era de 365.440 habitantes.

 

DUVIDA DE MIM

 Poema de Mário Matta e Silva

 

 

 

 

Não sei prever
ao escrever
no sentir perverso
em que se derrama
sem fama
o verso.

Não sei prever
o futuro
sem que haja um brilho
no semblante duro
para descrever
sem orientação
o avanço
ou trilho
a desilusão
do que procuro
e não alcanço.

Sei lá eu até quando
se ando e desando
em tropeções…
Sei lá eu conter o comando
e o descomando
das emoções?