Pagª 8 - EDIÇAO NºXXXI, IVº NUMERO DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes.
O Calendário
Conto
Por Arlete Piedade
A menina tinha entre quatro e cinco anos. Era curiosa e viva, interessada nas letras e nos desenhos, mas ainda não sabia ler.
Vivia numa aldeia simples e pobre, e passava muito tempo naquele quarto simples, porque estava doente e era inverno. Fazia frio lá fora e chovia, e a mãe não a deixava sair, para não piorar.
Era no ano de 1960, não havia televisão, e o rádio só chegaria áquela casa na sua adolescência. A menina não tinha muitas coisas para lhe despertar o interesse pelas letras, apenas um jornal regional que o pai assinava, e as caixas dos medicamentos que ela tomava para a sua doença.
Mas a pequena só via os desenhos das letras e curiosa perguntava á mãe o que era
aquela letra e aquela e a outra e a mãe ia respondendo:
- É um A, um E – e por aí fora.
Até que um dia o pai chegou do trabalho com um embrulho comprido e estreito, que desembrulhou e pendurou na parede do quarto da menina fascinada, que passou a admirar por longas horas, aquele objecto misterioso, brilhante, cheio de números e letras. Tinha várias folhas, que o pai da menina ia mostrando e em cada folha, imagens misteriosas de altas montanhas e casas muito estranhas, feitas de pedras e sem telhados.
Entre as casas, ruas que subiam e subiam pelas montanhas, também feitas de pedras e torres, muitas torres com degraus enormes. Mas não havia ninguém naquelas casas e naquelas ruas, como seria viver naquele local misterioso?
A menina doente foi melhorando enquanto via o calendário sempre pendurado na parede do quarto e ia fazendo perguntas que os pais respondiam como sabiam. A mãe da menina dizia-lhe o nome dos números e das letras, o pai contava-lhe que aquelas imagens eram de uma antiga cidade em ruínas, onde há milhares de anos, tinham vivido pessoas que pertenciam a um povo chamado Os Incas.
Mas o que também chamava a atenção da criança, era o nome do calendário, porque aquela palavra que tinha duas partes, separadas por um grande pneu, a mãe não sabia ler.
O pai, que era motorista de um camião explicou-lhe que aquelas palavras eram a marca de pneus, e que se liam gudiare, mas o que fascinava a menina era a história da cidade antiga, que ela aprendeu que se chamava Machu-Pichu.
O calendário permaneceu pendurado naquela parede alguns anos, a menina foi para a escola, aprendeu as primeiras letras, e conseguiu ler sózinha o nome da cidade e a marca dos pneus. Agora ela sabia que era Good-Year e que não era português. Mas só alguns anos depois soube que o significado daquelas palavras era «Bom Ano».
E na verdade foi um bom ano, a menina curou-se da sua doença, passou a ir á escola, mas os sonhos tinham começado a germinar na sua mente. Na escola havia um armário no atrio, que tinha dentro das portas envidraçadas, alguns tesouros que a menina cobiçava. Eram livros de histórias, os primeiros que ela via e podia ler. Logo que a professora autorizou ela leu o primeiro. Chamava-se «O Ladrão de Bagdad». Tinha desenhos e histórias admiráveis de ladrões, príncipes e princesas. E tinha locais misteriosos e longínquos também, onde se passava a história.
Aquela menina passou a sonhar em visitar aqueles locais quando fosse grande e ajudar a decifrar os mistérios de antigas civilizações. Escrevia redacções onde expressava os seus desejos e que os professores incentivavam , aconselhando os pais a prosseguirem os seus estudos.
Nos anos da adolescência e juventude, passou a estudar história do mundo e das antigas civilizações e os sonhos voltaram em força. Como admirava os arqueólogos, os historiadores, os exploradores de selvas virgens, os descobridores de mistérios! Ah ser arqueóloga, que desejo! Mas ela nem fazia ideia como tornar possível esse sonho!
Quando descobriu como frequentar as bibliotecas públicas, passou a ser uma leitora compulsiva! Leu colecções inteiras de livros juvenis, depois de aventuras, depois de mistérios, dramas, romances, quanto mais misteriosos mais lhe inflamavam a imaginação ardente!
Os pais desejavam que fosse professora, mas acabou por estudar num curso comercial, para arranjar um bom emprego! – Diziam os pais.
Conseguiu o tal emprego, e com os seus primeiros ordenados passou a comprar livros de mistérios, muitos livros que devorava e coleccionava. Namorou, casou, teve filhos, passou a viver uma vida de classe média nos subúrbios de uma grande cidade. Quando saía do emprego passava na livraria em frente, á procura do último livro de ficção científica publicado! Lia, lia muito! Sonhava, sonhava muito!
Até que um dia...descobriu-se cansada de ler...os olhos estavam fracos! Custava-lhe focar-se nas letras...passou a escrever! Escrever os sonhos dos outros e alguns dos seus também!
Já era agora uma mulher adulta e madura, os filhos estavam crescidos, os sonhos armazenados, ainda á espera de uma ultima oportunidade, e abriu a sua caixa de e-mails.
Uma pessoa especial tinha-lhe enviado uma música dizendo ser única e rara! Ouviu com toda a atenção! Um descendente dos Incas, tocava numa flauta uma melodia misteriosa e comovente, acompanhado de uma orquestra, ele era o solista!
Enquanto ouvia aquela música, na sua alma renasceu o sonho! Voltou á infância! Reviu as tardes e os dias olhando pela janela do seu quarto, as andorinhas nos ninhos na velha casa em frente, a chuva a cair, o gelo acumulado na janela, e aquele calendário!
Machu-Pichu, os Incas, a cidade misteriosa! Os desejos de ser arqueóloga, exploradora, viajante! Sonhos de criança, sonhos pueris! Ou não? Mas os anos passaram, tantos já! Será que ainda é possível o resgate de alguma parte dos velhos sonhos?
Uma Composição em Inglês
Crónica
de João Furtado
Se a minha pouca habilitação, não me permite ombrear com os doutos da vida académica, pelo menos me permite ter uma visão prática da vida.
Esta visão prática da vida que me faz conseguir arranhar um pouco o inglês, por
exemplo. Conseguir aprender com meus erros. Unico erro que continuo a ter é a
pouca vontade de ir ao liceu, acho que não conseguiria passar de classe. Mas
todos nós temos nosso defeito e o meu é este, não consigo estar, agora com mais
de cinquenta anos, num banco de escola.
Prefiro aprender por mim próprio. Lendo aqui um livro, estudando ali um
movimento simples de uma formiga. Vendo um programa da televisão. Imaginando
estar por trás de um filme ou de uma novela. Medindo o tempo que provavelmente
os 30 minutos da cena levaram a gravar… é assim que tenho aumentado o meu ângulo
de visão da terra, este belo e estranho planeta azul.
Por vezes cometo erros graves. Graças a Deus não os cometi na educação dos meus
filhos. Todos me admiram e me respeitam. Acham que sou muito infantil, mas
também sabem que lhe dei tudo que um pai pode dar a um filho. Inclusive o
direito de pensarem pela própria cabeça. Soube isto a quando fui de férias aos
Estados Unidos.
Sem querer vi uma composição que a minha filha mais velha, Isabel Maria, a Belma,
escreveu sobre mim. Aproveitei para ler e aprender um pouco mais. E aprendi.
Aprendi que estava certo ao dar-lhe toda a liberdade. Estou sempre a aprender. Comovido fiquei a saber que…afinal sou ídolo dela. A composição está em inglês, não sei se devo transcrever ou não… acho que devo sim. Pelo menos uma boa parte.
How would be my live without my Dad?
When you have a good family, you will have better support and a greater chance
to be happy. In this world it is very difficult to have a good family. Not in my
case, I was born in a beautiful family and I have a wonderful Dad. My Father is
everything a daughter would wish for.
First, my father, Joao Furtado, is a wonderful head of the house hold because
always put his family first. We are six children, four biological and two
adopted, and I am the second child but first girl. My Dad never goes out to have
fun with others mans like my friends’ dads does. He was always in the house with
his family if he was not working.
He travels a lot for business, but he never let us feels his absence, because he would call home two to three times a day. Sometimes, we like when he travels especial for USA or Europe because of the fantastic gifts he would bring us.
He would go without eating just to be able to buy something from the big list
that each one of the kids makes every time he travelled. He does what aver it
takes to make us, his family, happy.
My father is a great Dad because he respects me. He never made any decision for
me, or any other my siblings, even when he thought that I was wrong. He might
show me his point of view, but the last word always was mine no matter how old I
was.
For example, he told me to go to school but he never forced me to go. Also my Dad never hit me, because he always thinks that I am too weak and I am a girl. For him as a man, he cannot touch me except in affection.
My older brother always complained that he never hit me for whatever I did. My Dad used the same excuse that he was accumulating all the wrong things I did and one day I would pay for all of them together. That day never came, and my brother still complains for that.
My father gave me a good education; he showed me the difference between right
and wrong without hitting me. When I ever made a mistake, he just talked and
made mad face, like when my brother and I got in a fight. Believe me it was
enough to think twice before do it again or let him know about.
Finally, my Dad is a fantastic friend. He is not just my father, he is my true
friend and I can count on him anytime. When I have any problem the first one I
think of is him, especially if it is a financial problem. I always turn to him,
and he always founded the best way to help me.
He lives in Cape Verde, but any time I need him, I just have to make one call and he would do the rest. My dad is the one that always believed at me. Even when I am wrong, he believes that I will realize for myself that I am wrong and make it right.
This is one of the reasons he never interfered in my decisions. For example, when I decided to come to United State of America to live he told me «-I know you will make it.»
He could not understand why I wanted to come, but
supported me, and the only thing he asked me is to never give up to study. He
made me believe in myself so I would make the right choice.
My Father is one of the most important people in my life. For several reasons,
he still protects me, loves me and supports me in all I need. He was always with
me for whatever and whenever I need.
Isabel Maria Furtado Almeida (Belma)
Sempre fiz tudo para que os meus filhos fossem independentes e zelosos da verdade. Mas nunca pensei que um dia iria ler uma composição onde eu seria o contemplado.
Não pensei que a minha maneira de ser e estar na vida, seria tão minuciosamente reparada por ela. Sempre os ensinei a levantarem, nunca os impedi de caírem.
Sempre mostrei com gestos, contos e palavras os meus pensamentos, mais nunca imaginei que estava a ser fotografado e guardado, muito menos em inglês.
Estive dez dias de férias e aprendi tanto, que não consigo escrever aqui. Espero conseguir transmitir tudo que aprendi com o silêncio. O silêncio também fala.