Pagª48 - EDIÇAO NºXXXI , IVº NUMERO DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes.
AS TRES ORIGENS DA LINGUAGEM SEGUNDO VICO
Por
Daniel Teixeira
Giambattista Vico (1668-1744) interessou-se muito pelo facto linguístico e, atentando sobretudo ao aspecto histórico, é precisamente ao problema das origens que se refere a sua doutrina das três linguagens, cujos princípios, embora apareçam como uma sucessão, se devem considerar actuando em conjunto.
A primeira é a linguagem muda, ou seja, entender e significar as coisas na sua essência, sem necessidade de recorrer à sua objectivação formal: por outras palavras, trata-se do intelecto puro, que é próprio da divindade, que realiza a expressão e a compreensão sem qualquer intermediário de ordem física.
A segunda é o modo de expressão dos tempos heróicos, em que prevalece não a palavra, mas o símbolo visível, que tira das coisas um aspecto sensível, como sucede na escrita ideográfica dos hieróglifos.
A terceira é a linguagem humana nos seu primórdios poéticos, que não é natural em sentido restrito, mas que também não pode dizer-se que seja arbitrária, porque constitui apenas o reflexo fónico / estético / plástico de processos activos, realizados na consciência, em correspondência com uma realidade.
«Essa primeira linguagem que pertenceu aos poetas - teólogos não foi um falar segundo a natureza das coisas, mas foi um falar fantástico por substâncias inanimadas que, na sua maior parte, eram imaginadas divinas». ( Scienza Nuova, & 401 ). Perdura nesta fase o contacto com a natureza e por isso temos a representação do particular, mas traduzido nela em termos de capacidade criadora fantástica (de fantasia, imaginação).
Quer isto dizer que, na ausência de um particular «consciente / interiorizado» a imagem representando-se como estando fora de nós ou para além de nós nos aparece como fantástica, isto é, desprovida da apropriação pela consciência, ela não pode ser senão de outra ordem, a ordem «inconsciente» (para Vico), a ordem do sonho segundo Aristóteles (De somno em latim).
O processo da formação da língua não pára nesta fase poética, antes prossegue, graças ao trabalho dos povos, através de novos caminhos. «Pois tendo os poetas sido outrora levados a formar a linguagem poética com a composição de ideias particulares, foi partindo dela que os povos acabaram depois por formar os falares próprios da prosa, contraindo em cada palavra, como num género, as partes que a linguagem poética havia composto...
Ou seja, passa-se, em Vico, do fantástico e semi-sonhado à apropriação desse fantástico por uma ordem, a dos poetas, que por sua vez o faz chegar, o transmite, à consciência dos povos. Como veremos a seguir essa forma de transmissão imediata terá sido feita através da articulação de palavras.
Através de uma evolução semelhante, partindo dos hieróglifos e das letras heróicas, criaram-se algumas letras vulgares, como géneros capazes de servir de molde a inúmeras e várias palavras articuladas, para o que foi necessário um alto engenho. Com esses géneros vulgares, não só de palavras como de letras, as inteligências dos povos tornaram-se mais hábeis e adquiriram a capacidade de abstracção: daí puderam mais tarde partir os filósofos para formar os géneros inteligíveis.»
Ou seja, para Vico, a fonia das palavras e as letras da escrita conjugaram-se «com alto engenho» despoletando, qual catalisador, para bem das inteligências dos povos.
Giambattista Vico apresenta desde logo uma diferenciação em relação ao que se escreve sobre a questão da racionalidade (ou do consciente, aqui) como condição necessária para acesso à linguagem uma vez que afirma (& 138 da obra citada) que os filólogos seguem a autoridade das opções humanas, de onde provém a consciência do certo, contrariamente aos filósofos que ao considerarem a razão consideram a verdade.
Ora, entre verdade e certeza afirmada da forma que o é existe uma diferença substancial: a verdade é algo que procura uma correspondência entre aquilo que se afirma de algo e aquilo que esse algo é substancialmente, em termos de essência, e a certeza é resultado de um processo lógico em que se afirma a correspondência de algo com aquilo que se afirma sem que haja a preocupação de relacionar essa certeza com a substância ou essência do afirmado. Assim, os filólogos (como ele) não buscam a essência das coisas mas sim a sua correspondência numa dialéctica insubstante. Não deixa de ser interessante que a filologia se procure desde logo demarcar como ciência (do concreto, do real) da filosofia especulativa.
Quando David Hume cita a necessidade da razão como condição essencial para acesso à linguagem não está de forma nenhuma a pôr a questão nestes termos agora suscitados por Vico na sua interpretação da filosofia (mais propriamente da Metafísica). Ao procurar-se a verdade entre aquilo que se afirma de algo e aquilo que esse algo é, substancialmente, estamos a limitar a linguagem a um campo cuja limitação é de longa data. E outro caminho não percorre Vico desde que descreve a origem da linguagem vista acima. Fora de nós, fantástica mas contudo «real» porque representa coisas (na sua ideia imperfeita de coisa).
O acesso à substância, à natureza, à essência primeira das coisas é entendido de diversas formas por diversos filósofos havendo aqueles que o afirmam como um dado ao conhecimento humano (caso de Hegel - o real é racional) e outros que o afirmam como um dado inalcançável pela razão (caso de Kant - Crítica da Razão Pura).
Assim, quando referimos razão, atrás, não estamos a dar a mesma interpretação a este termo que Giambattista Vico dá, mas estamos sim, a reconhecer, tal como ele mesmo o faz, que o processo linguístico se processa independentemente do conhecimento das coisas em si, da sua substância, da sua essência e mesmo da sua existência. Por essa mesma razão, também, é chamado de processo simbólico.
Por outro lado, a «certeza» que Giambattista Vico refere é, antes, uma das formas da verdade embora não seja a verdade, ou seja, embora não seja o todo da verdade, se é que ela alguma vez existe ou existirá. Para todos os efeitos é uma conformidade entre o afirmado e o referido (o significante e o significado), ou seja, é, pelo menos, uma verdade lógica sem preocupação de verdade (no sentido do absoluto filosófico).
O interesse desta exposição de Vico tem sobretudo a ver com três aspectos essenciais:
a)- De um lado trata-se da deificação da palavra nos seus primórdios, em que ela não é símbolo de nada mas sim da própria coisa falada (a chamada linguagem muda). Interpretando actualmente esta forma algo mística de ver a palavra podemos optar pela ideia da ausência de linguagem neste período referido por Vico.
Na verdade, as coisas eram representação de si mesmas, ou seja, não havia nomes – nem havia necessidade de os haver uma vez que eles não eram transmitidos – e as próprias coisas (e os seres) eram simultaneamente seu significado e seu significante. Mostrava-se uma coisa (ou um ser) que era exclusivamente aquela coisa (ou aquele ser) e a necessidade de abarcar a diversidade das coisas (ou dos seres) terá impulsionado o homem para o passo seguinte.
COMO ANALISAR E SELECIONAR DA MELHOR MANEIRA OS TEXTOS DE LITERATURA INFANTIL.
Por
Arlete Deretti Fernandes
É muito importante que as crianças entrem em contato desde cedo com os livros,
para adquirirem gosto pela leitura. Pesquisas da UNESCO demonstram que o hábito
da leitura é formado até ao máximo, 12 anos.
O escritor e filólogo Antônio Houaiss diz que «trata-se de um processo
geracional. Só depois do enraizamento do hábito de leitura na infância é que
poderemos ter um mercado -leitor amplo e vasto. Quem até aos 25, 26 anos não
chega a ler pelo menos um livro por ano, não terá um livro por dez anos. E quem
se habituou a compulsar dez livros por ano aos 4 anos de idade, vinte aos 5 anos
e por aí em diante, dificilmente abandonará o livro.» (O Globo, 15-07-76).
O hábito da leitura é transmitido à criança pelo adulto. É importante ler e
falar sobre livros na presença dela. Levá-la a visitar livrarias e escolher um
livro. Reservar espaço para guardá-los, conversar sobre um livro que esteja
lendo, admitindo que ela possa dar outro final à história, se quiser.
Há nos dias atuais uma grande quantidade de livros infantis e juvenis no
mercado. Encontramos as histórias clássicas de há muito conhecidas, e as demais
publicações.
O professor que precisa destas obras para trabalhá-las com seus alunos em
literatura, se depara com uma quantidade grande de obras. No meio a esta
quantidade há livros bons, mas a maioria tem qualidade duvidosa.
Torna-se difícil fazer-se esta avaliação, basta entrar-se em uma livraria ou
biblioteca. Há livros dos mais diferentes formatos e materiais, com figuras que
se movimentam e com recursos sonoros. Neste caso a narrativa torna-se menos
importante que o audiovisual.
Nesta situação, o que fazer para selecionar-se bem, escolher leituras que
estimulem e levem a criança e o adolescente a buscar outras leituras?
Há livros bons e há livros descartáveis. Por este motivo é importante que o
professor tenha conhecimentos teóricos sobre a importância que tem a literatura
infantil na formação da criança. Os objetivos que o professor quer atingir
também devem ser claros.
Um
aspecto a ser focalizado é o externo, já que primeiramente a criança entra em
contato com conteúdos visuais, como capa, tamanho, formato, peso, espessura,
qualidade do papel, número de páginas, o equilíbrio entre a ilustração e o
texto, o tamanho e tipo de letras usadas, as técnicas de ilustração e as cores.
Tais características atraem ou afastam o leitor infantil.
As crianças menores precisam de livros mais resistentes, que facilitem seu
manuseio e que tenham letras grandes e muitas ilustrações.
Para as crianças em fase de alfabetização, o texto precisa ser curto e
acessível. A ilustração deve facilitar a compreensão da história, porque os
desenhos estimulam o raciocínio e a criatividade.
Há que se cuidar com as ilustrações, porque elas também reforçam estereótipos e
preconceitos. Personagens más, sempre aparecem feias, fadas, príncipes,
princesas e heróis sempre tem aparência bonita. A avó, aparece sempre como uma
velhinha de cabelos brancos, tricotando em uma cadeira de balanço. O avô aparece
como um velhinho gordo, de óculos na ponta do nariz. Mesmo nas histórias mais
novas a mãe é representada como uma mulher de avental e com um espanador na mão.
E o pai segurando uma pasta ou o jornal. A empregada, o marginal e o operário
são quase sempre negros.
O professor tem que reconhecer estes preconceitos e enjeitar estes livros ou
então pelo menos conversá-los com os alunos.
Há também os textos imagéticos, aqueles que não tem texto verbal.
O segundo ponto de discussão do livro é a respeito de sua escrita. É bem
escrito? Conta uma história original? Vai prender a atenção do leitor? Está de
acordo com a faixa etária a que se destina? É capaz de despertar o imaginário, o
raciocínio? De buscar soluções para os problemas? Que ideologia tem? É obra
didática ou moralista?
Também é preciso observar-se as revisões, se não contém erros, porque senão
prejudicará a aprendizagem do aluno.
Os interesses das crianças pelos assuntos também se relacionam com a faixa
etária.
Os primeiros livros que se oferece ao bebé devem ter gravuras de seu interesse,
como brinquedos e animais e histórias com animaizinhos.
A segunda fase vai dos 5 aos 9 anos. É a idade dos contos de fadas. No texto
poético encontra o gosto pelas rimas e pela métrica.
Dos 9 aos 12 anos continua o gosto pelas histórias de fadas mas também começa a
interessar-se por história de aventuras.
Dos 12 aos 15 anos os interesses são por livros de aventuras, romances
sensacionais, livros de viagens e histórias sentimentais.
A 5ª e última fase, dos 14 aos 17 anos, a leitura torna-se diversificada e
abrange histórias de conteúdo mais intelectual, livros de viagens, romances
históricos, biografias, histórias de amor, atualidades.
Esta classificação é para indicar os interesses de faixa etária para leitura,
porque nos dias atuais houve muitas mudanças nos interesses infantis. As
crianças costumam assistir histórias bem complexas na televisão e entendê-las.
A leitura de poemas também é interessante para a aprendizagem infantil e
adolescente, porque vai despertando o gosto pela poesia.
Também é importante levar os leitores à reflexão dos textos lidos, para que se desenvolvam alunos e jovens conscientes da própria vida.
REFERÊNCIAS:
Critérios para Análise e seleção de textos de Literatura Infantil- Mara Ferreira
Jardim.