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Pagª 12 - EDIÇAO NºXXXI , IVº NUMERO  DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes.   


Maria da Fonseca

Carnaval No Rio - 2005 

Sempre o calor tropical
Nesta festa esfuziante,
Apesar de já ser noite
E a chuva, uma constante.

A desfilar na Avenida,
Graça, luxo, sedução.
Cada uma das Escolas
Busca maior sensação.

A luta não vai ser fácil.
Sambam as belas morenas
Em excitante frenesim,
Brilhando como sirenas.

A música jamais pára,
O seu ritmo é sempre igual.
O samba - enredo impera
Na atracção do Carnaval.

Muito ouro, prata e plumas,
Aos milhares as fantasias!
Desejam ser os melhores
Na expansão das alegrias.

Vibra, frente a cada Escola,
A multidão delirante.
Desfilam todos cantando,
Mais magia irradiante!

As baianas como rodam,
Vestidas de «dama antiga»!
E a porta-bandeira dança,
Rodopia sem fadiga.

O mestre-sala a seu lado
Não termina o seu sambar,
E com finos ademanes
Reverencia o seu par.

Seguem alas varonis
Dos autores desta lindeza.
Marquês de Sapucaí
Encanta com a surpresa.

Feéricos vão os carros,
Enormes, estrelejados.
Aquecem os tamborins,
Com vigor, batuqueados.

Anda até fogo no ar,
Espanto, empolgamento.
Os foliões da Avenida,
Em contínuo movimento.

Ensaiaram todo o ano
P'ra no desfile brilharem,
E a sua Escola de Samba,
Briosos, representarem.

Pretendem ser os primeiros,
Ganhar uma nota dez.
O Carnaval carioca
Domina de lés-a-lés.

Considera quem o vê
Do mundo inteiro o maior.
A Beija-Flor esplendorosa,
De todas foi a melhor! 


JORNADA CREPUSCULAR

QUE NOVO FUTURISMO?

Por Mário Matta e Silva

Venho de mais uma jornada crepuscular, assombrado com o espectáculo do Mundo.

Foge-me a sensibilidade para o cataclismo social que se acentua, para a degradação das instituições, para o estilhaçar económico, para a depressão injectada através da «inevitável» globalização, pós derrube dos Impérios.

Ao crepuscular de mais um fim de tarde cheio de promessas vazias e insólitas, faço uma paragem no tempo, recuando um centenário, para ler em LE FIGARO, de 20 de Fevereiro de 1909, na primeira página, o Manifesto Futurista.

Essa bravata visionária e essa orquestração retórica do poeta Fillipo Tommaso Marinetti (1876 – 1944) vinha carregada de angústias dos desaires políticos e da industrialização… com demonstrações presunçosas de profetização para um devir caprichoso e maligno, na travessia da primeira guerra mundial.

As mortes, os escombros, a penúria, a degradação social, o afundamento económico europeu, agravados pela guerra, deram vigor e agilidade mental a todos os embustes de uma vida moderna, que se deviam à mecânica, à ciência, às cidades, aos insucessos, aos cataclismos que tão arrastadamente se avolumavam desde cerca de 1890.

Nos futuristas estava patente pois uma rejeição desse passado com uma preocupação idólatra com os portentos do futuro que o presente trazia adivinhados nas suas teóricas arremessadas, baseadas essencialmente no destruturado legado de Itália e arremessado ao todo europeu.

Do próprio manifesto futurista saliento:

«Pretendemos cantar o amor ao perigo, ao hábito da energia e da temeridade. / A coragem, a audácia e a revolta constituirão elementos essenciais da nossa poesia. / Até aqui, a literatura exaltou a imobilidade melancólica, o êxtase e o sono. Pretendemos exaltar a acção agressiva, a insónia febril, a passada do corredor, o salto mortal, o soco, a bofetada. / Afirmamos que a magnificência do Mundo passou a estar enriquecida com uma nova beleza. A beleza da velocidade…»

Assim se chegava ao avanço industrial dos comboios e dos carros e assim se exaltava a vigorosa reacção a todo este processo de avanço no campo do vapor, da electricidade, da mecânica. Hoje a globalização é a demonstração do auge deste começo que o futurismo grita com desassombrada arrogância, aplaudindo e destruindo, numa profusão de linguagem incontida.

O Impressionismo, o Expressionismo e o Abstraccionismo representam essa avalancha pictórica que se assemelhava ao compasso construtor/destruidor do processo criativo no seu todo – arquitectura, escultura, literatura – que trouxe por ideal o Modernismo, então latente.

Passados cem anos encontramos outros cenários e outras coreografias que nos voltam a pedir «o salto mortal, o soco, a bofetada» para um acordar vibrante das letargias pálidas e enfraquecidas de um presente que tem por humano e por sensato o que é ruidoso e estéril, o que é ridículo e desconcertante.

A autoridade do estado é confundida com arrogância do estado; a independência das instituições é desmontada com desfaçatez feita de injurias e intrigas; os elos de «unidade europeia», inseguros e rudimentares são diariamente enfraquecidos, na sombra dos que continuarão mais poderosos em relação a outros mais indefesos.

Um novo futurismo é assim um ideal de construção de um bem comum para os nossos descendentes, uma espécie de herança que possamos deixar em tons menos negros e textura menos pegajosa no seu dia-a-dia feito de ilusionismos caseiros, fugindo desse mal epidémico que se vai espalhando corrosivamente.

Neste manifesto do futurismo de há um século muitos se poderão hoje rever, não numa de nostalgia patética, em conjunturas e tempos tão diferenciados, mas numa de resposta enérgica contra a insegurança dos nosso tempo presente e a destruição do património de valores e de condutas que negamos às novas gerações.

Não se olha o futuro hipotecado na destruição de um presente cheio de feridas por sarar. Já em pleno crepúsculo matinal, passando o toldar da noite, deixa-se a pergunta:

como agirmos para defender o futuro e torná-lo mais promissor, neste ambiente de perturbação?

Talvez que o romper da aurora me traga alguma resposta… ou não a terei de todo neste compasso em que se gere o Mundo!