Os Ciúmes da minha Sobrinha

Por Anha ( Ana Isabel Pereira Neves)
Ana Isabel é natural de Cabo Verde, tem 17 anos, é órfã de pai e mãe desde os 7 anos de idade e frequenta o Liceu.
Num certo dia acordei com uma vontade de escrever longamente. Mas
simplesmente não conseguia, peguei uma caneta e um caderno, com desejo
de escrever, mas não saía, nada. A minha memória estava vazia e não
sabia porquê.
Era como se eu tivesse um branco na minha cabeça, e por mais que eu
esforçava dava na mesma, não havia solução. O resultado do meu esforço
era zero.
Por azar ou por acaso ou por destino a minha sobrinha que estava a
dormir, acordou e veio me acompanhar. Meu Deus, ela é simplesmente
insuportável. É impressionante como ela tem a capacidade para não me
deixar pensar. A chegada mais contribuía para minha falta de ideia, como
ela tinha o dom de me tirar a paz….
Eu esforçava mas dava na mesma não saía, nada de nada. E ela estava aí
falando, falando sem parar, disse, para mim mesma «como pode ela
conseguir ser tão…» não tive adjectivo para a qualificar.
Fugi, saí de junto dela, fui tentar escrever num outro lugar,
esforcei-me para ver se saia alguma coisa da minha cabeça. Tive umas
ideias, achei-as bonitas, poderiam dar em algo bem bonito, sim senhor,
vou passar para o papel, pensei. Puro engano, quando já ia passar para o
papel as meias ideias, acreditem…, lá vinha ela, a minha sobrinha, de
novo com as suas conversas meladas e sem fim me encher a cabeça…
O que mais me marcou, enfim, nas conversas da minha sobrinha foi quando
ela disse para mim:
- Para de escrever. Fala comigo, preciso que me dês atenção. Olha que
ainda vais «quebrar a cara» um dia, com esta mania de escrever. Achas
que vais conseguir algum dia terminar um conto ou escrever uma
verdadeira poesia?
E eu aí a frente dela com um louca vontade de escrever sem poder. Como
poderia fazer a Patrícia calar? Ai se ela calasse só por um instante,
mas nada.
Como seria fácil se ela tivesse um botão para que pudesse desliga-la e
liga-la ao meu belo prazer… Sorri seria bom… Com maior da vontades
desligaria a Patrícia sempre que quisesse escrever.
Não era possível, a única solução era aturar os ciúmes dela pelo tempo
que perco a escrever. O Tempo que ela julgava ser dela. Por isso…
Eu desisti, larguei tudo e fiquei aí a ouvir as suas conversas de
adolescente…
Anha
Ana Isabel Pereira Neves
Ver dois Poemas de (Anha) Ana Isabel Pereira Neves (A LUZ DO DIA e SEM TI SEREI.
Na gruta do esquecimento
Dormir, enganar a nostalgia
Chorar um pouco, pensar e reflectir
Deixar o pranto cair sem me ferir
Amanhã, um outro dia há de vir
Anseio em buscar o alento, no momento
Abraçando o meu amigo travesseiro
Bom companheiro e conselheiro
Dedicado fiel e verdadeiro
Das longas noites em que o sono me foge
E a minha alma aflita, grita por liberdade
Que a solte, a devolva para um novo mundo
Ao paraíso do repouso profundo
Na gruta do esquecimento
Onde estará protegida do mau tempo
Das correntezas que a absorve
Tudo gira a minha volta, e nada se move
Uivam os ventos, grunhem os trovões
E a pobre alma geme aos turbilhões
E o ingrato sono continua ausente
Um tolo insensato e negligente
Na luta contra a realidade do destino
Destino este que o transformou num banido
Qual fugitivo nas madrugadas vaga perdido
Percebo que de mim tenha esquecido
Negando-me o descanso merecido.
Autora: Pequenina
A Coluna de José Geraldo Martinez

Nota: Ainda não há muito colocámos aqui um poema de despedida de José Geraldo Martinez, provisória - como ele mesmo afirma - para se poder dedicar a outras actividades que enumera nesse mesmo poema. Esta nota aparece aqui apenas para informar que a referida despedida teve aqui publicação bastante tempo depois de a termos recebido (cerca de dois meses sensivelmente, ou mesmo mais).
Assim, este regresso deste nosso amigo e colaborador quase desde a primeira hora, que muito consideramos, não foi assim tão rápido como possa parecer.
Desejamos que tenha cumprido os seus planos. (Pode ver o poema de despedida aqui).
COMBINEMOS!
Amada minha,
que pousa o rosto na mão que lhe ampara,
deixando vagar os pensamentos que
embalam
momentos a nós tão felizes...
E, nessa hora, as flores da noite exalam,
o raio da lua que afagam,
suas pétalas meretrizes!
Recebo seus sonhos,
um a um também em meu leito...
A cobrirem-me o peito,
com uma saudade cruel.
E, logo ao amanhecer, estarão desfeitos
e há de me restar o frio desse leito
e a boca com gosto de fel.
Quem abraço senão as lembranças?
Ganham vida além da minha janela...
De que me adiantam as cores cheias de
esperança,
das estrelas a cortarem de trança,
o negro da noite sentinela?
São elas iguais aos seus lábios,
distantes dos meus nessa hora...
Resta-nos sonharmos até à aurora,
que disperta-nos à realidade!
Ah! Amada minha!
Quando cair a tarde inteirinha,
combinemos!
Nossas almas soltemos
e, juntas, matemos essa tal de saudade!
Quem abraçamos senão
as lembranças?
A chuva que cai lá fora?
Nessa cama grande você me abraça,
combinemos!
Eu abraço-a na mesma hora!
«Não existe o esquecimento total: as pegadas impressas na alma são indestrutíveis» . Thomas de Quincey, escritor, ING, 1785-1859
Os Poemas de (Anha) Ana Isabel Pereira Neves
A LUZ DO DIA
Sonhei
Com uma luz
Acordei
Vi um sinal no céu
Levantei
Segui a minha intuição
Caminhei
Em direcção á luz
Quando vi eras tu
A luz do meu sonho
SEM TI SEREI
Sem ti serei
Um quadro limpo
Uma vida perdida
Uma flor sem água
Um espelho sem reflexo
Um coração partido
Uma ferida que dói
Sem ti serei
Um nada
Algo imperfeito
O mal da vida
Sem ti
Não serei eu
Serei apenas um nada
Pagª 11 - EDIÇAO NºXXXI , IVº NUMERO DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS
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