
Pagª 19 - EDIÇAO NºXXXI , IVº NUMERO DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes.
Mortes e mistérios no rio

Coisas de Gauchos ou De Como a Chinoca Roubou o Gaudério e Continuou Vivendo
O gaudério estava a meia guampa. Estava abichorrado por conta de uma china morocha que ele gostava muito, e que agora se bandeou para um paisano morrudo que usa uma pala vermelha e um mango para açoitar o pingo. A pala era como aquelas que usavam os farroupilhas. Ele aparecia sempre montado num pingaço cuera.
Mas,o gaudério, gaucho pelo duro, na verdade era um maturrango, criado com matambre que eu conhecia desde quando ele era guri, um piá teatina como poucos.
De perto parecia um xirú. Tomando um verde, sem tomar tenência, falava de suas conquistas. Quando ía nos surungos só queria ficar de charla com uma chinoca castelhana. Ali, esquecia a vida.
Montado no flete, percorria a estância sem esquentar a cuia. Corria cêrcas e muros de taipas e apartava marruás como ninguém. Mas, um dia, uma maleva, percebeu que o gaudério era langue, pelas gatimonhas que entre quatro paredes assumiu: a china calavera, montou na anca do bagual com o gaudério nas rédeas.
Mas, no primeiro pinote ela caiu na sanga. Ela passou a viver embretada, igual a um cusco campeiro; recebia os dinheiros dos castelhanos e dos farroupilhas. Voltou lá para as querências. Lá, procura até hoje um peão colhudo para lhe pagar as contas e lhe satisfazer as vontades de mulher.
(Me perdoem os leitores, porém, assim como não «traduzo» meus textos em caipirês, não vou colocar glossário gauchesco, pois quero que, pelo menos alguns, tentem encontrar nos livros os significados.
Minha missão é divulgar o Brasil. Espero que levem isso na «brincadeira», visto este não ser um texto sério, na verdadeira aptidão da palavra; mas é um texto rico de brasilidade. Abenção Teixeira, Victória, Líria, Camila e demais escritores gauchos que tanto gosto. Sugiro pesquisarem João Pantaleão G. Leite ou Lothar Hessel; ou ainda para quem se interessar tem Dicionário campeiro no endereço http://www.calhandra.cjb.net

Sou o menino de branco, ao lado das meninas com seus vestidos especiais. Estou olhando para o chão; infelizmente vocês não poderão apreciar meus lindos olhos...
ACAS
Nota Redacção: Pode aumentar o zoom (até 150%) no browser para ver melhor a foto, mas não dá mais que isso...
AS PEDRAS !
José Geraldo Martinez
Quem disse que não falas, pedra lascada?
No verde dormes, eterna, entre os ipês!
Em tua cabeça se aquece, ao sol, a passarada.
És pinta branca no colorido alvorecer.
E nas encostas lá da praia?
Grandes rochas tagarelas !
Emprestam do mar as suas ondas,
do vento o sopro, em vozes belas...
Há quem diga que até as pedras se encontram...
Nada é inútil por sobre a terra!
Se há vida em ti que nos poentes aprontam
desenhos lindos, nas grandes serras!
És da natureza!
De Deus!
Bendito homem que a tudo importa!
Não fosse a vida que te acerca, pedra,
haveriam todos, de ver-te-la morta!
«Feliz é o homem que a tudo vê e que a tudo importa...
Deus emprestou-lhe os olhos para que tivesse toda compreensão da existência da
própria vida»
( Martinez)
Linhas incertas
Conceição
Bernardino
Deslizam sobre o meu rosto
lágrimas multifacetadas
vão caindo, mansamente
sem explicação.
Deixam marcas perfeitas
como o arco-íris
que se espelha lá no céu...
De onde vêm não sei
deslizam, caem
sobre as linhas incertas
desta certeza tão repleta,
como quem escreve
sobre as lágrimas de alguém.
Há algum tempo, um amigo, com a maior naturalidade, nos contava de que, «pelo constava», alguém morrera num passeio de barco, nas águas do rio. De repente e sem o perceber, perguntei: afogou-se ou foi engolido pelas águas do rio? Pois Piracicaba e o rio têm mistérios que não podem ser esquecidos. E afogamentos no rio talvez sejam os mais assustadores desses segredos.
São tantas as mortes estúpidas e trágicas em todo o mundo, tantos os massacres, acidentes, tragédias que as pessoas como que se acostumaram a não mais reagir. O condicionamento é tal que, em se referindo a audiência, o público se interessa e se emociona muito mais por um gatinho preso no fundo do poço do que por uma destruição em massa por incêndios, explosões, bombas.
Há algum tempo, um amigo, com a maior naturalidade, nos contava de que, «pelo constava», alguém morrera num passeio de barco, nas águas do rio. De repente e sem o perceber, perguntei: afogou-se ou foi engolido pelas águas do rio? Pois Piracicaba e o rio têm mistérios que não podem ser esquecidos. E afogamentos no rio talvez sejam os mais assustadores desses segredos.
Após trágico novembro de 1964 – quando ruiu o Edifício Luiz de Queiroz (Comurba) – o notável dr.Jacob Diehl Neto tentou algumas explicações. É verdade que ele era um dos advogados da companhia, advogado manhoso. Mas, como o diabo, ele sabia das coisas. E, como já se provou, não é por ser diabo que o diabo é sabido, mas por ser velho. O velho dr.Jacob sacou, de seu alforje, alguns segredos de Piracicaba e explicou, sobre a tragédia:
«Foi o vulcão que, há milênios, existiu onde está o jardim. Embora extinto, pode ser que tenha soluçado e, então, o prédio ruiu.» – foi o que ele contou, sem que quase ninguém acreditasse. O fato, porém, é que os fantasmas e as ruínas ficaram lá por quase dez anos. Precisou o Lazinho Capellari – que não acreditava nessas coisas – liderar funcionários e, com pá e martelo, demolir os destroços. Mas o medo ficara.
Passeios de bote, de canoa, de bóias, ao longo do rio Piracicaba, precisam de cuidados especiais, especialíssimos, muito mais do que se imagina. Não apenas os de segurança, que se discutem após cada morte: se havia condições, cuidados suficientes.
Não se pode esquecer que o rio é o rio. Com sua liturgia. Com seus rituais. Ora, ninguém mais se lembra – antes de passeios de botes, canoas, de bóias – de rezar para Rosa de Jesus, logo abaixo do Salto, oferecendo-lhe pétalas de flores?
Rosa de Jesus, a santinha dos negros e dos pobres, foi uma das primeiras médicas de Piracicaba, sem nunca ter conhecido medicina. Morreu e o povo a fez santa, também protetora do rio. Quem vai lá pedir a bênção de Rosa de Jesus? Quem vai desfolhar rosas para que, antes de passeios, cada pétala siga na frente, abrindo caminhos, afastando perigos? Quem?
E a Inhala Seca, quem a procurou no Bongue, pedindo desse sossego durante o passeio? Pois, nas cercanias do Bongue, se alguém desaparecer é porque Inhala Seca o levou. E não adianta mais procurar pelo Nelson Torres que, conhecendo segredos da Inhala Seca, mora há tantos anos no Bongue, vizinho da feiticeira.
Não adianta mais perguntar, porque o Nelson Torres, agora e com ajuda do João Chaddad, decidiu partilhar o mistério com outros moradores e a Inhala Seca, com certeza, vai assombrar muita gente. O mistério, quando se banaliza, fica pior ainda. A bruxa velha deve estar enlouquecida, mas loteamentos fingem não acreditar nisso. A conta vem depois.
Ora, quanto sabem que a mais bela jovem do mundo repousa sob as águas do rio. É a «Noiva» verdadeira, à espera do amante que foi engolido por um rio enlouquecido de ciúme. Num amor desesperado, o rio queria aquela mulher, bela como nunca outro existiu, apenas para si. Sem o amante, desconsolada e saudosa, a moça ficou ora dormindo, ora chorando, sob as águas do rio.
Quando a dor se torna insuportável, ela se abraça a quem lhe pareça ser o amor escondido e o carrega para o seu leito nas pedras. Se alguém morre, as águas sobem. E é preciso um outro morrer para as águas descerem. Quando o amor da moça retornar, haverá paz. São mistérios da paixão. No nosso rio.
Por isso, não basta segurança se não se respeitar os fantasmas do rio, se não se render a seus mistérios. A dolorosa morte de moços, especialmente se belos, devorados pelo rio, será menos doída se acreditarmos terem sido, eles, amantes que a moça do rio elegeu para amar.
Se é verdade, não sei. Mas, desde sempre, ouço essas coisas. Por isso, indago-me: e se, em vez de fatalidade, coisas que acontecem não sejam trechos de uma apaixonante história de amor? Isso não enxuga lágrimas. Mas fica mais bonito.
Bom dia.
Pode comentar este texto carregando no seguinte link da Província de Piracicaba: Comentário.
Cecílio Elias Netto é fundador do Jornal A PROVINCIA
A PROVINCIA, como jornal impresso, foi fundada em 28 de Agosto de 1987, pelos jornalistas Cecílio Elias Netto e Gustavo Jacques Dias Alvim.
Durante duas décadas, com idas e vindas, ela cumpriu o seu propósito e o sonho desenvolvido: recuperar a memória de Piracicaba, especialmente através da oralidade de seus mais antigos moradores, contar a história do município e da região, com fartura de documentos e de fotos e postais.
O lema continuou vivo quando, há cerca de dois anos, A PROVINCIA ingressou no universo digital, criando A PROVINCIA electrónica, com o mesmo objectivo e a mesma motivação: «Paixão por Piracicaba».
Piracicaba é um município do estado de São Paulo. Sua população estimada em 2008 era de 365.440 habitantes.