Pagª 37 - EDIÇAO NºXXXIII , IIº NUMERO  DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Amputadas em Concurso de Beleza

Por Carlos Carito

Há coisas que nos surpreendem sempre mesmo que tenhamos o cuidado de percorrer esse mundo da Net minuciosamente.

Algures atrás de uma página ou de uma simples notícia sobre algo totalmente diferente pode estar alguma coisa que nos desperta uma maior atenção: referiu este jornal aqui há tempos a história do «bumbum dourado» onde se tratava de noticiar o cancelamento feito pelas autoridades angolanas de um concurso que alegadamente teria ultrapassado os termos da sua autorização (condição para ser autorizado, afinal).

Nesse panfleto original constaria, pelo que tivemos acesso, que o Bumbum não trataria de fazer mostrar o bumbum mas sim as mais bonitas pernas das concorrentes, contando em dólares os prémios (20.000 para a vencedora da final).

Só que aparentemente a luta terá sido renhida para uma avaliação correcta do júri e a exigência panfletária passou para outras etapas de critério selectivo, acabando, na parte cancelada - a final - por exigir das concorrentes que mostrassem «a parte mais superior das pernas» de forma o mais provocante possível. O «espectáculo» foi cancelado com intervenção da Direcção Regional dos Espectáculos de Luanda e intervenção da Governadora Civil do Distrito.

Ora, jovem ou velha democracia, não interessa muito, costumes e hábitos diferentes daqueles que são (?) típicos dos Europeus a coisa passou-se em Angola, quer dizer, em Africa e como de lá só estamos habituados a ouvir falar de outras desgraças (graças às Ong’s que tratam dessas coisas todas e de as publicitar) o bumbum aparentemente morreu nas memórias.

Curioso é que, compilando a informação que esta mesma Net nos proporciona, para o bem e para o mal, vamos encontrar pessoas que, em nome da liberdade de expressão bumbunal (certamente) acham que se tratou de um atentado contra a liberdade de expressão (bumbunal, como dissemos) e curiosamente não se trata do comum dos mortais (estes queixam-se de ter pago o bilhete e não ter visto nada) mas sim de pessoas que pelo menos deveriam ter uma perspectiva já não digo totalmente oposta mas pelo menos mais ponderada sobre as coisas.

Vejamos o que nos diz o curriculado Belarmino Van- Dúnem que é Licenciado em Filosofia, Pós-graduado em Relações Internacionais Africanas, Mestre em Estudos Africanos – Desenvolvimento Social e Económico em Africa. Professor Universitário das cadeiras de Politica Externa do Estado e Diplomacia. Publicou, em 2008, o Livro Prevenção de Conflitos em Africa - Da OUA à União Africana e é ainda Analista de Politica Internacional que fecha uma dissertação com estas palavras:

«O Bumbum Dourado poderá realizar-se de forma secreta, dando a sensação àquelas pessoas que estão a transgredir as leis do país, mesmo fechadas num recente (ele aqui quer dizer recinto) privado. Deviam deixar o concurso do Bumbum Dourado decorrer em nome da liberdade.»

O problema até é – não fosse a «vulgaridade» do tema – interessante, para análise do pensamento deste Analista: para além da asneira do bumbum dourado poder ser uma demonstração da liberdade ou de liberdade (eu vejo-o como uma forma de exploração da mulher) , temos ainda o argumento que precede: feito na clandestinidade, o tal de bumbum, não só é clandestino como coloca as pessoas perante a sensação de que podem infringir a lei e, pelo que se depreende, dar-lhes uma sensação de poderem proceder «livremente» através da ausência do Estado o que levado mais longe poderá querer dizer que existem duas liberdades: uma patrocinada ou vigiada pelo estado e outra nos recônditos corredores da clandestinidade aparecendo esta última como alternativa às limitações que o estado impõe.

Ora seria bom saber-se sempre que o Estado somos nós todos e que seria sempre uma manifestação «nossa» (ainda que marginal, mas nossa) esse tal de bumbum clandestino nunca se tratando de uma manifestação de liberdade porque rejeitada pela sociedade (representada melhor ou pior no aparelho de Estado).

Mas outra coisa, que dá título a este artigo torna-se igualmente interessante de analisar e embora triste (preferia sinceramente não falar disto!) está igualmente suportada por um outro curriculado.

Trata-se do Concurso Miss Landmine ( Landmine Survivor’s Fashion - Angola 2007) concebido e dirigido por Morten Traavik (Norueguês).

Deixemos o homem falar, o Sandro Brincher que é graduado em Letras (Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa) e mestrando em Teoria da Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina, onde trabalha com Literaturas Africanas em Língua Portuguesa.

Diz o Sandro : «O artista norueguês Morten Traavik visitou durante meses dezenas de centros de reabilitação de sobreviventes de minas terrestres em toda Angola em busca de beleza. Exacto, beleza. Sua ideia era reunir candidatas para o concurso Miss Landmine, idealizado por ele, que premiaria a vencedora com uma prótese. Não é necessário dizer que sua iniciativa foi repudiada por muita gente, sobretudo pelos que jamais moveram uma palha em relação ao assunto, mas que estão sempre prontos a atacar atitudes alheias.

A parte a discussão ética, o aspecto artístico do concurso deveria ter despertado mais que repulsa. Afinal, estamos falando de um concurso de beleza onde os moldes são absolutamente marginais: mulheres, negras, africanas, de cujos corpos falta um membro que é justo o que lhes permite andar normalmente. Vítimas da discriminação mesmo entre os seus.

Preciso é dizer, também, que não fosse o concurso, algumas dessas mulheres jamais alçariam suas vozes, jamais teriam toda essa atenção voltada a elas e, afinal, ao problema primordial: a covardia das minas e os efeitos que trouxeram a milhares de pessoas em um país que está cansado de chorar suas perdas.» (fim de citação).

 

 

Ora o Morten Traavik, dado o sucesso obtido em Angola partiu para outras paragens (Camboja e futuramente Afeganistão, nos seus planos) com o mesmo objectivo que se resume aqui:

«Here the counterpoint is to put «landmine» and «miss» together. It's the counterpoint of the serious and tragic reality of landmines and the joyful celebration of life inherent in a beauty pageant.»

O que traduzido quer dizer mais ou menos isto : Aqui o contraponto é colocar a mina (anti-pessoal) e o termo Miss juntos. É o contraponto da séria e trágica realidade das minas anti – pessoal e a alegria da celebração da vida numa exibição de beleza.



Reparamos que o prémio são próteses (embora algumas das premiadas exibam notas – ver aqui - ) que afinal lhes são devidas (as próteses) com concurso ou sem concurso, e reparamos no facto que não parece absurdo termos que referir que as minas infelizmente não fizeram só amputar membros inferiores, nem causaram mazelas apenas ao nível das pernas: há milhares de pessoas em Angola, e noutros países que morreram, que ficaram sem braços, com a cara desfeita (que se nos seja perdoada a crueza), milhares de crianças que ficaram órfãs, enfim…um rosário longo de desgraças.

Que contraponto se faz nestes casos? Porque não há misses para essas coisas? Simplesmente porque não pode haver...Porque é que o Morten não é questionado sobre isso? Eu, pessoalmente, não estou de acordo com estas demonstrações de «alegria de viver» e não considero que seja são em termos psicológicos tentar fazer uma superação fugaz dessas trágicas situações todas.

Encaminho mais este tema para o plano da psíco - patologia não o limitando ao corriqueiro termo do mau gosto . Mas este mundo é mesmo cão, por vezes!