Pagª 7 - EDIÇAO NºXXXIII , IIº NUMERO DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
O Calendário
Conto
Por Arlete Piedade
A menina tinha entre quatro e cinco anos. Era curiosa e viva, interessada nas letras e nos desenhos, mas ainda não sabia ler.
Vivia numa aldeia simples e pobre, e passava muito tempo naquele quarto simples, porque estava doente e era inverno. Fazia frio lá fora e chovia, e a mãe não a deixava sair, para não piorar.
Era no ano de 1960, não havia televisão, e o rádio só chegaria áquela casa na sua adolescência. A menina não tinha muitas coisas para lhe despertar o interesse pelas letras, apenas um jornal regional que o pai assinava, e as caixas dos medicamentos que ela tomava para a sua doença.
Mas a pequena só via os desenhos das letras e curiosa perguntava á mãe o que era
aquela letra e aquela e a outra e a mãe ia respondendo:
- É um A, um E – e por aí fora.
Até que um dia o pai chegou do trabalho com um embrulho comprido e estreito, que desembrulhou e pendurou na parede do quarto da menina fascinada, que passou a admirar por longas horas, aquele objecto misterioso, brilhante, cheio de números e letras. Tinha várias folhas, que o pai da menina ia mostrando e em cada folha, imagens misteriosas de altas montanhas e casas muito estranhas, feitas de pedras e sem telhados.
Entre as casas, ruas que subiam e subiam pelas montanhas, também feitas de pedras e torres, muitas torres com degraus enormes. Mas não havia ninguém naquelas casas e naquelas ruas, como seria viver naquele local misterioso?
A menina doente foi melhorando enquanto via o calendário sempre pendurado na parede do quarto e ia fazendo perguntas que os pais respondiam como sabiam. A mãe da menina dizia-lhe o nome dos números e das letras, o pai contava-lhe que aquelas imagens eram de uma antiga cidade em ruínas, onde há milhares de anos, tinham vivido pessoas que pertenciam a um povo chamado Os Incas.
Mas o que também chamava a atenção da criança, era o nome do calendário, porque aquela palavra que tinha duas partes, separadas por um grande pneu, a mãe não sabia ler.
O pai, que era motorista de um camião explicou-lhe que aquelas palavras eram a marca de pneus, e que se liam gudiare, mas o que fascinava a menina era a história da cidade antiga, que ela aprendeu que se chamava Machu-Pichu.
O calendário permaneceu pendurado naquela parede alguns anos, a menina foi para a escola, aprendeu as primeiras letras, e conseguiu ler sózinha o nome da cidade e a marca dos pneus. Agora ela sabia que era Good-Year e que não era português. Mas só alguns anos depois soube que o significado daquelas palavras era «Bom Ano».
E na verdade foi um bom ano, a menina curou-se da sua doença, passou a ir á escola, mas os sonhos tinham começado a germinar na sua mente. Na escola havia um armário no atrio, que tinha dentro das portas envidraçadas, alguns tesouros que a menina cobiçava. Eram livros de histórias, os primeiros que ela via e podia ler. Logo que a professora autorizou ela leu o primeiro. Chamava-se «O Ladrão de Bagdad». Tinha desenhos e histórias admiráveis de ladrões, príncipes e princesas. E tinha locais misteriosos e longínquos também, onde se passava a história.
Aquela menina passou a sonhar em visitar aqueles locais quando fosse grande e ajudar a decifrar os mistérios de antigas civilizações. Escrevia redacções onde expressava os seus desejos e que os professores incentivavam , aconselhando os pais a prosseguirem os seus estudos.
Nos anos da adolescência e juventude, passou a estudar história do mundo e das antigas civilizações e os sonhos voltaram em força. Como admirava os arqueólogos, os historiadores, os exploradores de selvas virgens, os descobridores de mistérios! Ah ser arqueóloga, que desejo! Mas ela nem fazia ideia como tornar possível esse sonho!
Quando descobriu como frequentar as bibliotecas públicas, passou a ser uma leitora compulsiva! Leu colecções inteiras de livros juvenis, depois de aventuras, depois de mistérios, dramas, romances, quanto mais misteriosos mais lhe inflamavam a imaginação ardente!
Os pais desejavam que fosse professora, mas acabou por estudar num curso comercial, para arranjar um bom emprego! – Diziam os pais.
Conseguiu o tal emprego, e com os seus primeiros ordenados passou a comprar livros de mistérios, muitos livros que devorava e coleccionava. Namorou, casou, teve filhos, passou a viver uma vida de classe média nos subúrbios de uma grande cidade. Quando saía do emprego passava na livraria em frente, á procura do último livro de ficção científica publicado! Lia, lia muito! Sonhava, sonhava muito!
Até que um dia...descobriu-se cansada de ler...os olhos estavam fracos! Custava-lhe focar-se nas letras...passou a escrever! Escrever os sonhos dos outros e alguns dos seus também!
Já era agora uma mulher adulta e madura, os filhos estavam crescidos, os sonhos armazenados, ainda á espera de uma ultima oportunidade, e abriu a sua caixa de e-mails.
Uma pessoa especial tinha-lhe enviado uma música dizendo ser única e rara! Ouviu com toda a atenção! Um descendente dos Incas, tocava numa flauta uma melodia misteriosa e comovente, acompanhado de uma orquestra, ele era o solista!
Enquanto ouvia aquela música, na sua alma renasceu o sonho! Voltou á infância! Reviu as tardes e os dias olhando pela janela do seu quarto, as andorinhas nos ninhos na velha casa em frente, a chuva a cair, o gelo acumulado na janela, e aquele calendário!
Machu-Pichu, os Incas, a cidade misteriosa! Os desejos de ser arqueóloga, exploradora, viajante! Sonhos de criança, sonhos pueris! Ou não? Mas os anos passaram, tantos já! Será que ainda é possível o resgate de alguma parte dos velhos sonhos?
Poema de Patrícia Neme
Me pedes das feições... Contempla os traços
das vidas, cujo lar é uma calçada.
Caminhos, onde os sonhos são escassos,
aos quais o fado oferta o nada... Nada!
Encontra-me no olhar do pequenino
privado de carinhos, de alimento;
na infância - filha de único destino:
um chão, sem sepultura, alma em tormento.
É minha a voz pungente em elegia
às ilusões ceifadas pela guerra
(por quê pretendem vã toda agonia
da cruz, a suplicar por paz na terra?).
Meu rosto é feito da pura energia,
criando as esperanças do amanhã;
é cheiro de pão quente e mão macia
que planta e colhe o fresco do hortelã.
Em mim repousa o credo na igualdade
dos povos, pouco importam credo ou raça;
e a gratidão à eterna divindade
que a bichos, gente, plantas, tudo abraça.
Eu sou o verso aceso, alma serena,
sou noite perfumada de jasmim;
mãe de toda Maria - ou Madalena...
Me pedes das feições... Eu sou assim!
Jean Wyllys - Não pertenço ao BBB5.
Valdeck
Almeida de Jesus
Entrevista a Agustín Carvalho (BR Press) para o MundoMais
Sou um escritor com dois livros já publicados e um jornalista com dez anos de carreira. (Jean Wyllys)
Jean Wyllys foi lá e venceu. Ganhou R$ 1 milhão no Big Brother Brasil 5 (BBB5) e
ficou famoso por assumir sua homossexualidade no reality show. O que ele fez com
o dinheiro? Certamente aproveitou, entre outras coisas, para se dedicar a
escrever – além de administrar uma grife, em Salvador. Tanto que ele lança seu
terceiro livro, Tudo ao Mesmo Tempo Agora. São crônicas inspiradas em produtos,
fatos e personalidades da indústria cultural e nos modos de vida gay.
Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Jean Wyllys, é
direto. «Não ofereço novidade em termos de literatura», admite. Além de lecionar
Teoria da Comunicação na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), no
Rio de Janeiro, Jean trabalha com direção musical, uma de suas paixões, e já
escreve seu quarto livro.
Quando o tema é Big Brother Brasil, prefere não comentar e, se o repórter
insiste, ele roda a baiana. «Para início de conversa, vamos deixar de lado essa
história de BBB. Não pertenço ao BBB5. Sou um escritor com dois livros já
publicados e um jornalista com dez anos de carreira. Minha participação em um
reality show não pode rasurar minha formação e história», comenta.

Antes de Tudo ao Mesmo Tempo Agora, que será distribuído nacionalmente pelas
livrarias Saraiva e Siciliano, e estará disponível para venda nas lojas a partir
de 01/03, Jean Wyllys escreveu, em 2001, Aflitos (vencedor do Prêmio Copene de
Cultura e Arte, concedido pela Fundação Casa de Jorge Amado) e Ainda Lembro, em
2005. Em entrevista ao MundoMais, Jean Wyllys fala sobre seu novo livro,
indústria do entretenimento, militância em favor do universo LGBT (Lésbicas,
Gays, Bissexuais e Transexuais), militância gay e de suas atividades
profissionais.
MundoMais – O que o levou a escrever um livro sobre esse tema?
Jean Wyllys – Tudo ao Mesmo Tempo Agora reúne crônicas inspiradas em produtos,
fatos e personalidades da indústria cultural (literatura, cinema, TV, etc.) e
nos modos de vida gay. As crônicas tratam de assuntos diversos e foram escritas
em momentos diferentes. Elas são marcadas pelo tempo, mas sobreviveram a ele
porque continuam fazendo sentido fora de seus contextos originais. Além disso,
as crônicas têm algo em comum – o que me permitiu reuni-las num mesmo livro: a
tomada de partido ou posicionamento político em favor dos direitos de minorias,
em especial da comunidade LGBT.
MM – Você critica a indústria do entretenimento e a forma como a cultura gay é
vista. Não acha que seu livro também faz parte desse tipo de cultura? Por quê?
JW – Criticar a indústria do entretenimento não significa ser contra ela nem
querer estar fora dela. O meu livro faz parte da indústria cultural, mas o de
Paulo Coelho, o de Nélida Piñon, as caixas com as obras completas de Clarice
Lispector, os de Jorge Amado e os livros de auto-ajuda para executivos vendidos
em aeroportos também. A crítica à indústria cultural é salutar para o bom
funcionamento da mesma. Oxalá mais pessoas fizessem isso!
MM – O tema homossexualidade sempre esteve presente na vida do ser humano, mas
menos evidente do que hoje. Você pensa que o programa BBB5, no qual você falou
de sua opção sexual, e conseguiu ganhar o reality show, ajudou a quebrar alguns
estereótipos?
JW – A militância lutou muito para encontrar uma palavra que livrasse o sexo e o
amor entre iguais dos significados que tem o termo «homossexualismo»: doença,
perversão, pecado. Acho que a visibilidade alcançada por um homossexual não
estereotipado, inteligente, honesto e com uma origem parecida com a da maioria
do povo brasileiro em um reality show de grande audiência ajudou, sem dúvida, a
derrubar preconceitos em relação aos homossexuais.
MM – Além de ser escritor e jornalista, você também tem a música como uma de
suas paixões. Que trabalho realiza no meio musical?
JW – Eu dirijo shows e videoclipes, algo que também está dentro da formação e
das funções de um comunicador. Além disso, eu adoro música. Conheço bastante
MPB. Compro muitos discos. Assisto a muitos shows. Logo, tenho repertório
cultural e sensibilidade para me envolver na direção de um videoclipe ou de um
show. Mas faço isso porque eu gosto e me dá prazer. Fiz para pessoas que admiro
como artistas e são minhas amigas. Não quero ser «o diretor».
MM – Qual a importância do livro Tudo ao Mesmo Tempo Agora para a comunidade
LGBT e para os leitores, independente de suas orientações sexuais?
JW – Posso dizer que o livro é importante para mim porque representa um desejo
de comunicação com o outro, esforço de politização da existência, uma
contribuição para um mundo melhor para todas as pessoas ou, no mínimo, para
alguns momentos de prazer com a leitura.
MM – O que o leitor vai encontrar de novidade em seu livro Tudo ao Mesmo Tempo
Agora?
JW – Meu livro não quer nem vai dividir águas. É só um livro de crônicas que
expressam meu ponto de vista acerca de uma série de assuntos, em especial
aqueles ligados aos modos de vida gay e sua relação com fatos, pessoas e
produtos da indústria cultural.
MM – Entre escrever um livro, dar aulas na universidade, trabalhar com música ou
na televisão, qual sua atividade preferida? Por quê?
JW – Escrever Tudo ao Mesmo Tempo Agora.
MM – O que é preciso mudar na indústria cultural e do entretenimento para que
estas cumpram seu papel social e de interesse público?
JW – Essa pergunta dá uma tese. Não tenho como dar uma resposta completa e
profunda neste espaço. Agora, digo que indústria do entretenimento precisa se
abrir para a diversidade e o risco. A teledramaturgia da TV aberta, por exemplo,
precisa de mais Luiz Fernando Carvalho. E o humor precisa de mais humoristas,
comediantes e jornalistas como os do CQC [Custe O Que Custar].
MM – Com o surgimento da internet e a convergência das mídias é mais fácil
transmitir determinadas militâncias, como você faz no seu terceiro livro?
JW – Sim. Com as mídias alternativas é possível militar e relativizar certas
verdades.
MM – Culturalmente, o que mudou em sua percepção depois que você participou do
BBB5 e trabalhou no Mais Você, quando o tema é televisão?
JW – A participação no BBB5 e no Mais Você não mudaram minha percepção sobre a
TV como meio de comunicação de massa. Ela é um meio de comunicação e, como tal,
produz imaginários, mentalidades, visões de mundo. Ela deve ser levada a sério.
O entretenimento que a TV oferece às massas não pode ser esnobado pelas elites,
principalmente por aquela que trabalha e ganha muito dinheiro nesse meio de
comunicação. Essa percepção é anterior ao meu ingresso na TV e ela só me ajudou
a ser mais responsável e consequente quando participei do BBB e trabalhei no
Mais Você.
MM – Sobre o universo gay, o que é preciso fazer para acabar com alguns
preconceitos? Tudo ao Mesmo Tempo Agora pode ser considerado um livro didático
sobre o tema?
JW – Não, meu livro está longe de ser didático. Não sei o que é preciso fazer
para acabar com os preconceitos em relação aos gays. Sei o que eu preciso fazer
nesse sentido.
MM – Quais são seus projetos profissionais?
JW – Não tenho projetos. Tenho trabalhos: outro livro para terminar, muitas
aulas para dar e muitas crônicas para escrever.
Fonte: http://www.galinhapulando.com/visualizar.php?idt=1729150