Pagª 11 - EDIÇAO NºXXXIII , IIº NUMERO  DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         


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Maria da Fonseca

Pertenço a ti, Natureza

Pertenço a ti, Natureza,
Como vós, filhos de Deus!
Nunca sozinha serei
Ao lado dos irmãos meus.

Eu pertenço-vos enquanto
Todos vós me pertenceis.
Nossa origem foi a mesma,
Variados os papeis.

A vida vive em redor,
Em toda a parte ela habita.
O nosso Deus projectou
E criou-a infinita.

Venho rogar ao Senhor,
Que de mim se compadeça,
Concedendo-me outras vidas,
Em que a musa não esmoreça.

Sei que dela faço parte
E jamais a deixarei.
Deus, o Todo-Poderoso,
Agora e sempre amarei.


A Folha Ferida ...

Feri uma folha linda
Da minha chuva de prata.
Se tem sistema nervoso,
Decerto me julga ingrata.

- Desculpa, foi sem querer,
Respeito todo o ser vivo,
E o trato como irmão, -
Mas, um tom acusativo,

De repente, eu pressinto.
- Como faltas à verdade!
Tudo comes, satisfazes
A tua necessidade.

Dizes ser filha de Deus
E, de Jesus, muito amiga.
Até prometes amar
Tua própria inimiga.

Da Criação, os seus dons,
Agradeces, reverente,
E crês que este mundo existe
Para te servir somente.

O Senhor te deu a alma
Na vida que recebeste.
Já pensaste, minha irmã,
Como te comprometeste!

Também recebi do Alto
Esta vida que aprecias.
Presa à terra pelo caule,
A louvar, passo os meus dias!

 


JORNADA CREPUSCULAR

PESSIMISMOS JUSTIFICADOS

Por Mário Matta e Silva

Hoje vou recuar de novo no tempo, nesta jornada crepuscular, para ir ao encontro desse grande escritor e colunista que foi Eça de Queiroz.

No ano da graça de 1890, Eça deixava reunidas as suas crónicas registadas em AS FARPAS (com Ramalho Ortigão) e a esse livro deu o titulo de «Uma Campanha Alegre». A abrir esse conjunto de textos, repletos de uma saudável ironia, podemos ler, do sua primeira crónica, (de 1871) a seguinte passagem:

«O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há principio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma inércia dormente. O desprezo pela ideias aumenta em cada dia. Vivemos aos acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! (…)»

Esta citação bem merece que seja identificada na conjuntura da época em que estas crónicas foram escritas, em que o rotativismo minava as instituições politicas sem qualquer estabilidade governativa. A economia, a instrução, a agricultura, a industria, o comércio, a justiça estavam a pique, à beira do colapso.

Mas, ponderada esta exaustiva análise, como podemos compará-la aos dias que hoje vivemos? Para tal será bom avançar 138 anos, passar por uma louca primeira República, de 16 anos (após um regicídio), percorrer uma ditadura de 48 anos, e chegarmos à actual República que já preencheu 35 anos, desde Abril de 1974, para nos interrogarmos sobre o regime democrático que hoje temos. O que vemos e o que sentimos nestes últimos anos?

Muito do que está referido por Eça de Queiroz se aplica hoje certamente. Vindo de jornada pela nossa História, tudo nos parece tão igual e tão incrivelmente repetido, tão exoticamente pardacento e tão ironicamente atribulado.

Não é por acaso que os políticos nos surpreendem todos os dias e que as instituições de um Estado de Direito sofrem abalos persistentes. Que diferenças existirão entre os políticos de ontem e os de hoje? As bengaladas no hemiciclo? Os manguitos à Zé Povinho? Os impropérios de mau gosto? O cinismo? A traição? A injuria?

Esta verdadeira «caldeirada» politica não continua a ter de tudo isto? Pois se formos às nossas raízes, certamente chegaremos ao parlamentarismo liberal de 1820 e chegamos depressa ao tempo de Camilo Castelo Branco (A Queda de um Anjo) com o qual o Parlamento foi convenientemente reproduzido e a politica em geral ironicamente desmontada.

Românticos e Realistas aí estiveram em cima dos acontecimentos para lhes darem, pela escrita, o devido relevo, para gáudio dos seus leitores.

Que nos resta pois senão esfregar as mãos, nesta indigência, onde o desemprego, a falta de educação, o baixo nível de instrução, a lentidão da justiça, o peso megalómano das grandes obras públicas, o aumento do endividamento externo, os maus serviços públicos, persistem… talvez, quem sabe, seja cruelmente eternizado, porque inerente à nossa Cultura!

Como não pensar assim, com este cruel pessimismo, se ainda agora saímos de um caso caricato de um Ministro, investindo com um «par de cornos» (feito com os dedos, claro!) em pleno Parlamento, fazendo da Assembleia da Republica uma arena repleta de gente perplexa tendo como resultado abordagens recriminatórias, pedidos de desculpa, e por fim, a queda do próprio ministro com a sua demissão em pleno, em publico, em «pontas»…

Volto às sombras do crepúsculo para num encolher de ombros desabafar: pois, com tudo isto, não é caso para termos um pessimismo justificado? Infelizmente assim é, até quando, não sabemos…