Pagª 9 - EDIÇAO NºXXXIII , IIº NUMERO  DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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A BELA LIBANESA

Sandra Fayad

 

Nasceu e viveu a maior parte de sua vida em Catalão. Era a filha do meio de uma irmandade de sete descendentes legítimos do vistoso casal de libaneses que chegara à cidade em 1910, com a pretensão de construírem uma nova história de família e fortuna.

Conta-se que Maria, a mãe, era muito bonita, refinada e de personalidade forte. Tinha a seus pés quatro pretendentes a marido. O avô, homem liberal e à frente do seu tempo, experimentava grande dificuldade para decidir qual seria seu genro, tais eram as boas condições dos candidatos. Resolveu então chamar a filha e disse:
- Como estou em dúvida sobre qual será o seu marido, vou lhe dar a oportunidade de escolha. Converse com cada um deles e depois me diga qual o que mais lhe agradou.

E a moça optou por casar-se com Miguel, aquele elegante árabe «cara de cavalo de raça», sobrancelhas espessas, olhar penetrante, que dera aulas na Universidade do Líbano e viera parar no Brasil por motivos políticos. O casamento, no interior de São Paulo, foi pomposo e regado a muito amor.

O casal teve três filhos homens antes do seu nascimento, e depois mais um. Por ser a primogênita das três filhas, aos seis anos já subia em um caixotinho para alcançar as panelas na fornalha e refogar o arroz ou o feijão, enquanto a mãe limpava e cortava os legumes para alimentar a criançada gulosa. Aprendeu muito cedo a executar as tarefas domésticas, principalmente porque uma tragédia abateu-se sobre a sua família, que se constituíra a pouco mais de uma década.

Era uma época sem lei em Catalão, em que a vida de pessoas pouco valia. Matava-se por motivos banais. A inexistência de força policial competente, aliada à ocorrência de matadores de aluguel a serviço de políticos inescrupulosos deixava em pânico a população local.

Nesse dia, ela balançava o berço e cantava para adormecer a irmã mais nova com apenas seis meses de idade, quando ouviu os gritos de desespero da mãe, acompanhados do choro incontido dos irmãos. Seu pai fora assassinado à queima roupa pelo compadre, a quem devia alguns rolos de arame que seriam pagos após a colheita de grãos na fazenda recém cercada. Como o resultado da lavoura foi ruim, o dinheiro não entrou e a dívida não pode ser saldada. O «amigo» resolveu fazer-lhe uma tocaia e o matou friamente, quando o viu caminhando pela rua.

Suas lembranças da infância eram tão dolorosas, que ...
- Não vale a pena contar, dizia ela olhando para o chão, quando perguntada.
O olhar sempre desviado dos olhos do interlocutor era uma característica da sua personalidade tímida e recatada, sua crença em Deus discreta e sua percepção do mundo tão evoluída quanto a do avô materno.

Com a perda do pai, tudo ficava cada vez mais difícil. Sem retaguarda financeira, a jovem e corajosa viúva teve que administrar pessoalmente as terras deixadas pelo marido, a mais de cinqüenta quilômetros da cidade, do outro lado do rio São Marcos. Dali teria que tirar o sustento da família já que, além da casa simples na cidade, aquele era o único bem de que dispunha. Enfrentou com valentia.

A menina via a mãe pegar a arma calibre 32 e enfiar no bolso da combinação entre o seio esquerdo e o pescoço; pendurar os cartuchos de balas atravessado do ombro direito para a cintura do lado esquerdo; montar de lado o cavalo arreado e partir, acompanhada de um guarda-costas ou do irmão mais velho, para a longa viagem até aquelas terras. Não havendo outra solução ficava para ela a responsabilidade de cuidar da casa. Conformada e responsável, tornou-se mãe dos próprios irmãos e dona de casa, antes dos dez anos de idade.

Mesmo assim, não abandonou os estudos. Foi até onde era possível a uma moça da sua condição. Concluiu o Ginásio. Todos admiravam suas frases bem construídas, idéias claras, ótimo vocabulário, caligrafia irrepreensível - letrinhas redondas, bem legíveis. Mas isto, por si só, não lhe garantiria uma profissão. Mesmo que se formasse professora, o salário era minguado, além do que o Governador do Estado demorava até seis meses para enviar o dinheiro da Capital para a cidadezinha.

Resolveu aprender a costurar camisas sociais para homens e até ternos completos, além de vestidos de noiva e outras peças femininas. Foi ensinando o ofício às irmãs mais novas.
Um dos irmãos mais velhos que já ganhava a vida como guarda-livros e se casara em Pires do Rio ficou sabendo que o Seu Elviro Carneiro de Castro, dono de uma alfaiataria do lugar, necessitava de uma ajudante. Arranjou-lhe o emprego e mandou chamá-la. O exigente alfaiate gostou tanto dos seus serviços «caprichados» que pouco tempo depois se sentiu confortável para se aposentar, cedendo-lhe a clientela e boa parte dos equipamentos e ferramentas de trabalho.

O irmão, vendo que o negócio prosperava, convidou-a e às outras duas para morarem uns tempos com ele em Pires do Rio. Ali, se juntaram à cunhada e passaram a coser para a seleta clientela da Região. Não faltava trabalho.

Foi um período próspero, alegre e dinâmico, que deixou boas recordações. Aproveitavam as sobras para criar modelitos exclusivos para si mesmas e vestiam-se impecavelmente. As fotos de época mostram as moças usando penteados maravilhosos, golas rendadas ou cuidadosamente bordadas, vestidos bem assentados em cinturas finas, bem ao estilo dos anos 40. Vaidosas, eram impecáveis no vestir e nos cuidados com a beleza.

Os rapazes da redondeza iam lá encomendar ternos para as festas e aproveitavam para dar umas olhadelas nas beldades, que gostavam de ser cortejadas. Mas o irmão montava guarda permanente.
- Eu recebo as encomendas e tiro as medidas. Elas só cortam e costuram. Para experimentar é comigo também, informava sisudo aos rapazes.

Era proibido namorar homem que não tivesse origem árabe. Poderia ter nascido no Brasil, mas tinha que ser filho de árabe e, ainda por cima, aprovado pela família. De fato, as três meninas se casaram conforme os costumes.

Ela, primeiro. Era a mais velha. Se dependesse da sua vontade, teria escolhido um rapaz que a cortejava em Pires do Rio e teria ficado o resto da vida por lá. Mas os irmãos nunca iriam aceitar. Por isto, nem tentou levar o flerte adiante.

A administração da fazenda pesava muito nas costas da mãe. O irmão mais velho, metido a intelectual, refugava sempre que tinha que pegar no cabo da enxada. O segundo era o guarda-livros que morava longe. A viúva, cansada, se aproximando dos cinqüenta anos, agora só podia contar com o terceiro filho homem e com o filho mestiço do marido morto com a negra Belizária, já que o caçula resolvera estudar para ser médico.

Então os irmãos a convenceram de que estava na hora de casar com um pretendente que era vizinho e amigo deles na infância.
- Rapaz pobre, mas muito trabalhador, passou dois anos no Rio de Janeiro onde está morando sua irmã mais velha. É de boa família, sírio, gente direita. Além disso, pode ajudar a mãe e o João «tocar a roça» e cuidar do gado.

As irmãs, por outro lado, diziam:
- Se você, que é a mais velha, casar vai abrir o caminho para nós casarmos também.
Não estava muito animada com a idéia, mas o que fazer?
Pensou:
- Já estou com 25 anos, morando na casa dos outros. Daqui a pouco vai ficar até difícil arrumar um noivo. E pensando bem, ele gosta de contar histórias interessantes, é trabalhador. Vou poder ter minha própria casa, filhos, viver sossegada...

No começo de 1947, Geni e Jorge se casaram.

Obs: A bela libanesa é mãe da autora.

 

Horta Comunitária 713 Norte - Brasília

Sandra Fayad

Registrei em uma foto um dos momentos mais significativos da minha vida. Faltava exatamente um mês para o aniversário de 91 anos do papai.

Nesse dia, 1º de agosto de 2006, ele estava hospedado em meu sobradinho, para darmos continuidade aos registros das suas histórias ocorridas em Catalão, que iriam se transformar em livro, enquanto vida ainda tivesse. Infelizmente, ele se foi antes da conclusão do nosso projeto.

Nos intervalos entre um relato e outro que eu interrompia, papai, que não conseguia ficar quieto, apesar do agravamento do enfisema pulmonar, resolveu fazer uma limpeza no terreno sob a mangueira e o jambeiro que há na frente da casa.

Rastelou as folhas secas, recolheu os plásticos e papéis trazidos pelo vento, retirou as baquearas com a força das próprias mãos e, quando já cansado e curvado sob o peso da idade, da doença e da coluna torta, - porém de pé bem no meio do terreno - apoiou o cotovelo no cabo do rastelo e olhou para a sua obra-prima, aprovando-a.

Eu, que o observava em toda a sua fragilidade e solidão da janela do meu quarto, me armei de coragem e compaixão e o fotografei emocionada, sem que ele percebesse...

Aos poucos fui organizando naquele local uma das coisas que papai mais gostava: a hortinha de ervas, onde ele ainda participou dos primeiros passos. Foi ali que eu me despedi dele alguns dias após a sua morte, em janeiro deste ano, prometendo-lhe que iria fazer daqueles 38 m² a mais bela horta da cidade. E parece que consegui dar-lhe esse presente.

Veja aqui algumas publicações sobre a Horta Comunitária 713 Norte de Sandra Fayad : Um - Dois - no Site da Sandra e AQUI a última remessa da Sandra: uma relação de plantas e animais que vivem na Horta.

 

Poesia de José Manuel Veríssimo

(ver biografia resumida)

Trazido pelo Mar - ou para alguém que chegou a ser muito especial

Vieste navegando
No barco da vida
A descoberta……….
Quem dera um pouco que fosse
De carinho
Nesse convés de descrença
Em vez de um grito rouco
Uma mão aberta
Que acendesse
Devagar
Assim de mansinho
Uma esperança
Ainda que pouca
Alguém que achasse
Um trilho
Ou mesmo um caminho
Para uma das dimensões
Onde a loucura não fosse louca

Sobre um período do final do ano de 2001 em Lisboa
Seixal, 19/07/2009


Razões

Podes dizer
Que a magia
Transformou a minha vontade
De rastejar
Podes acusar
- como tanta gente
Que o senso comum
É uma semente
Necessária mas daninha
Que recusei semear…………
Mas amigo (irmão)
E planta dos outros
Não é minha
E uma espécie de vento
De sarna ou de tinha
Carnívora e hipócrita
De sapos e de rãs
Alcoólica mas rainha
Da qual me desinfecto
Todas as manhãs

Recuperação de um poema feito em Lisboa a 22.01.2001
José Manuel Veríssimo
Seixal 17-07.2009


Lá do Oceano �ndico ou Sobre uma noite na Internet

Um teclar inibido:
- Quem és?
- De onde teclas?
- Sou de longe
- Sei que é difícil adivinhar
- Quando não se vê
- Mas creio que se sente.
- Falo a tua língua
- Noutro continente
- Pertenço a outras gentes……
Falamos de mães
que salvam filhos
De tanta inundação
Da caridade que pinga
Da informação
Entre o sangue
A saliva e a tinta
As tempestades
E a mingua…………
Ficou ponto assente
Entre continentes
Afectos
Contactos
E pontes
Não vou esquecer
Do que ainda
Tão bem me lembro
Até um dia amigo
Kanimambo

Actualização no Seixal em 17.07.2009 de um poema escrito em 29.12.2000 - Sobre uma conversa na net


Ninhos e Desejos

Caíram Ninhos
Porque não eram Ninhos
Apenas um monte de ervas secas
Sem carinhos

Quando semeamos
As sementes não germinaram
Porque não saciamos a terra
Um dia
Em simultaneo
Fartos de solidão
Encontramo-nos
Num gesto telepático
E espontaneo
Em margens opostas do Tejo

Sentimos levemente
O toque do outro
Como um beijo
Quente……..quente
Ali mesmo
Numa ponte diferente
De corpo e desejo

 

Vivências

Por Liliana Josué

Eu penso que está sol...
Sinto que está sol...
tenho calor
estou mole...

E tu aí?
Como vives o calor?
Será que sentes ardor
ou apenas ignorância
dessa tua inconstância?

Eu vejo o mar azul, limpo.
E tu aí?
Vês o mar no seu total
no seu humor desigual
ora doce, ora fatal?

Eu dou-lhe a areia a namorar
e ele desfaz-se em espuma
deslumbrado.
E tu aí?
Sentes a areia pelo ar
namoriscando o seu mar
afagando como pluma
esse azul... tule adorado?

Todas as minhas vivências
são experiências
pessoais.
E as tuas?
São segredos tão iguais?
NAO

Eu sinto o meu existir
E tu aí?
Existes no teu sentir?...

Liliana Josué