Pagª 17 - EDIÇAO NºXXXIII , IIº NUMERO  DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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 Coluna de Liliana Josué  

NA JANELA DA MINHA VIDA

Sentei-me à janela da minha vida
uma procissão de personagens desfilou
o sol desmaiava de vergonha
como tela desbotada, sem imagens.

Fechei os olhos e vi
beijos e bandeiras pejados de esperanças
cantares de primavera
viragens e crenças
mudança iminente.

A certeza na igualdade
foi minha companheira
como verdade certeira.

Corri, sorri, gritei, acreditei...
Ai meu horizonte de cor
meu suspiro tão fraterno.
Tudo nascia em verdade.

Acreditei no que fiz
por momentos fui feliz.

SUSPIRO

Lembro-me de ti
há já muito tempo
talvez do princípio do mundo.

Sei que te vi
como a minha salvação
da solidão que vesti.
Teu olhar deu-me alento
para me olhar bem no fundo.

Caminhei na tua direcção
confiante
num suspiro delirante.

Foste luz, paz, vida...
foste tudo.
Eu do meu recanto mudo
saí
numa onda de paixão
gratidão e confiança.

Mas tropecei no acaso
e sem saber como
caí.

 

 

Coluna de Rosa Pena

Olha a lua de frente!

O dia cada dia emagrece mais e a noite já veste manequim 36. Não existem mais cravos, só lapelas e ainda assim você teima em roubar a orquídea do rei, para dar a ela!   

Desnudo seus pensamentos, seus gostos incomuns, coloco interjeições em sua mente, indico seus paradoxos, seus métodos poucos ortodoxos, aponto suas abstratas conclusões, enumero seus senões, culpo suas maldades disfarçadas em ingenuidade, abro fendas em seus delírios, quebro o cristal que envolve suas ilusões, apresento seu rosto para um espelho com lente de aumento, desafino seu solitário karaokê, faço uma leitura irônica de seu melhor poema.

Nesse momento você grita com seu criado - mudo que esse amor sem documentos, que tanto apregoou aos vinte ventos, mora somente em livros desprovidos de sopros de razão.

Sonetos não abastecem geladeiras, poesias não recebem décimo terceiro! Sei que você me odeia, pois em seu cérebro sou o tino.

Aceita uma sugestão?

Entorpeça-me com um doze anos e volta a ter dez. Poetas não olham a lua de viés. Ah! A orquídea está escondida naquele verso que você ainda não fez.

Chegou a vez.

Sugestão

Cecília Meireles

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.
Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.
Lua que envolve igualmente os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar de noite:
sussurrante de silêncios
cheio de nascimentos e pétalas.
Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino
e à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

A cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.
Sede assim, qualquer coisa, serena, isenta, fiel.
Não como o resto dos homens.