
Pagª 20 - EDIÇAO NºXXXII , Iº NUMERO DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Joaquim de Fiore e August Comte
(Continuação - ver Início)
A figura de São Bento (480-547) não é idêntica á do Profeta Elias, (Sec. IX A.C.) mas a obra do abade de Monte Cassino (S. Bento) repete, num plano superior, a do ermitão do Monte Carmelo (Elias).
Investigar essas analogias ou
«concórdias» é, para Joaquim de Fiore, a grande incumbência do exegeta. Quem,
munido desta chave, conseguir entrar na tipologia da Escritura Sagrada será
também capaz de entender o profundo significado da história moderna.
Por outras palavras e através de um sistema previamente construído, ainda que
não de todo conhecido (faltará a chave) o homem constata as coincidências
temporais, resume estas e tem consciência que o «segredo» do conhecimento está
numa hipotética chave ou combinação metodológica que doará o conhecimento da
história moderna, entendida aqui como sendo o conhecimento absoluto de tudo o
que irá acontecer, precisamente porque essa metodologia (chave) sendo a mesma
que orientou o passado será a mesma que orientará o futuro, consciência que se
tenha que o sistema funciona em plataformas que se repetem.
Breve, num e noutro caso, nos seus últimos estados, põe-se por exclusivo o
problema do conhecimento e nunca o problema da acção (praxis) e a vida do homem,
como ser componente da história.
Os dois Estados anteriores referem-se, de uma forma geral, à atitude do homem
perante a natureza, a sua forma de compreensão dela e dos Deuses ou Deus que
lhes está subjacente: no primeiro Estado desconhecido ou incompreendido, no
segundo Estado personificado ou unificado numa ou em várias entidades e no
terceiro Estado,
predestinado em Fiore e resultante de uma impossibilidade de conhecimento
constatada em Comte.
Enquanto que em Fiore o segredo do futuro pode ser conhecido (mas não
transformado) em Comte o futuro pode apenas ser conhecido no campo restrito do
acontecer, o que de alguma forma vem dar ao mesmo uma vez que um e outro
sistemas não actuam sobre esse mesmo futuro.
Em qualquer um deles predomina pois o destino, o facto consumado desde o
princípio dos tempos, e a margem de liberdade do ser humano restringe-se ao
exercício de especulações inseridas em campos pré-delimitados (num caso por
força das coisas e noutro caso por força de uma constatação dessa mesma força
das coisas).
A acção humana, que pode existir dentro de um campo delimitado é de alguma forma
serva dessa mesma condição.
Daniel Teixeira
Estrada de ternura.
Poema de Arlete Deretti Fernandes
Vou guiando meus passos na estrada da ternura.
Meus pés pisam firmes, silenciosos, macios...
enquanto a sensibilidade de poeta
toca-me a alma e faz-me sentir o encanto
da magia da palavra na doce brisa que sussurra.
A leveza de meus pés livres na relva,
o encanto da harmonia que se expande num frêmito
em meu corpo suado, gotejante...
Encontro-me com a alegria, encanto-me com a poesia.
Amizade, amor, paixão, loucura!
É uma longa estrada coberta de suave textura
São passos perfeitos, livres, enamorados,
percorro a trilha que me conduz ao infinito,
Enquanto o vento forte acaricia-me com doçura.
Encontrei neste caminho a delicadeza e a ternura.
Papel e caneta são sem dúvida, os melhores amigos dos amantes da
escrita! Em forma de versos, ou de frases, vão construindo
silenciosamente e ao ritmo do escritor, poemas e prosas, que se pretende
que algo transmitam… deixem na memória… deixem para a posterioridade…
deixem para fazer história… Para uns, trata-se de aventureiros, para
outros, de seres especiais portadores de um dom… o de bem escrever! Há
ainda, quem declare que «mais perto de deus se devem encontrar», pelo
que escrevem, pelo que transmitem…
VER E SENTIR
Cristina Maia Caetano
(XXXII)
É lindo, uma folha vazia, ficar repleta de letras, que unidas constroem
frases, e que por sua vez vão dando corpo a parágrafos, que agora unidos
criam artigos, depois ensaios, depois livros… Sempre a vapor, escrever e
escrever sem cessar, é lindo, mas que dá trabalho, isso dá! No entanto,
muitos são os dizeres: «Que belo trabalho que agora arranjaste! É só
sentar em frente à secretária e escrever! Não se faz nada! Que rica
vida! Ora se trabalhasses a sério!»! Sim, de facto muitos são os que
assim pensam. Em contrapartida, felizmente que muitos já existem com
visões bastante mais alargadas! E são esses que ainda vão animando e
dando alento, a quem tanta imaginação tem para dar e oferecer… e, costas
aguentem! Dedos aguentem! Massa encefálica aguente!
Escrever, é pois uma dádiva que tem de ser bem cuidada e guiada… mal
levada pode destorcer ideias e imagens, formando caracteres dúbios… bem
guiada, cria o mundo, abre fronteiras, destrói barreiras
transformando-as em pontes! Suporte do bem falar, o bem escrever
continua a ser uma dádiva, que pode influenciar uma pessoa, dez, mil,
milhões… E o escritor sem o saber, sem se preocupar com isso tem o poder
de influenciar, de mostrar novas visões, novas coisas, novas fantasias,
novas histórias! É pois, decerto um belo trabalho, que ainda sem o
saber, o escritor pode ter poder, porque mais perto do divino se
encontra, e simultaneamente mais perto de milhões de seres que um dia o
poderão ler…
E o escritor, escrevinha, escreve, constantemente, insaciavelmente! O
seu trabalho é esse: escrever sem prazos, com prazos, com editores, sem
editores! Uma ameaça constante pendente no seu pescoço, que não se rala
com as contas da luz, do supermercado, da água, … alias e bem vistas as
contas, ninguém quer saber! É uma vida inconstante, e diferente do resto
dos mortais, talvez porque quem envereda por este ramo, tem mesmo de ser
em primeiro, diferente, depois crente nas suas capacidades,
voluntarioso, teimoso quanto baste e persistente, uma, duas, três… até
os seus principais intentos serem concretizados: a sobrevivência da
escrita, pela escrita e pela vida! E… no final das contas, …o que
interessa mesmo é ser-se feliz! Depois … bem aventurados sejam os «tais
aventureiros escritores… os tais que nada fazem!», pela coragem e
audácia de pretenderem colorirem e animarem a sua vida, a nossa, a dos
outros! Bem-hajam, pois!
Se puderem, lembrem-se pois, de pensarem carinhosamente no assunto e com
a certeza que o melhor é mesmo não se fazerem julgamentos...