Pagª 32 - EDIÇAO NºXXXII , Iº NUMERO  DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Histórias da Vida Real

Crónicas por Martim Afonso Fernandes

«Boca Livre», o Repórter Mentiroso
(que aumenta, mas não inventa).

Aconchegante cidade de interior, com luz, água encanada, clube social e igrejas. Rios banhando a pacata localidade, alguns pecuaristas, lavradores, latifundiários, uma rádio difusora para deixar a vila bem informada. Veiculadas notícias boas e ruins, críticas aos políticos mentirosos, falando bem dos poderosos quando a propina funcionava, e assim iam-se levando.

Como nas rádios de interior geralmente tem aqueles que gostam de contar histórias e dão oportunidades para se formarem repórteres populares como freelancers, ali não era diferente.

Este dito repórter era um bisbilhoteiro e fofoqueiro, tanto assim que sua alcunha era Boca-Livre. Houve mais de uma ocasião em que levou uns tapas na orelha e também foi chamado à delegacia para se explicar ao xerife.

O slogan de Boca-Livre era: - «Eu aumento, mas não invento». As notícias anunciadas por ele eram duvidosas, embora guardassem no fundo alguma verossimilhança.

Um dia ele passava próximo ao reservatório de água da cidade, e, por acaso estavam a fazer limpeza e a colocar fogo no lixo que podia ser queimado. Boca – livre com seu transmissor portátil chamou a Rádio Central e mandou colocar no ar:
-Notícia de primeira mão, atenção, atenção, estou a passar aqui na Caixa Dágua e há um foco de incêndio, está a pegar fogo na caixa dágua!.

Bastou meia dúzia de viventes ouvirem a notícia e sairem a correr e a gritar para quem não sabia:
- Fogo na Caixa dágua, venham ver! E muitos correram para testemunhar a trajédia. A curiosidade impele as multidões.

Os funcionários da concessionária assustaram-se ao ver tanta gente a correr, chegando ao escritório e perguntando pelo fogo. A resposta era a mais simples possível: - Estamos a queimar o lixo!

Deste tipo, outras falsas notícias assustaram a população. O rio que banhava a cidade tinha seus meandros e lugares para aproveitar-se como praia de rio. As águas cristalinas, as pedras, as árvores, os peixes, davam um ar de muita beleza ao recanto.

Certa ocasião, houve uma semana de chuva, ultrapassando a média normal. Boca-livre, o repórter mentiroso, passando em um determinado ponto do rio, começou a observar que passavam muitos objetos levados pela corredeira. Estava bem próximo à margem, começou a olhar e chamou o estúdio da rádio.

E anunciava: - Atenção, atenção, estou aqui na curva do rio, bem no local chamado de Burro Amarrado, de onde posso apreciar muitos detalhes. Devido às chuvas torrenciais e às cheias que castigaram alguns lugarejos vizinhos de nossa cidade, muitos objetos estão correndo rio abaixo.

No momento vejo duas cabeças, quatro braços, quatro pernas, alguns pés e um tronco.

Ao ponto em que Boca-Livre transmitia a fúnebre notícia, os ouvintes correram para ver com os próprios olhos tamanha desgraça.

Ficaram ali por longo tempo, algumas pessoas. Quando o repórter chegou, foi questionado: - Deu para conhecer as pessoas mortas? De onde devem ter saído?

Aí Boca-Livre respondeu:
-Vocês não observam direito as coisas? Eram duas cabeças de repolho, quatro braços de poltrona, quatro pernas de cadeiras, vários troncos de bananeiras e alguns pés de alface que passaram boiando.

As palavras elogiosas vieram de imediato para Boca-Livre:
-Seu safado, mentiroso, sem-vergonha, inescrupuloso!
A sua mãe, coitada, foi muito aplaudida e a cabeça de Boca - Livre foi muito ornamentada...

Boca-Livre esperou ficarem em silêncio, e fez um sinal de defesa:
-Por acaso eu falei que eram cabeças, braços, pernas, pés e troncos de gente?
Não falei... Vocês, povo desta cidade precisam ser mais otimistas quando ouvirem as coisas. Finalmente, eu aumento mas não invento. Por isso sou o Repórter Boca-Livre!

 

Tentativas de suicídio dos adolescentes aumentam

Recolha noticiosa e texto «O Suicídio»

de Irina Krolov

Os comportamentos suicidários entre os adolescentes estão a aumentar em Portugal. Todos os anos, mais de dois mil jovens atentam contra a vida, mesmo quando a morte não é o objectivo. «Para eles, a vida vale pouco». Só às urgências dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) chegam diariamente dois ou três novos casos. Mas há muitos outros, que nunca entram para as estatísticas: são silenciados em casa.

«Trata-se de jovens com comportamentos repetidos que a família já nem valoriza. Por isso, em vez de irem para as urgências, ficam em casa a dormir um ou dois dias», explicou Carlos Braz Saraiva, psiquiatra responsável pela Consulta de Prevenção do Suicídio nos HUC.

«Em Portugal existe um fenómeno crescente de para-suicídio adolescente, mas felizmente suicidas consumados há poucos», diz o psiquiatra, explicando que «o para-suicídio pressupõe que a intenção de suicídio é quase zero». Uma jovem que, perante um desgosto amoroso, toma comprimidos é um para-suicídio, o que é uma situação diferente de um rapaz que se decide enforcar e escolhe um local ermo para o fazer, explica.

As estimativas nacionais apontam para 200 casos por cada cem mil jovens, «mas se analisarmos apenas as raparigas o número sobe para 600 por cem mil habitantes», alerta o especialista. A vida para os adolescentes não é nada fácil. Para eles, a vida vale pouco, lembra, por seu turno, o chefe do Serviço de Psiquiatria do Hospital Júlio de Matos, António Albuquerque.

A maioria chega aos hospitais com sobredosagens medicamentosas, mas também há muitos casos de auto-mutilações. «Um em cada cinco jovens que entra nas urgências por sobredosagem também são cortadores», avança o especialista de Coimbra, explicando que se trata de um «método para trocar a dor de alma pela dor do corpo».

A questão nuclear do para-suicídio é a rejeição: sentem-se marginalizados, incompreendidos e, no final, não sabem como lidar com o desespero. O para-suicídio é um fenómeno das classes sociais mais baixas, estando normalmente associado a famílias com histórias de alcoolismo, toxicodependência ou abandono. «São normalmente filhos de famílias disfuncionais, que sentem que não têm com quem contar. Nunca tiveram confidentes, sentem-se rejeitados ou então foram abandonados pelo pai quando eram crianças», explica Braz Saraiva.

O retrato é corroborado pelo colega e chefe do Serviço de Psiquiatria do Júlio de Matos, António Albuquerque. Mas também existem casos nas classes sociais mais altas: «Onde os níveis de exigência são muito elevados, porque esperam que os filhos continuem uma espécie de dinastia na carreira. Esperam que sejam brilhantes no sucesso escolar». Numa sociedade que não concede grandes escapatórias para o fracasso, muitos jovens sentem que a realidade pode ser ameaçadora e acabam por ter comportamentos suicidas.

Se para muitos estes actos servem apenas para chamar a atenção, Braz Saraiva lembra que «é preciso valorizar o desespero de quem o faz». Apesar de poderem ser precipitados por aspectos infantis insignificantes, isso não quer dizer que não voltem a repetir os mesmos comportamentos. Braz Saraiva diz que «cerca de 25 por cento dos jovens têm tendência a ter comportamentos recorrentes, porque têm uma estratégia desadequada para lidar com o desespero».


O Suicídio

Irina Krolov

Há diversas formas de se morrer. Uma delas é o suicídio. Hoje em dia enquadramos o suicídio num contexto psicológico e vemos aqueles que o cometem como pessoas com problemas, passíveis de ser ajudadas por profissionais.

Mas o suicídio, a sua prática sempre existiu, desde os tempos mais remotos, e foi a forma de o encarar que mudou radicalmente ao longo dos tempos. As mentalidades evoluíram e o suicídio tomou outros contornos.

Só no século IV é que se começa a tomar o suicídio como algo negativo, graças a S. Agostinho que rejeita a prática. Mais tarde, a Igreja, órgão de suma importância nas sociedades do século XIII veio, sob a forma de S. Tomás Aquino, veio a trazer um conceito que mudou para sempre a visão dos que cometiam suicídio. Foi o conceito de «pecado» que até hoje ainda influencia a opinião de muitos neste assunto. Foi então que, através de «castigos», como a ameaça do Inferno (ao cometer o pecado), e a exposição do corpo em praça pública, denegrindo a pessoa morta e família, o suicídio ganhou o seu cunho de «proibido» e mau.

Hoje o suicídio é visto essencialmente de uma forma psicológica (considerando-se as problemáticas psicológicas relacionadas), e entendido mais abertamente que sob a suma influencia da Igreja.

No entanto, não existe uma posição permissiva em quase nenhuma sociedade, mas sim uma preocupação crescente da saúde mental e não só de proporcionar uma existência em que o suicídio não seja contemplado como alternativa. Assim, desenvolvem-se esforços vários para promover condições de vida em que o suicídio não seja visto como uma hipótese viável.

(Continua)