Pagª 44 - EDIÇAO NºXXXII , Iº NUMERO  DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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O João e a Filó

Conto de Daniel Teixeira

Os dentes dele batiam de uma forma que o assustava, mas era sempre assim. Não era porque estivesse muito frio, de facto a sala estava sempre bem aquecida, naquela temperatura ideal para um dia de inverno,  tinha-o sentido quando se despira e quando a enfermeira abrindo a porta um pouco, sem olhar muito para ele, lhe tinha perguntado se já estava despido.

Sim, estava! Disse com uma resposta rápida, como se tivesse receio que ela entrasse mesmo e visse o seu corpo, um pouco magro, mas de qualquer forma não excessivamente magro para a sua idade jovem.

Tenho de comer mais dizia muitas vezes mas o apetite faltava-lhe e agora estava ali, numa consulta, porque a sua mãe tinha dito ao médico que não compreendia porque é que ele estava naquele estado como se o estado dele fosse alguma coisa de grave.

Fui sempre assim, dizia ele tantas vezes à mãe, e ao pai que também lhe ralhava e que achava que havia coisas que ele não devia fazer porque era demasiado fraco. Deixa que eu levo – dizia-lhe o pai quando se tratava de carregar algo mais pesado na loja, pronunciando este deixa que eu levo como se ele fosse um inútil ou estivesse num processo pronunciado de decadência, ele que tinha quinze anos, mal feitos.

O médico dissera que não devia ser nada mas que era melhor ver acrescentando um misterioso nunca se sabe…nunca se sabe como (?) ele não era Médico (?) deveria saber pois então (!!)…mas não sabia e tinha-o mandado tirar uma radiografia aos pulmões, outra radiografia, mais uma radiografia, que raio de coisa, dizia para si mesmo: eu não estou doente nada, só não tenho tanta fome assim e faria uma vida normal se não fosse a mãe estar sempre com o come rapaz ou o pai com aquelas tiradas parvas do deixa que eu levo até nos embrulhos pequenos porque estavam carregados de ferragens e isso era muito pesado para mim, pelo menos era o que o pai dizia.

Depois havia o se não vais à tropa não tens moça que te queira, elas fogem todas de ti não sabia bem porquê, mas se calhar as moças só casavam com moços que tivessem ido à tropa, ora bolas, ele que até estava desejando não andar com aquela farda verdosa, horrível, como via nos seus primos, e aquela boina toda mal posta que era como eles lá no exército queriam porque achavam melhor mas ele não achava e o boné dele estava sempre bem enterrado na cabeça, dava-lhe um ar de rufia, dizia para si mesmo quando se via ao espelho, daqueles rufias safos que a sabem toda.

Dançaste João (!?) perguntava-lhe a mãe quando ele voltava dos bailes onde a mãe o obrigava a ir e lhe dava então algum dinheiro para ele gastar com os amigos e as moças, comprar um chocolate oferecer, à filha da ti Rosa, que é uma moça bonita e depois dizia e forte como um touro fazendo-o lembrar de novo que estava magro, que comia pouco e que se queria a Filomena que era a filha da Ti Rosa tinha de comer mais senão ela não o queria e se o pai estivesse por perto acrescentava logo pois se ele não for à tropa nem a a Filó nem nenhuma outra o quer e etc. etc. se de mais se lembrasse.

Veio a enfermeira de novo para o levar ao médico antes de fazer a radiografia, a porta era logo ali ao lado e ela puxou-o por um braço com força como se tivesse medo que ele se escapulisse. Caramba, dizia o João com os seus botões, tenho de andar neste vai vem que pareço um pássaro, levantar os braços para o médico me apalpar debaixo dos braços, dar duas ou três voltas para ele me ver o corpo todo, que raio deu a esta gente que nem sequer sabe que eu tenho vergonha de andar a mostrar o pirilau por aí e ainda com a enfermeira lá a mexer nos frascos, nas seringas de vidro, nas agulhas enormes como se estivesse ameaçando.

Aqui não tens nada, mas tem de comer, pá, tens de comer, vamos a ver a radiografia, ver o que ela diz, mas eu acho que não é nada só que tens de comer pá, tens de comer e lá continuou ele a lengalenga do costume, desde o chouriço até às couves, mais o tomate, mais o toucinho, mais a carne, mais o pão, mais o leite, mais o queijo e dormir bem, tens de dormir bem.

Ele até dormia bem, até dormia sim senhor e dormiria mais se não fosse ter de ir à Escola, andar cinco quilómetros até chegar à estrada e apanhar a camioneta que o levava para a vila onde ele e mais uns quantos andavam a acabar o 9º ano. Antes era melhor, havia 4 anos a Escola ela logo ali ao lado e vinha almoçar a casa e agora não: levava uma marmita, um bocado de pão, uma laranja ou outra fruta e à hora do almoço lá se sentavam todos numa sala onde a Contínua embirrava com ele para ele acabar a marmita, a marmita que mãe lhe arranjava, cheia de cozido, mais o pão e a fruta.

Bem a radiografia está bem, parece bem, disse o médico, não tens nada, só precisas de comer melhor, tens de comer melhor, para a próxima quero-te com mais cinco quilos, ouviste? Ouviste? Ouviste?

E a mãe dele à espera na rua com o então que disse o doutor (?) – que da radiografia já ela sabia - que precisas de comer mais, e que te quer com mais cinco quilos na próxima vez que cá vieres, eu sabia, eu sabia, tens cinco quilos para engordar nestes meses: quando cá voltares quero que faças uma surpresa ao médico, trazes mais seis quilos, o que achas, achas que consegues?

Chegados a casa o pai com a tropa e com as moças que não me vão querer se eu não for à tropa e daqui a três meses a mesma história e todos os dias a mesma história deixa que eu levo o mais pesado e a Filó é muito boa moça, um brinco de rapariga e a Ti Rosa que é viúva e tem terrenos, hortas, amendoeiras, oliveiras, árvores de fruto e a Filó que é filha única e daquela fábrica já não sai mais nada porque ela é viúva. E agora vai lanchar que estiveste muito tempo sem comer.

 


 

Fale aí, preta!

Keisha-Khan Y. Perry, Profa. Dra. em Estudos Africanos na Brown University (EUA)- com a devida vénia da Direcção.

Dedicado a Rita dos Santos Barbosa da Associação Amigos de Gegê dos Moradores da Gamboa de Baixo, em Salvador

Fale aí, preta!
Levante a cabeça, preta!
Não grite em silêncio!
Não grite em silêncio!
No silêncio do respeito forçado
No silêncio do «pois não, Senhor» e «sim, Senhora!»
Respeito despercebido no «menina, vem cá» e «faça isso direito»
Respeito mal dividido mal pago mal concebido no salário muito menos do que o mínimo
Dos senhores que roubam que abusam que estupram
Das senhoras que torturam que controlam que vigiam
Os seus corpos escondidos
As suas mentes não emancipadas
As pretas colocadas em plena vista
Para todos verem
Ajoelhadas na poeira do egoísmo
Para todos verem e saborearem
A sensação de experimentar a tradição da humilhação
De manter elevadores de serviço
De pretas que depois de subir ladeira
Andar ligeiro
Tem que achar o seu lugar segregado
A porta a panela o quarto fechado
Diferente desigual separado
Será que não sabem que eu também gosto de bacalhau?
Que é o pão de hoje que prefiro comer?
Que quando me vêem na rua bem vestida é para me cumprimentar MESMO?
Que tenho meus próprios filhos para criar?

Chegou a Salvador cheia de esperança
Chorou quando viu que estava cuidando dos filhos dos brancos
E não sabia quem dava banho na sua própria filha
A filha que chorava de solidão aparente no parentesco falsamente cultivado
Chorava das relações baseadas em dinheiro trocado
Dinheiro gasto e responsabilidade esquecida
Sua infância roubada e sujada
Marcada pela consciência do abandono

E os senhores e as senhoras das casas grandes
Esquecem que é perigoso sair das senzalas às 5 horas da manhã
Que ela gostaria de ter seu horário de trabalho definido
Seu décimo terceiro salário na data certa
E andam afirmando que ela
É descendente das pretas que andavam em silêncio
As pretas que andavam contemplando transformação
As pretas que gritavam e controlavam suas casas
Inventavam soluções
Criavam revoluções
Vidro - as pretas quebravam em infinitos pedaços nos pratos de poder
Veneno - as pretas ferviam em águas de dominação
Em sopas de discriminação
De separação
De miscigenação forçada
Embaixo das árvores onde os senhores rezavam e enforcavam
Onde as mães pretas plantavam ervas que lembravam o sofrimento
Das cicatrizes
Dos gritos quando
Abortavam futuros escravizados
E matavam dores de massacres em massa

E cada vez que a preta atravessa as pedras em silêncio
Sobe a ladeira
Pega ônibus na escuridão
Espera o elevador de serviço em silêncio
Entra pela porta dos fundos
Ela grita em silêncio
Ela lembra as marcas das dores
Ela anda ligeiro contemplando criando na sua cabeça em silêncio
Nos pedaçinhos de papel
Na memória
Guardando as receitas das águas
Das folhas
Respondendo com as sopas da justiça em silêncio
Quebrando e rompendo a infinita quantidade de vidro em silêncio
Escrevendo notas da educação de nossa libertação em silêncio
Lembranças das dívidas para pagar em silêncio
Em silêncio em silêncio em silêncio.

Fonte