Pagª 33 - EDIÇAO NºXXX, IIIº NUMERO DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes.
Histórias da Vida Real

Crónicas por Martim Afonso Fernandes
João Rosa, eu e o
Bem - te -vi
Surgiu nas ondas das emissoras das rádios brasileiras, há alguns anos, uma
música em homenagem ao nosso bonito pássaro, de nossa rica fauna, aquele
que, quando canta logo olhamos para onde ele está a nos ver, com seu canto:
bem, te viiiiiiii!!!!!
Logo, logo, o Brasil, de norte a sul ouvia e cantava a nova melodia, que
pareceu mais um meteoro. Isto aconteceu mais ou menos nos anos 70 ou começo
da década de 80, para a felicidade do compositor e intérprete da canção, que
estava situada entre as três mais tocadas e ouvidas no Brasil.
Os contratos para apresentações em público logo preencheram a agenda do
cantor e compositor, que chegava a fazer de três a quatro shows por dia, em
cidades diferentes. E, em cada apresentação encontrava a casa lotada, com
freqüência da maioria de jovens.
Em um final de semana, ele foi contratado para apresentar-se no Imbituba
Atlético Clube. Chegou num final de tarde, como de costume. A presença
maciça era de jovens e o acompanhava um violonista.
A discoteca deu início à sessão, e após quase uma hora foi anunciada a
presença do artista. Como era a única música que ele havia composto, e já
voltava de mais três apresentações, não tinha mais fôlego para cantar ao
vivo, a não ser com a ajuda de dublagem.
Como um dos diretores do Clube, estava eu assistindo a apresentação, quando
fui alertado por um amigo meu, músico profissional e dono de um ótimo
conjunto musical, bem conhecido no Estado e fora do país, por suas turnês .
João Rosa era o seu nome. Comentávamos sobre a capacidade do cantor, quando
perguntei-lhe o que achava da apresentação.
João Rosa, como conhecedor que é de música, falou-me:
- A dublagem está melhor do que o cantor.
Olhei desconfiado e perguntei-lhe novamente:
-O que tu estás a falar?
Ele respondeu-me de imediato:
-É isto mesmo que tu ouviste!!!
Em pleno show fomos até ao coreto onde estava o suposto cantor e constatamos
a dublagem. O que se via era apenas a movimentação labial.
Aí, perguntei ao João:
- Tu garantes a parte artística?
- Sim, respondeu. E me indagou:
- O que tu vais fazer? Mandar que ele pare?
Saltei no palco como um foguete e tirei o microfone da mão do cantor. O
sonoplasta não percebeu que o canto continuou.
Quando os espectadores perceberam o que tinha acontecido, o empresário do
show veio falar comigo. Meu amigo João Rosa dirigiu-se a ele com palavras
nada agradáveis, pois havia uma dívida passiva do mesmo com o conjunto de
João, que lhe disse:
-Vai pagando logo o que me deves!
O velhaco lembrou-se da dívida com João Rosa e saiu de fininho...Aproveitei
a minha carteira de Agente de Segurança e dei um carteiraço nos
acompanhantes do artista.
Rolou muito falatório e o Presidente do Clube questionou-me sobre o que
tinha acontecido. E porque foi que eu acabei com o show. Eu respondi em
seguida:
-Pergunta para o João Rosa!
Acalmado o borburinho, teve gente que não entendeu nada. Aí então
perguntavam:
-Para onde foi o cantor?
Ao que João Rosa respondia:
- O Bem - te - vi fugiu.
Foi um caso muito comentado em Imbituba. Quando eu passava na rua pelo Roão
Rosa e vice-versa, alguém assobiava imitando o bem-te-vi ou gritava:
-Olha o bem-te-vi!!!
Uma das respostas era:
- Voou!!! Nunca mais vem cantar aqui!!! E nem dublar para ninguém!!!!
Passados uns dez anos, eu assistia a Televisão, quando foi anunciada uma
entrevista com o cantor, que tinha só mais uma composição.
Dei algumas risadas e me perguntei :
-Será que ele fez uma musica parecida com aquela há tempos conhecida, que
diz:
-Voa, pombinha branca, voa!
Mas aí me lembrei: - Tem que mudar a letra e cantar:
-Voa, bem-te-vi, bem longe voa!!!! Senão vão te arrancar as penas por
aqui...
Os homens também choram!
Conto
Por Arlete Piedade
Eram apenas sete horas da manhã, naquele dia do início de Março, mas o calor já se adivinhava insuportável.
O carro estava parado na fila do meio na auto-estrada , como em todas as manhãs dos últimos cinco anos e Manuel tentava conter a ansiedade como sempre em todos os outros dias em que se dirigia para o trabalho.
Ligou o rádio num gesto entre impaciente e resignado. Já sabia o que ia
ouvir:
- Senhores ouvintes, a temperatura prevista para hoje em Lisboa, situa-se
entre os 35º graus de máxima e 25º de mínima. Alerta laranja activado em dez
distritos do continente. Alerta vermelho na zona da grande Lisboa e grande
Porto. Não se esqueçam de levar consigo as garrafas de água para manter a
hidratação! Não expor a pele directamente ao sol! Crianças e velhos devem
manter-se em casa!
– E prosseguia o locutor:
- Trânsito congestionado nas principais vias de acesso á capita! Também no
grande Porto e na Via de Circunvalação trânsito com demora acentuada! – mas
Manuel já nem ouvia o locutor, era sempre assim todas as manhãs. Tocou no
comando instalado no volante, para procurar uma outra estação de rádio, que
lhe desse música relaxante e calma!
Mas só encontrava os sucessos barulhentos do momento....Irritado desligou o rádio. Olhou pela janela e reparou na ocupante do carro ao lado.
Ela sorriu-lhe e ele retribuiu o sorriso fazendo um gesto de resignação que pretendia abarcar as filas e o trânsito e o mundo em geral.
Ela retribui com um encolher de ombros e ele não pode deixar de reparar naqueles ombros morenos, que estavam desnudados pelo vestido.
Não conseguia ver bem, mas aparentemente ela usava um vestido ou blusa sem ombros, apenas cingido no busto por aquelas filas de franzidos que estavam na moda.
Os seios pareciam ser grandes e os olhos escondidos atrás dos enormes óculos escuros, apenas se podiam adivinhar. Como seriam os olhos dela?
Os cabelos eram curtos e louros, com uma franjinha caída para a testa ampla. O trânsito na fila ao lado avançou e a mulher arrancou devagar.
O carro dele não saiu do mesmo local entretanto, mas Manuel não se irritou. Sabia que dentro em pouco se voltariam a cruzar mais á frente noutra fila.
Agora era a sua vez de arrancar. Seguiu em frente devagar, quase automaticamente, e voltou a ligar o rádio. Agora passava uma música antiga de Elton John.
Ficou a ouvir e a recordação da esposa voltou com maior força agora. Era sempre assim. Em qualquer circunstância do dia a dia, inesperadamente, lá voltava o fantasma do passado para o atormentar.
De repente viu-a á sua frente, como naquele dia em que ela lhe tinha pedido
o divórcio. Escutou as suas palavras agressivas de novo:
- Vai-te embora de vez! Deixa-me em paz! Nunca me amaste! Vai para as tuas
amantes! Para que me hei-de esforçar para te dar esse filho? – Para ficar no
mundo mais uma criança sem pai?
Ela não o compreendia, nunca tinha compreendido a sua necessidade de ter um filho para dar continuidade ao seu nome, para lhe fazer companhia e brincar com ele. Como sonhava com esse filho!
Imaginava que iriam passear ao parque, que dariam grandes caminhadas, que iriam jogar á bola, imaginava que ensinaria ao filho tudo que tinha guardado dentro de si, fruto de longas horas silenciosas de reflexões, as descobertas sobre o coração humano, as tentativas inglórias de compreender aquela mulher que era sua desde a infância comum passada na aldeia!
Ela sempre tinha sido sua, continuava a ser sua, mas como lhe fazer entender isso? – Agora era tarde, pensou pela milésima vez.
O divórcio tinha sido decretado na semana anterior, era um facto irrevogável que no entanto não sabia se iria aceitar alguma vez.