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Pagª 4 - EDIÇAO NºXXX, IIIº NUMERO  DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes.   



Butler sugere a idéia de que genero é um ato intencional e performativo. Os generos são performances sociais. Através da idéia de performatividade, os generos dominantes e não dominantes, (aqueles que não se enquadram como «inteligíveis»), se encontram no mesmo lugar. Dessa forma de pensar desaparece a necessidade de coerencia interna às identidades sexuais e da classificação dessas identidades segundo graus de normalidade e de patologia.

Depois de publicar «Problemas de gênero» Butler recebeu acusações de pressupor intencionalidade e voluntarismo na construção de gênero e de tomar as drag queens como paradigma da subversão de genero.

«A denúncia de gênero como ilusão de substância, na interpretação de muitos de seus leitores, chegaria ao grau máximo com a paródia: foi essa interpretação motivo tanto de sua enorme aceitação como se sua recusa em meios academicos e militantes»(Patrícia Porchat, Revista Cult,p.45)

Butler abre espaço para a transformação individual e, consequentemente , social ao dizer que nem sempre as normas exercem um controle definitivo.

Para Butler , «as mulheres», no plural não é mais um significante estável que dá arcabouço ao que deve ser descrito ou representado, pelo contrário, «[...] tornou-se um termo perturbador, um local de contestação, uma causa de ansiedade.» (Butler,1990:3) A idéia de um feminismo distinto, dotado de estratégias e de discursos unificados se dilui assim frente à multiplicidade.

O genero é a formação discursiva que representa o sexo. A crítica teórica feminista explora assim suas próprias categorias de análise, tais como o gênero e a diferença sexual, o que lhe permite encadear com a desconstrução dos fundamentos epistemológicos, dos pressupostos que modelam os instrumentos, as formas, as imagens e as representações das quais dispoem os feminismos para a análise do social.

Os discursos feministas iniciam assim um movimento contínuo e voluntário de desalojamento, de desidentificação que leva em consideração seu quadro epistemológico e sua inserção social, para melhor ultrapassá-los. As teorias feministas se demarcam no pensamento contemporâneo não somente pela atenção que concedem às condições de exterioridade, mas igualmente à suas contradições internas de crítica/autocrítica.

O pós-modernismo, que denuncia as verdades essenciais, os discursos do «natural», a existência de um sujeito estável e coerente como artifiícios do poder, encontra-se na atitude feminista que recusa a idéia de uma «verdade do sexo», expressa por uma prática sexual diretamente ligada ao sexo biológico. . (Flax, 1987:624)

«[...] a verdade está ligada de modo circular aos efeitos de poder que cria e que a reproduzem.» (Foucault, 1988 :14) É o caso da identificação presumida do gênero/sexo como um fato de natureza unívoca, do qual a heterossexualidade é a marca da norma instituída socialmente.

Assim, a identidade não aparece mais como um dado, mas como um processo que constrói uma forma e faz sentido no interior de um regime de verdade singular: na visão do múltiplo, os lugares designados ao centro/periferia ou hegemonia/marginalidade são desta forma , questionados .

Quando a crítica feminista se prende à evidência do sexo biológico, interroga o regime de verdade que construiu sua significação na dualidade natureza/cultura; contribui assim a evocar as vozes abafadas pelos silêncios impostos na superfície do discurso social.

Os movimentos feministas precisam refletir sobre o binário que orientou e modelou suas práticas enquanto mulheres e sujeitos do desejo , cujo comportamento sexual será o desafio.

Para Butler é impossível separar a noção de gênero das intersecções das modalidades raciais, classistas, étnicas, sexuais, regionais de identidades discursivamente constituídas. Portanto, a identidade de gênero é performativamente constituída dentro de um conceito.

O grande insight de Butler é romper a dicotomia, a ruptura. Ela tem mudado através de suas obras, mas não radicalmente. Tem pensado mais sobre lutas sociais e questões políticas.

Butler se engaja na militância feminista, na militância homossexual, na militância transsexual e na militância dos intersexo. Luta contra normas, que, segundo ela, restringem as condições básicas da própria vida: respirar, desejar, amar e viver.

ELLA SHOHAT

A pensadora iraquiana Ella Shohat, radicada nos Estados Unidos, articula as teorias feministas do cinema, com a crítica pos-colonial. Questiona a teoria feminista clássica do cinema, que abrange o feminino e a visão masculina. Ela propõe uma etnografia feminista do cinema, discutindo os pressupostos de que o olhar no cinema é sempre masculino e de que a mulher é sempre o objeto desse olhar.

Ao juntar as questões de gênero com classe e etnia, ela mostra como as relações de dominação são bem mais complexas, e como se disseminam também entre as mulheres. Essa diferença reaparece nos vários textos culturais, nas representações cinematográficas, nas teorias do cinema e nas críticas feministas, sendo esta uma das preocupações centrais de seus trabalhos posteriores.

A autora se refere a que o feminismo antes era restrito a países brancos, e que sobre esta questão criou-se um discurso hegemônico. Também foi criada uma mistificação em torno das mulheres de Terceiro Mundo, como se todas pudessem ser englobadas num mesmo discurso. Este discurso ocidental não levou em conta as diversidades.

A questão de quem detém a fala e a autoridade da fala sobre o feminismo, aparece em diversos textos atuais. A autora chega a essa conclusão por um caminho transverso, partindo de um olhar antropológico, considerando a experiência de gênero em diversas comunidades e práticas culturais, na relação dessas comunidades entre si, como mulheres brancas e não brancas, mulheres de primeiro e terceiro mundo, de leste e de oeste. Daí se compreende um feminismo relacional das diferentes práticas sociais e diferentes comunidades. Não é o feminismo civilizador do ocidente, apenas. Torna-se assim um feminismo plural.

Ella Shohat aprofunda em seus artigos a análise multicultural da cultura contemporânea, sem fazer uma celebração essencialista das diferenças.

PALAVRAS FINAIS

O objeto central das teorias feministas, segundo as três teóricas mencionadas, é analisar as relações de gênero com o poder, desconstruir e intervir nas estruturas sociais de desigualdade.

O ponto comum entre estas pensadoras é a necessidade de romper o esquema tradicional das tradições filosóficas ocidentais que se baseiam em esquemas dicotômicos de pensamento e assim desconstruir o pensamento binário.

A vertente pos-naturalista é desconstrucionista.
Qualquer teoria é uma forma de fazer política.
Daí surge uma pergunta : em termos positivistas, o que se faz com uma teoria?

Para Stwart Hall e para Edward Said a adequação de uma teoria tem que ser vista em termos políticos.

Para as autoras citadas neste estudo, a base da diferença cultural entre homens e mulheres é uma construção cultural, o gênero emerge de uma relação cultural socialmente construída, que precisa ser repensada numa dimensão política.

A atitude política quer dar direito de cidadania aos seres considerados «inadequados» ou «patológicos» pela sociedade, segundo Butler.

Os estudos de Shohat em um de seus aspectos, abrange as questões étnicas das mulheres consideradas de terceiro mundo e seus direitos políticos, sem pensar apenas sob a ótica do «feminismo ocidental branco».

As três teóricas estudam a relação de dominação existente na cultura, partindo do olhar masculino e também do feminino.

Outra questão importante comum citada por Lauretís, mas abrangendo os estudos das demais teóricas são as intersecções de raça, classe, etnia que também perpassam a formação de gênero.

O gênero também é uma configuração de posicionamentos sexuais discursivos, age com outras categorias sociais que se cruzam e criam pontos modais.

Concluindo com o que cita Hommi Babba: «...são os lugares de enunciação que mudam o ponto de vista».

REFERENCIAS:

REVISTA CULT, n° 118, ano 10

BUTLER, Judith P. B992p Problemas de gênero:feminismo e subversão da identidade/Judith Butler; tradução, Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,2003- p.17 a 60

HOLLANDA, Heloísa Buarque de, org. Tendências e Impasses. O feminismo como crítica da Cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994/ “A Tecnologia do Gênero�-Teresa de Lauretís

Rev. Estud. Fem. vol.9 no.1 Florianópolis 2001
COSTA, Claudia de Lima. «O sujeito no feminismo: revisitando os debates». Cadernos Pagu, n. 19, p. 59-90, 2002.

Rev. Estudos Feministas, vol.8, n°2 – 2000

LAMAS, Marta, org. El Gênero: 2ª construção cultural de la diferencia sexual. México: PUEL/UNAM, 1996 (p. 327 a 364)

 

 

 

 

Estudos de Gênero

Por Arlete Deretti Fernandes

Depois de realizar várias leituras para compreender com maior clareza o que são «estudos de gênero», «teorias feministas», seus objetivos e idéias, resolvi estudar o pensamento de algumas autoras e suas teorias a respeito destes temas tão interessantes quanto atuais. Observei como os estudos acadêmicos vão evoluindo e se tornando mais amplos e mais abrangentes.

Um dos pontos que me chamou muito a atenção, embora eu não o tenha inserido neste contexto, foi sobre as «narrativas prontas que fazem parte da literatura, que parecem sólidas para a vida, mas que na realidade são figuras e mitos com relação à mulher». Muito interessante a abordagem deste trabalho realizado por Rita Felsky .

Dos temas em pauta surgem perguntas, cujas teorias são bastante esclarecedoras. O que é a teoria feminista? Qual seu objeto de estudo? Qual sua relação com a prática política?

São muitas as intelectuais que escrevem sobre Gênero e feminismo e os assuntos vão tomando uma abrangência tal, que tornam-se apaixonantes. Por isto busquei entender alguns pontos comuns nas teorias das pensadoras: Tereza de Lauretís, Judith Butler e Ella Shohat.

Como evoluiram as teorias feministas?

Há tempos passados as lésbicas eram consideradas machonas, feiosas e mal-amadas, até olhadas como «imitações de macho.» Ainda assim elas nunca deixaram de estar presentes tanto nas reflexões teóricas como nas práticas políticas de reivindicação

Na atualidade o feminismo segue caminhos plurais, com movimentos de cruzamento, oposição ou imbricação com o lesbianismo.

A crítica ao patriarcalismo e à exploração e violência sexual do homem contra a mulher eram motivos de análises teóricas. Era como se a mulher feminista se sentisse cúmplice de uma relação homem/mulher.

Criaram-se comunidades lésbicas nos Estados Unidos e Canadá, onde as mulheres não se voltavam necessariamente para outras mulheres, mas pelo engajamento em uma luta sem cumplicidade.

O primeiro passo foi o da mulher-objeto-apropriação. Depois passou-se às lutas de afirmação da diferença e do igualitarismo, visando criar uma cultura feminina e o fim da hierarquia social baseada no sexo.

A categoria gênero representou uma virada epistemológica. Ao utilizar gênero, deixava-se de fazer uma história, uma psicologia, ou uma literatura das mulheres, sobre as mulheres e passava-se a analisar a construção social e cultural do feminino e do masculino, analisando as formas pelas quais os sujeitos se constituíam e eram constituídos, em meio às relações de poder.

Essa nova categoria analítica causou impacto tão intenso que, mais uma vez, motivou acirrados debates. Também as relações de gênero passaram a ser compreendidas e interpretadas de muitas e distintas formas, ajustando-se referenciais marxistas, psicanalíticos, de Lacan, de Foucault e do pós-estruturalismo.

As teorias de gênero, incluindo suas constantes revisões, contribuíram para que os estudos feministas de crítica da modernidade revelassem que, embora as categorias modernas e valores do Iluminismo tais como direitos, igualdade, liberdade, democracia inicialmente tenham instruído muitos dos movimentos feministas de emancipação, o discurso humanista da teoria moderna, juntamente com suas noções de sujeito e identidade essencialistas, fundacionalistas e universalistas, conduziu a apagar as especificidades (de gênero, de classe, de raça, de etnia e de orientação sexual, etc.) dos diferentes sujeitos que ocupavam outras fronteiras políticas que aquelas do homem branco, heterossexual e detentor de propriedades.

Esses estudos mostraram o fato de que a noção de sujeito estava marcada por particularidades que se pretendiam universais e, na medida em que universalizaram as especificidades do homem branco, heterossexual e detentor de propriedades, este sujeito tornava-se uma categoria normativa e opressora, para usarmos a definição de Judith Butler, e tornava a mulher e outros grupos oprimidos ausentes ou invisíveis, segundo Joan Scott.

A construção do «gênero» como categoria de análise desde cedo se deparou com esses problemas. Sendo um conceito, Joan Scott afirma que «gênero» necessita de uma teoria que lhe dê suporte.

A noção de «gênero» revela a construção social dos papéis feminino e masculino e enriquece assim a produção acadêmica em todos os domínios das ciências sociais e humanas; a teoria e a prática se juntam, pois a categoria «gênero» enquanto instrumento analítico do social passa a sustentar as práticas políticas dos movimentos das mulheres. Acaba-se com isto um primeiro estágio da construção social do feminino/masculino, isto é, desaparece a noção de essência, do fundamento intrínseco que supostamente sustentaria a representação de mulheres e homens designando-lhes papéis sociais segundo sua «natureza».

TERESA DE LAURETIS

Teresa de Lauretis é uma escritora e professora de História da Consciência na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. Nascida na Itália e radicada nos EUA, ela fez seu doutorado em Línguas e Literaturas Modernas na Universidade Bocconi, em Milão, antes de ir para os EUA.

Para Lauretís, (p. 207), «a primeira limitação do conceito de diferenças sexuais, portanto é que ele confina o pensamento crítico feminista ao arcabouço conceitual de uma oposição universal do sexo, a mulher como diferença do homem, com ambos universalizados: ou a mulher como diferença pura e simples, e portanto universalizada, o que torna muito difícil articular as diferenças entre mulheres e Mulher».

Uma segunda limitação, segundo Lauretís, do conceito de diferenças sexuais é que «ele tende a reacomodar ou recuperar o potencial epistemologico radical do pensamento feminista sem sair dos proprios limites.» Constitui-se o sujeito não apenas pela diferença sexual e sim por meio de códigos linguisticos e representações culturais: relações de sexo, de classe, de campo social heterogêneo, esta nova maneira de pensar ocorreu na década de 80.

Foucault vê sexualidade como tecnologia sexual que vem do cinema, de discursos, epistemologias e práticas institucionalizadas, bem como das práticas da vida cotidiana.

Para Lauretís,( 1994, p.208), Foucault não levou em consideração os apelos diferenciados dos sujeitos masculinos e femininos, o espaço da contradição.

Lauretís faz quatro proposições:

A- Gênero é uma representação. (mesmo assim tem implicações concretas ou reais na vida material das pessoas).

B-  A representação do gênero é a sua construção.

C- A construção do gênero vem se efetuando hoje no mesmo modo de tempos passados, na mídia, nas escolas, nos tribunais, na família nuclear.( E também nos «aparelhos ideológicos de Estado» de Althusser.).

D- A construção de genero também se faz através de sua desconstrução.

Os problemas de definição e de identidade recortam a trajetória e a utilização da categoria «gênero»: o que é finalmente a mulher? O que é o feminino? Como pensar a diversidade da experiência vivida das mulheres em contextos culturais e espaço/ temporais diversos? Como pensar a resistência nas estratégias desenvolvidas contra a opressão em todas suas formas quando se considera a construção social homogênea dos papéis sexuais? Como encarar a diferença entre as mulheres?

Estas questões que aparecem nos textos teóricos atuais referem-se à crítica da categoria «gênero» e apelam a uma superação de seus limites: neste sentido, as lésbicas, as negras americanas, as mulheres originárias dos países colonizados denunciam uma nova representação hegemônica sob a imagem da mulher branca, rica, heterossexual e abrem assim caminho ao múltiplo.

A raça, a classe, a opção sexual, o formato físico, todas estas variáveis se impõem e determinam uma inflexão na crítica teórica feminista, instalando a diversidade de imagens e de experiências das «mulheres» após ter desconstruído o mito da natureza «da mulher».

Para Lauretís gênero nada mais é que a configuração variável de posicionamentos sexuais discursivos. Segundo o gênero a mulher sofre várias intersecções, que são um processo aditivo. O gênero age com outras categorias sociais que se cruzam e criam pontos modais, como por exemplo Gênero, raça e sexualidade. Não há gênero sem raça e sem classe.

Judith Butler-

Professora de Rhetoric Department da Universidade da Califórnia, em Berkeley, é hoje conhecida como uma das principais teóricas nas áreas de gênero e sexualidade.

Judith Butler quer mostrar que o gênero, pensado em sua estrutura binária estável é efeito de um poder também estável que o cria e sustenta. A idéia de uma conexão do reconhecimento de gênero é desconstruída sobre duas bases: em primeiro lugar, não há uma essência por trás do gênero e em segundo lugar, se tomarmos figuras como trans-sexuais, intersexos, homossexuais, transgêneros e drags para pensarem questões de gênero, em vez de homens e mulheres, vemos se desviar a questão da adequação a um ideal normativo que confina e exclui os indivíduos inadequados, colocando-os como «patológicos» para uma outra questão: o da definição do que é humano e do seu reconhecimento.

Butler quer dar conta ao usar o conceito de gênero,do «abjeto», termo que empresta de Kristeva. Trata-se de uma atitude política, de dar direito de cidadania ao «outro» que não é considerado «nada.»