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EDIÇAO Nº XIII

COMENTARIOS

3ª SEMANA, 3º NUMERO  DE MARÇO DE 2009

Este Jornal resulta de colaborações espontâneas sendo propriedade dos seus autores os créditos que delas advenham assim como a responsabilidade pelo conteúdo das mesmas. Direcção interina de Daniel Teixeira


COBRA NORATO

Por Antônio Carlos Affonso dos Santos  ACAS

Cobra Norato

Este texto foi extraído do texto em prosa de Câmara Cascudo, a respeito do folclore Paraense.

Demorei três meses para concluí-lo. Espero que gostem.

Minha intenção é difundir o mito. Consta nos Anais que, quem encontrou essa história e a registou, em 1921, foi Raul Bopp, um gaúcho (1898-1984). Nessa época ele fazia pesquisas na Amazónia, onde o mito era contado oralmente e repassada, geração a geração dessa mesma forma.

Raul Bopp a publicou em 1931. Antes, em 1922, fez parte do Grupo Antropofágico e Modernista Paulista e participou com Oswald de Andfrade dos Movimentos Pau-Brasil e Semana da Arte Moderna.

Esta história era, originalmente «conto infantil». A obra de Raul Bopp e seu amor ao folclore e à música fizeram com que o Maestro, Compositor, Músico, Escritor e Folclorista Waldemar Henrique (1905-1995) compusesse uma peça musical com o nome «Cobra Grande».

No Teatro o Grupo Giramundo - Teatro de Bonecos, fez a primeira e vitoriosa montagem em 1979; peça que se tornou um «clássico» no Brasil.

Foi na beira do Trombetas,
Que nasceu o Honorato
Filho de índia tapuia
Moça forte, índia porã
Que além do filho Norato
Teve Maria Caninana, sua irmã

O Norato e a Caninana
Foram concebidos quando a mãe
Muito feliz no rio se banhava
-Foi encanto da cobra grande
Que então ali se desenrolava!

Nasceram gêmeos; só a mãe e Tupã
Os viu de perto: os gêmeos eram
Cobras de couro, escuro e brilhantes
Mas o tempo e Tupã se encarregou
De mostrar, muito além desses semblantes


Ele tinha o couro azul,
Uma carcaça reluzente
Se comunicava muito
E vivia bem contente

Ela tinha o couro preto
E vivia bem escondida
E, por não gostar de gente
Em todos dava mordida

Ele era encantado
Ela, falsa, feia, lisa
Ele amava sua mãe
Ela lhe tinha ojeriza

Assim se diferenciavam
Desde cedo, desde logo,
Ele dizia: te cuida!
Ela dizia: te afogo !

A mãe tapuia os batizou
Nas águas do paranã
Já que em terra não andavam
-Quem sabe, talvez, amanhã?

Pediu a tapuia ao pagé
Que a cobra azul curumim
Pudesse ter um encanto
Que ele merecia sim

Contou a tapuia ao pagé
Que ela ficou embarrigada
Quando se lavava no rio
-Por certo estava pelada!

Os dois se criaram no rio
Nas águas do paranã:
Curumin, podia ir na terra
Mas, não podia ir a cunhã

Por causa de uma mandinga
Corpo de gente não podiam
Eles com certeza assumir
E ela, sabendo disso
Então logo se pôs a sorrir

Ela dizia que ia engolir
A tapuia, que tanto odiava
Para ela a mãe era a culpada
De seu irmão ser tão lindo
E ela ser feia, escangalhada

Nos dias calmos, os irmãos
Mergulhavam nas marolas
Reviravam os dorsos ao sol
Bufavam de tanta alegria
-Eram crianças de escol !

Norato era bonito e forte
E tinha bom coração
E para visitar sua mãe
Que fosse por um momento
Ele, na forma de homem
Veja só que sofrimento

Norato nadava pra margem
E aguardava o momento
Para visitar a sua mãe
Usando o encantamento

E o Norato esperava
Ouvindo xingos da irmã
Que dizia: - mato ela!
-Mata nada, minha irmã!


Tão logo que escurecia
E apareciam as estrelas
A acauã deixava de cantar
Cobra Norato saía d’água
E na areia ia se arrastar

E a areia do rio rangia
Pois Norato era pesado
Ele subia até o barranco
E passava a ser encantado

E, lá no barranco ficava
O seu couro monstruoso
Brilhando à luz da lua
Azul cobalto; escamoso

E, erguia-se rapaz bonito
Todo de branco, a brilhar
Ia cear com a mãe tapuia
E o couro ficava a esperar...

O corpo da cobra ficava
Estirado no paranã: Norato
Tinha que meter-se nele
À primeira luz da manhã

E o Norato metia-se, naquele couro
Antes do cantar do galo, de manhã
E, então a cobra ganhava vida
E mergulhava nas águas do paranã

E assim viveu, encantado
Um moço infeliz pelo fato
De querer ser gente, mas era
Somente a grande cobra Norato

Norato só fazia o bem
Para as gentes ribeirinhas
Salvou gentes, venceu peixes
Expulsou as piranhinhas

Certa feita ele lutou
Por três dias e três noites
E o rio Trombetas chorava
Enquanto dava dentadas e açoites

E a luta durou tanto, até
-Sabe quando ela parava?
-Quando o espírito medonho
Para os infernos se mandava!


Já a Maria Caninana
Vivia a fazer maldades
Alagava embarcações
Apavorava os arrabaldes

Fazia os ribeirinhos
Viverem sempre com medo
Matava gente a pescar
E se mostrava, sem segredo.

E nunca procurou a tapuia
Que no Tejupar morava
E nunca ajudou um náufrago
-Na verdade ela os atacava!

Hoje em dia contam que
Lá em Obidos, no Pará
Debaixo de uma igreja
Uma grande caverna há

Lá, uma grande serpente está dormindo
Com a cauda no rio, cabeça debaixo do altar
Encantada pela Senhora Sant’Ana
Dizem que a terra racha, se alguém a serpente acordar

Caninana mordeu a cauda da serpente
Mas a serpente não acordou
Ela apenas se mexeu,
E foi assim que a terra rachou

E a terra rachou de verdade
Desde o mercado até a matriz
Mas, ela queria derrubar a igreja
Só não conseguiu por um triz

Nisso chegou o Norato
E matou a sua malvada irmã
E ficou por ali, brincando
Nos igarapés do paranã

A partir desse dia, todos viram
Que o Norato era do bem
E nas festas de potirúm de farinha
O Norato era recebido também

E o Cobra Norato só desencantava
Quando os acauãs paravam de cantar
E só então, todas as moças das festas,
Finalmente sua beleza podiam admirar


E, de branco ele dançava
Sorria, mostrava os dentes
Conversava com os rapazes
E todos ficavam contentes

Porém, quando o dia ia chegando
Norato cumpria o destino com destemor
E metia-se naquele couro, brilhante
E, da cobra mergulhando, ouvia-se o rumor

Uma vez cada ano o Norato
Um amigo ele convidava
Queria que desencantassem
E que a cobra matassem


E para quebrar o encanto
O Norato então explicava
Que esperassem a cobra dormir
Quando a boca ela escancarava

E na boca desta besta fera
Qual relâmpago, com açoite
A cobra mostrava os dentes
Brilhando à prata dentro da noite

E para desfazer o encanto
Aquele que coragem tiver
Tinha que pingar três gotas de leite
Tiradas do seio de uma mulher

E depois que cobra acordava
Arrotando o veneno de mulher gente
Tinham que feri-la com um cutelo
De ferro virgem, evidentemente

A cobra se contorceria
Lamentando sua ferida
Fecharia a boca ensanguentada
E Norato seria homem o resto da vida


Se alguém tivesse coragem
Para queimar essa serpente
Tudo estaria resolvido
E a mãe tapuia ficaria contente

E dizem que gente em profusão
Para ajudar o Norato
Levavam aço virgem e leite
E olhavam a cobra no mato

E a cobra era tão grande e feia
Que a todos ela assombrava
E mesmo ela dormindo, o povo
Um herói ninguém encontrava

A própria tapuia tentou
Mas, na hora teve medos
Deixou cair no chão o leite
E o cutelo, por entre seus dedos

E o cobra Norato continuou nadando
E assobiando na imensidão
Do Amazonas e do Trombetas
Indo e vindo, sem remissão


Num festim de putirúm famoso
Nadando pelo Tocantins e Cametá
Deixou o corpo na beira do rio
E foi lá beber, dançar e conversar

Ele conheceu um homem valente
Que , por acaso era soldado
E pediu que o desencantasse
O soldado levou leite e um machado

E o soldado viu a cobra dormindo
Estirada como morta no barranco
A cobra estava com a boca aberta
E o soldado era bravo e franco

Desceu o machado com vontade
No cocoruto da cabeça acertou
O sangue encantado marejou
A cobra sacudiu e parou

Honorato deu suspiro de alívio
Até veio ajudar a queimar o couro
Da cobra onde vivera tantos anos
Para ele, a vida era um tesouro

Dizem que o Norato morreu tarde
Lá para os lados do Cametá
Mas, seu espírito vive nos rios
Ainda virgens, no Estado do Pará

Não há no Pará um só ser que ignore
A vida da Cobra Norato naquelas paragens
São estórias, são causos, são crendices
São espíritos vistos pelas margens

Ainda hoje se escuta os canoeiros
Batendo a jacumã, fazendo relato
Indicando as paragens inesquecidas:
-Ali passava, todo dia, a cobra Norato!

 

 

BRINCANDO COM PAPAI

Se um dia papai voltasse, eu tentaria viver com ele tudo aquilo que sempre quis e nunca aconteceu. Ah, se eu pudesse voltar o tempo! Papai iria brincar comigo. Não chegaria cansado, nem estressado, nem nervoso, nem dopado, nem triste. A luta, para seus filhos terem alguma coisa no futuro, não o deixou viver o presente.

Hoje ele é passado. Papai morreu quando eu tinha dezoito anos de idade; ele tinha à época, pouco mais de cinquenta. Ele nunca participou de minha adolescência; menos ainda, por Deus o ter levado tão cedo, da minha chegada à idade adulta.

Ah, se papai me abraçasse, ao menos uma única vez; eu diria a ele que o amava. Quem sabe assim ele e eu perdêssemos nossa timidez?

Se papai me abraçasse, eu lhe daria um presente: uma máquina do tempo!
Ai então, eu ligaria meu «transformador de gente» e o faria ser menino de novo. Eu próprio entraria na máquina e nós dois, meninos; finalmente brincaríamos como só as crianças sabem brincar.

Cansados, eu o olharia embevecido, enquanto nova transformação ocorreria; eu e ele, aos poucos íamos ficando velhos. Fecharíamos nossos olhos e nos elevaríamos acima das casas, das ruas, das luzes, das cidades, do país e do mundo. Quem sabe finalmente eu veria a Europa, que tanta vontade tenho de conhecer e não pude; nem poderei.

Se um dia papai voltasse e eu pudesse conviver com ele tudo aquilo que quis e que nunca aconteceu, eu o acompanharia até a presença do Pai Eterno.

Reclamaria Dele, a falta de tempo que papai teve e do fato dele não me ver crescer. Ah, se eu pudesse voltar o tempo!

Se eu pudesse voltar o tempo, papai iria brincar comigo até o fim dos tempos. Eu, morto que estou, finalmente brincaria com papai.

Se um dia, você leitor, ouvir cantigas de roda, catiras batidas na mão e nos pés, ouvir sabiás cantando numa praça mal cuidada da cidade grande, ou ver um caipira lavrando a terra, saudado pela natureza, saiba leitor, será eu e meu pai, nos divertindo na eternidade; visto que na vida pouco nos divertimos.

Vocês ainda nos virão nos sorrisos ocultos dos personagens das estátuas que contam a história da terra bandeirante, em cada praça onde quer elas estejam.

Vocês nos ouvirão nos gorjeios dos canários da terra, dos coleirinhas, dos curiós, dos pintassilgos, no farfalhar das folhas dos jequitibás, nas flores dos ipês que os tornam sagrados, nas algazarras das crianças, nos curumins e cunhãs do Mato Grosso, que apreciaram um texto desse velho escrevinhador que, se não deixou filhos, foi abençoado por Deus com o dom de ver e ouvir estrelas, apreciar a natureza e entendê-la e a amar sua querida Dirce, despudoradamente.

Foi uma pena, meu pai, que não houvéssemos brincado mais com a vida, de não ter ouvido mais música caipira, de ter sorrido mais, como os curupiras e sacis que me acordaram hoje, só para que eu pudesse escrever este texto.

Pai, até breve! Não se perca de mim; não me desapareça.

ACAS

 

A Língua Portuguesa.

Antecedentes:

A língua portuguesa é uma língua complexa, rica, rara e bela.

Para entender esta complexidade, é preciso voltar um pouco no tempo e revisitar alguns fatos que motivaram a origem da Língua Portuguesa. Voltamos ao Lácio, região da Península Itálica, habitada por romanos, onde se falava a língua latina, um falar simples, de vocabulário reduzido e sem preocupações estilísticas.

Em meados do século IV a. C., os romanos ampliaram suas fronteiras para além do Lácio, conquistando primeiro os territórios da Península Itálica e depois a Sardenha, a Sicília e a Córsega. No auge de sua expansão, o Império Romano ia da Lusitânia à Mesopotâmia e do Norte da �frica à Grã-Bretanha.

Os romanos não estenderam apenas seus domínios, mas também levaram para as regiões conquistadas seus hábitos de vida, suas instituições, seu padrão de cultura profundamente influenciados pelos gregos e sobretudo sua língua, o latim.

O latim literário ou clássico era praticado por uma pequena elite, ligada principalmente à igreja, com correção e apuro do vocabulário, elegância no estilo, como podemos apreciar nas obras de Cícero, Vírgilio , Horácio e outros escritores que usavam o latim com intenções literárias.

O latim vulgar era falado pelos mais diversos tipos sociais: soldados, marinheiros, agricultores, pastores, barbeiros, artistas de circo e outros profissionais, sempre com a única preocupação de estabelecer comunicação imediata.

Foi o latim corrente, coloquial que os soldados, os colonos e os funcionários romanos levaram para as regiões conquistadas. Uma língua viva e simplificada que representava a multiplicidade e a riqueza da fala popular.

Os povos conquistados transformavam o latim a seu modo. As transformações que sofreu em cada região resultaram no aparecimento dos diferentes romances ou romanços.

Denominações que se dá às modificações regionais do latim vulgar.

As línguas românicas são: francês, espanhol, italiano, sardo, provençal, réticco, catalão, português, dalmático e romeno. O dalmático foi extinto no século XIX.

Os povos conquistados pelos romanos foram transformando as palavras latinas, acrescentando, suprimindo, transpondo e modificando fonemas de acordo com os hábitos fonéticos próprios.

A LINGUA PORTUGUESA

Os romanos chegaram à Península Ibérica no século III a.C, mas só dominaram-na definitivamente somente no ano 197 a.C, após muitas conquistas. Depararam com uma complexa mistura racial: celtas, iberos, fenícios, gregos e outros povos. Um único povo da província recusou o latim como língua, o povo basco.

No século V a península ibérica foi invadida por bárbaros, povos de origem germânica .Primeiro vieram os vândalos, depois os suevos e por fim os visigodos.. Estes dominaram a península durante dois séculos e meio e absorveram por completo a civilização romana e a língua latina, esta já sensivelmente alterada.

O Império romano visigótico ruiu com a invasão árabe no século VIII. O árabe passou então a ser a língua oficial, ainda que o povo vencido continuasse a falar o latim.

Foi durante a luta pela reconquista das regiões dominadas pelos árabes que se formaram os reinos de Navarra, Aragão, Leão e Castela. Em recompensa aos serviços prestados aos combates aos árabes D. Afonso VI, rei de Leão e Castela, concedeu a D. Henrique o Condado Portucalense, onde se formou uma unidade lingüística particular: o galego português. No século XII, o condado tornou-se independente, vindo a constituir Portugal.

Com o tempo acentuaram-se as diferenças entre o galego e o português, até que este separou-se por completo daquele. Nascia enfim a língua portuguesa. Uma língua constituída de termos latinos, gregos, godos, árabes e muitos outros incorporados ao longo das invasões territoriais.

No século XIII iniciaram-se as primeiras manifestações literárias – as trovas – e no século XV as traduções de obras latinas, francesas e espanholas. Todas redigidas em português arcaico. Com a publicação dos Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, no século XVI, inicia-se a fase do português moderno.

Com os descobrimentos marítimos, a língua portuguesa espalhou-se pelas ilhas do Atlântico, atingiu as costas da Asia e da Africa e aportou na Terra de Santa Cruz: Brasil.

Arlete Deretti Fernandes

Testamento do mendigo.

Por Urbano Reis

Agora, no fim da vida
Como mendigo que sou,
Me sinto preocupado,
Intrigado e num momento
Me pergunto, embaraçado,
Se faço ou não testamento.

Não tendo, como não tenho
E nunca tive ninguém,
Pra quem é que eu vou deixar
Tudo o que eu tenho:
os meus bens?

Pra quem é que vou deixar,
Se fizer um testamento,
Minhas calças remendadas,
O meu céu, minhas estrelas,
Que não me canso de vê-las
Quando ao relento deitado
Deixo o olhar perdido,
Distante, no firmamento?

Se eu fizer um testamento
Pra quem é que vou deixar
Minha camisa rasgada,
As águas dos rios, dos lagos,
Aguas correntes, paradas,
Onde às vezes tomo banho?

Pra quem é que vou deixar,
Se fizer um testamento,
Vaga-lumes que em rebanhos
Cercam meu corpo de noite,
Quando o verão é chegado?

Se eu fizer um testamento
Pra quem vou deixar,
Mendigo assim como sou,
Todo o ouro que me dá
O sol que vejo nascer
Quando acordo na alvorada?
O sol que seca meu corpo
Que o orvalho da madrugada
Com sua carícia molhou?

Pra quem é que vou deixar,
Se fizer um testamento,
Os meus bandos de pardais,
Que ao entardecer, nas árvores,
Brincando de esconde-esconde,
Procuram se divertir?
Pra quem é que eu vou deixar
Estas folhas de jornais
Que uso para me cobrir?

Se eu fizer um testamento
Pra quem é que eu vou deixar
Meu chapéu todo amassado
Onde escuto o tilintar
Das moedas que me dão,
Os que têm a alma boa,
Os que têm bom coração?

E antes que a vida me largue,
Pra quem é que eu vou deixar
O grande estoque que tenho
Das palavras «Deus lhe pague»?

Pra quem é que eu vou deixar,
Se fizer um testamento,
Todas as folhas de outono
Que trazidas pelo vento
Vêm meus pés atapetar?

Se eu fizer um testamento
Pra quem é que vou deixar
Minhas sandálias furadas,
Que pisaram mil caminhos,
Cheias dos pós das estradas,
Estradas por onde andei
Em andanças vagabundas?
Pra quem é que eu vou deixar
Minhas saudades profundas
Dos sonhos que não sonhei?

Pra quem eu vou deixar,
Se fizer um testamento,
Os bancos dos meus jardins,
Onde durmo e onde acordo
Entre rosas e jasmins?
Pra quem é que vou deixar,
Todos os raios de luar
Que beijam minhas mãos
Quando num canto de rua
Eu as ergo em oração?

Se eu fizer um testamento
Pra quem é que vou deixar
Meu cajado, meu farnel,
e a marca deste beijo
Que uma criança deixou
Em meu rosto perguntando
se eu era Papai Noel?

Pra quem é que eu vou deixar,
Se fizer um testamento,
Este pedaço de trapo
Que no lixo eu encontrei
que transformei em lenço
Para enxugar minhas lágrimas
quando fingi que chorei?

Se eu fizer um testamento...
Testamento não farei!
Sem nenhum papel passado,
Que papéis eu não ligo,
Agora estou resolvido:
O que tenho deixarei,
Na situação em que estou,
Pra qualquer outro mendigo,
Rogando a Deus que o faça,
Depois que eu tiver morrido,
Ser tão feliz quanto eu sou.

Urbano Reis

(Este testamento foi transcrito em uma revista. Foi feito por um mendigo. Ele não tinha nada material para transmitir a alguém, mas sente-se feliz em deixar muitas coisas que o dinheiro não compra

 


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