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EDIÇAO Nº VII 

1ª SEMANA, 1º NUMERO  DE FEVEREIRO DE 2009

 

O cansaço da espera

Haroldo P. Barboza (Autor do Livro Brinque e Cresça Feliz)

(9º lugar no Prata da Casa 1999)



Doutor Bileto pressionou o botão que acionava a lâmpada verde na sala da sua enfermeira Tina. Cinco segundos depois, entraram no recinto duas pessoas. Gustavo, 8 anos, louro, nariz vermelho com cara de poucos amigos. Dona Telma, sua tia, com uma expressão enfezada no rosto, que foi logo soltando o verbo :

- Dr. Bileto : acho esta situação uma completa falta de atenção comigo e com os demais clientes. No cartão consta que nossa consulta seria às 17 horas. São 18:30! A que horas esta criança vai jantar? Isto é correto? Por que os médicos têm esta mania de marcar consultas de 15 em 15 minutos e levam 25 a 30 com um com quem mais simpatiza? E ainda por cima chega atrasado quase meia hora! Conclusão: O último só sai daqui às 19:00! E duro pagar 50 dólares para ficar numa sala cheia de adultos e crianças irritadas, lendo revistas de um ano de uso, com receio que alguma pá daquele ventilador velho desabe em nossas cabeças!

Após o atendimento (devido ao incidente ele fez um abatimento de 50 %), foi conversar com Tina, pois sabia que dona Telma estava com a razão. Espaçar mais as consultas, nem pensar. Precisava comprar uma lancha maior no Natal. Tina lhe sugeriu consertar o ar refrigerado e instalar um console atari (2ª mão) na outra sala, que hoje servia como depósito. Enquanto a gurizada ficasse jogando, ninguém se lembraria do tempo! As crianças iriam até inventar incômodos estomacais para ter de ir mais vezes ao consultório!

- Gostei de sua idéia. No sábado trataremos de realizar estas melhoras. Na 2ª feira, começaremos uma nova fase de atendimento. E você não esqueça de comprar umas cinco revistas de fofocas para as mulheres terem a quem pichar durante o tempo de espera! Compre um bom cartucho de futebol que é o jogo mais desejado. E peça ao vendedor de café para deixar uma garrafa térmica aqui a cada 3 horas.

Às 16 horas de 2ª feira, Dr. Bileto pressionou o botão. Tina entrou na sala e explicou-lhe que os demais clientes haviam desistido da consulta e estavam na fila da outra sala, aguardando sua vez de jogar! - Parece que acabam de organizar um «torneio relâmpago». À medida que forem desclassificados, virão consultar-se com o senhor! Porém, pelo tamanho da fila, acredito que o torneio só vai terminar lá pelas 22 horas. Isto se não houver prorrogação e penaltyes !

 

Sociedade em decadência.

Haroldo P. Barboza


A sucessão de escândalos nacionais envolvendo figuras deprimentes da nossa política forma uma pirâmide de lama fétida que está corroendo as estruturas das entidades ora desacreditadas. Principalmente as câmaras públicas seguidas de perto pelos palácios regionais da Justiça. E atropelando por fora, chegam os sindicatos que outrora defenderam os interesses dos trabalhadores e que agora defendem os empresários.

O desrespeito está se alastrando sem controle entre os jovens que passam a acreditar que está tudo liberado e a desesperança de seus responsáveis está aumentando por perceberem que o futuro de seus herdeiros se mostra mais horrendo do que o suportável apesar de algumas tentativas de colocá-los num bom caminho. As famílias que se acomodaram enfrentam uma luta desigual contra os amigos de esquina que distribuem drogas entre seus herdeiros largados sob a vigilância de games explosivos.

Por esta tendência, jovens agridem índios, domésticas, lésbicas, gays e assemelhados. Fumam drogas a céu aberto, estupram menores e executam corridas noturnas de carros nas ruas das cidades na certeza de que nada acontecerá, pois a Justiça está sucateada e é fácil de ser «amaciada». Basta-nos ver com que facilidade os perigosos detentos usam celulares em suas celas nas prisões, como se fossem seus escritórios. Adolescentes que queimam índios e afogam colegas nas piscinas estão livres e alguns já montaram consultórios!

Só falta descobrirmos dentro de quantos anos (até quando a mídia pesada puder iludir os esfomeados) a convulsão social violenta eclodirá em territórios sacrificados penalizando milhares de inocentes arrastados para uma luta que não desejaram e não terão recursos para conter. Nem salvar seus herdeiros desprotegidos.

E mesmo embutido neste cenário de horror, certamente a tv lançará um «show da realidade» dentro de algum prédio abrigando habitantes desesperados pelas balas cruzando sobre suas cabeças disparadas por meia dúzia de meliantes que dominam as favelas inchadas que agora contornam os luxuosos condomínios. O último sobrevivente receberá um polpudo prêmio de U$ 1 MI . Deve ser suficiente para cobrir as despesas com os enterros dos parentes falecidos.

 


Mais importante do que saber como se fala é  fazer saber aquilo que se diz e dizer aquilo que se pensa. Este Jornal oferece-lhe a possibilidade de publicar colaborações. Não deixe que outros digam por si aquilo que você mesmo pode dizer.





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COLUNA DE JOSE GERALDO MARTINEZ  


CONTO MINEIRO



Rafael aparece trazendo um crânio encontrado no quintal, para o pavor da mãe e irmã que depenavam uma galinha para o almoço domingueiro, na bucólica cidadezinha situada na zona da mata, ladeada pela Serra da Mantiqueira, cuja topografia irregular pintava os tetos dos telhados antigos, além das inúmeras construções que resistiram ao tempo da corrida ao ouro nas «Minas Gerais».

 

Prefiro não citar o nome, muito embora se o fizesse, estaria colaborando na divulgação da tal cidade que escondia atrás de seu secretário municipal da cultura, um homem gordo e preguiçoso ( cargo de confiança) que se limitava apenas na mostragem das fotos das cidades históricas ( São João Del Rei, Tiradentes, Congonhas do Campo, Ouro Preto...exceto de sua cidade que apesar de pequena, guardava muito da história brasileira e mineira dos inconfidentes e da própria colonização.

 

Voltando a Rafael, mineirinho arteiro e traquina, acompanhado de outros garotos que se revezavam com o tal crânio a atormentarem as meninas do lugar. O padre foi chamado, além do delegado de polícia para investigar o tal crânio encontrado, misteriosamente, no quintal de Rafael.
A notícia não demorou a se esparramar e o menino passou a ser manchete no jornal, o que lhe causava orgulho toda vez que se via segurando o tal crânio.Tétrica, não fosse tão cômica a história ocorrida nos anos oitenta, lá na zona da mata mineira.

 

Não demorou e dona Jacinta, benzedeira conhecida do bairro e respeitada vidente, receber a visita de meia dúzia de caveiras em seu quintal. Uma delas ainda tinha cabelos e tudo indicava ser de uma mulher. Caprichosamente uma outra acomodou-se no canto da varanda, exatamente encostada em um dos pilares, como se a tomar uma fresca na manhã chuvosa.

 

A cidade entrou em polvorosa e o prefeito tentava abafar os fatos que de certa forma afugentava os poucos turistas que por lá passavam pois, pela localização geográfica, estava perto das principais cidades turisticas e os hotéis seriam mais baratos.

 

Um ataque de caveiras? Vingança malígna do além? Os mais exagerados : cidade amaldiçoada! Igrejas lotadas e fiéis rezando! Ainda que não quisessem, pessoas chegavam de todos os cantos e por um bom tempo, Tiradentes , São João Del Rei, Congonhas do Campo e Ouro Preto, ficaram às moscas. O assunto era a cidade das caveiras! Pastores envangélicos, exorcistas brasileiros e estrangeiros pesquisavam Rafael e ele malandro gostava e por vezes até ameaçava algum xilique para pavor de todos!

 

O menino teria trazido a maldição para cidade? Dona Jacinta, aquela tal benzedeira e vidente, sumiu de mudança para lugar ignorado! Rafael reinava solitário com o sucesso que lhe caíra de graça nas mãos.
Entrevistado pela televisão, tratou de virar os olhos a ponto de ser interrompida a entrevista pelo susto que a repórter levou! Estaria possuído?

 

Não demorou para começar a cobrar pelas entrevistas, afinal, era mineiro com sangue turco. O avô «Jamil», ainda mantinha pequena loja no centro da cidade e era famoso negociador de armarinhos e o pai de Rafael, Mamed, era dono de uma loja de roupas!

Turquinho mineiro e esperto, dividia com a molecada as tubaínas e paçoquinhas compradas a custo da fama. O prefeito já estava gostando dos fatos, pois, melhorava sensivelmente o comércio da cidade e o secretário municipal de turismo, exibia orgulhoso as fotos das caveiras com Rafael. Parafraseando um ditado popular : «Não há bem que não se acabe e nem mal que se perdure».

 

As chuvas de fevereiro trataram de revelar um antigo cemitério de escravos no alto do morro! As enxurradas com o passar dos anos , trataram de levar as ossadas para passearem pelos quintais! Pensava o prefeito : Não fosse aquele engenheiro a descobrir tudo, a bucólica cidadezinha teria crescido! Para alívio das cidades históricas.
Pensava Rafael : Adeus paçoquinhas, tubaínas e matinês...Na ingenuidade da sua rica infância!

 

MENINO CRESCE! - Poema

 

Não queira apressar as horas, menino!
Tens idéia da maior idade ?
O que te espera, adulto...
Ninguém sabe !

Na tua ingenuidade ainda enxergas
teu pai herói!
Capaz de defender-te por toda vida...
Teus sonhos inocentes ainda fazem parte,
de tua encantada guarida!

Teus guerreiros subjugam o mal !
Batmam e Homem Aranha fazem plantão...
Teu «Forte Apache» está montado no fundo
do quintal
a proteger teu quarteirão...

Não queiras apressar as horas...
Teu Zorro ainda cuida da vestimenta !
Não é fácil montares, em um cavalinho de pau,
e cuidar das largas ruas poeirentas...

O jogo de botão vai começar!
O tabuleiro está montado...
Adianta te apressares se
hoje o faz manipulado?

Amanhã?
Nem imaginas!
E jogo jogado ...
Pior ainda! Não terás o teu pai ao lado!

Teu Papai Noel ainda desce a chaminé,
tua bola ainda corre pelas ruas!
Teus peixes ainda são pegos nas peneiras nos
igarapés,
São Jorge ainda habita a tua lua !

Ah, menino! Não cresceste ainda!
Sorte minha...
Sorte tua!

Nem queiras imaginar a maior idade!
Amanhã quando olhares teu filho,
como faço eu agora,
sentirás saudade!

Entregar-te ao mundo, menino?
Que medo!
E neste momento que a gente percebe que
a vida passa num segundo,
quando não mais te encontro,
no dia que amanhece!

Menino, pensa!
Cada noite que escurece
são fragmentos de despedida
da tua infância tão querida,
de nossas vidas,
Menino cresce!



Enchentes olímpicas

Haroldo P. Barboza 

De tempos em tempos, num ciclo periódico, há quase 100 anos em movimento, ocorrem fatos que incomodam e chocam a sociedade. São os mesmos fatos, nas mesmas cidades, nos mesmos bairros. As vítimas fazem passeatas, levam faixas, prometem se vingar nas próximas eleições e buscam apoio em algumas entidades que na verdade só possuem rótulo de ONG para fazerem jus a alguma verba que lhes é destinada. A maioria não pretende resolver o problema de vez, pois os recursos cessarão neste caso.

As chuvas de verão ocorrem em altos volumes e diversos pontos das cidades são afetados. Várias famílias perdem bens e entes. A autoridade responsável aparece, diz que vai adotar um programa de remoção de detritos que entopem velhas galerias, vai realizar obras para desviar e tratar águas poluídas, desentupir sistemas de escoamento e vai adotar um programa escolar onde dará ênfase à educação do cidadão, para que este aprenda a preservar seu ambiente, sem suja-lo além do tolerável. Mas as chuvas cessam, chega o Carnaval, o povo passa a discutir o samba e as fantasias da sua escola preferida e acusar os jurados pela nota 9,5 que ela tirou num determinado quesito esquisito. E o governante não é mais cobrado até o próximo verão, quando possivelmente um novo administrador dirá que a culpa é do anterior, que desviou verbas destinadas à solução daquele problema. Na melhor das hipóteses dirá que «por uma fatalidade choveu nesta semana mais do que o previsto para o trimestre todo». As enchentes que assolam os aglomerados urbanos devem-se à falta de planejamento e orientação dos governantes, que torcem para que o crescimento seja desordenado para que surjam os problemas que podem servir de trampolim eleitoral ou que possibilitem soluções (não definitivas, é claro) através de «honestas» licitações. Fora do período eleitoral, criam ONG's objetivando a captação de doações de patriotas iludidos.



Se o povo não desperta da anestesia em que está mergulhado e não exercita sua memória para descobrir quantas vezes já foi enganado, este ciclo deve se manter por mais 100 ou 200 anos. E o pior disto, é que com nossa prática predatória da cultura e da qualidade de nossas vidas, matamos nossa esperança em recuperar a dignidade perdida pelos traidores a quem confiamos nossos destinos. Além do mais, nossos filhos e netos, nascerão dentro de uma realidade onde a verdade se exibe acorrentada e amordaçada, disfarçada pelas migalhas oferecidas pelos bondosos abutres que sugam nosso sangue para suprir suas gordas mordomias imerecidas. Nossos herdeiros não saberão perceber seus direitos a uma vida digna, mergulhados numa confusa teia de leis e estatutos que se contradizem e oferecem escape para os maiores facínoras: os que as editaram. Os sonhos de nossa juventude de preservar a igualdade e de gerar oportunidades para todos serão rotulados de fantasias de elementos despreparados para viver numa sociedade «justa».

Neste momento, o Rio de Janeiro está em foco em função dos desabamentos de diversas moradias em bairros abandonados atingidos por chuvas fortes no decorrer do verão pelo poder público. E tal situação deverá perdurar (e se agravar) no mínimo até 2016, caso nossa cidade seja escolhida para sediar os jogos olímpicos. O Município, o Estado e até o governo federal firmaram uma «parceria» no sentido de reduzir as verbas (os desvios devem se manter estáveis) sociais para canalizar altas somas nos projetos de montagem da estrutura que permitiu a realização do Pan em 2007 e dos jogos olímpicos nove anos depois. Tais eventos devem deixar algumas melhoras para 5% da população que vive no trajeto a ser usado pelos atletas participantes. Para os demais, sobrarão transtornos em função da canalização de recursos para a área sob foco da imprensa. E os dirigentes mentores das festas multiplicarão suas gordas contas bancárias com os polpudos contratos publicitários.

Programas para desentupir galerias pluviais nos pontos afetados há mais de 50 anos pelas águas poluídas estão engavetados. Mas a remoção de lodo no fundo da enseada da Guanabara para permitir o passeio de luxuoso iate internacional com mais de 2500 pessoas será realizada em menos de dois meses. Obras para recuperar os escombros que ainda sustentam a UERJ, UFRJ, Pedro II e outras centenas de entidades de ensino não estão na pauta, pois os técnicos em edificações estão alocados nos planos para erguer estádios, ginásios, vila olímpica, recuperação do «Maracananzinho» e outras estruturas para abrigar os atletas internacionais que estarão aqui durante as competições esportivas. As verbas para aquisição de material escolar serão aplicadas na confecção de belos mapas turísticos coloridos (omitindo os pontos de enchentes, é claro). Estes prospectos serão oferecidos nos aeroportos aos visitantes que aqui chegarão atraídos pela propaganda que enfatiza apenas a natureza e nosso bom humor para resistirmos calados a tantos descalabros.

Estudos para reflorestamento das encostas são propositalmente esquecidos e retardados, bem como o processo de educação das populações que habitam estas regiões e são agentes inocentes dos deslizes periódicos. O montante destinado para esta área deve ser aplicado na elaboração e na manutenção dos jardins que ornamentarão o perímetro da vila olímpica. Para agravar, em diversas oportunidades surgem políticos «espertos» incentivando a ocupação de áreas inóspitas para obter popularidade entre os desesperados.

Montantes destinados para combate ao mosquito da dengue e para adquirir medicamentos mínimos para atender os «matadouros» abarrotados de doentes mal atendidos que estão deitados nos pisos contaminados dos hospitais públicos devem ser usados para compor os gastos com a aquisição de balões de oxigênio e chapas radiográficas para os atletas que possam se acidentar durante as disputas.

Estudos para construção de conjuntos residenciais que permitam a redução gradativa de favelas inviáveis estão descartados, pois a prioridade é a modernização de aeroportos e melhora no tráfego por onde os atletas e turistas terão de passar durante sua permanência na cidade.

Talvez para minimizar o impacto deste contraste que eventualmente possa ser percebido pelos visitantes ao desembarcarem, os comandantes de aviões, gerentes de hotéis e guias turísticos sejam instruídos a pronunciarem o seguinte discurso padrão aos iludidos visitantes: «Caros amigos. Esperamos que sua estadia nesta cidade aprazível seja extremamente agradável. Não se deixem iludir pela aparente decadência de vida da população local. Observem que apesar do estado de pobreza em que vivem, exibem largo sorriso na face. A maior prova de que estão felizes com esta situação que perdura há dezenas de anos, é que sempre elegem os MESMOS candidatos para os cargos públicos há dezenas de anos».

Você se lembra em quem votou nas diversas esferas para conduzir seu destino e lutar pela sua qualidade de vida? Está acompanhando o trabalho deste elemento para verificar se ele tenta realizar o que prometeu em campanha? Não se importa com as suspeitas atitudes dele que dificultam a busca por uma vida melhor? Acha natural que tal elemento venda seu prestígio para grupos devastadores de nosso rico patrimônio? Abre mão da felicidade de seus herdeiros em troca de novela, futebol, samba e praia? Pensa que sua vida é apenas uma farsa do idolatrado (cada povo tem o que merece) Big Bobo Brasil?

Está pensando que a próxima geração poderá salvar este país mesmo com nossa omissão?





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