CARREGUE AQUI PARA VOLTAR AO INDICE 

EDIÇAO Nº VII 

1ª SEMANA, 1º NUMERO  DE FEVEREIRO DE 2009

Este Jornal resulta de colaborações espontâneas sendo propriedade dos seus autores os créditos que delas advenham assim como a responsabilidade pelo conteúdo das mesmas. Direcção interina de Daniel Teixeira
Chefe de Redacção: Arlete Piedade.



GRUPO / SEDE CONTACTO BLOG PAGINA UM

O Joãozinho

e a fome


CONTO DE JOÃO

FURTADO  

Era segundo ano consecutivo que a chuva nem vê-la. A cor castanha e informe da terra era desoladora. Só a grande esperança desmedida do Cabo-verdiano o fazia pegar na enxada e ir cavar para a sementeira de um novo e incerto ano agrícola. Verdade se diga, o José de Sousa havia visto no lunário perpetuo que o próximo ano era bom e de fartura.

O José de Sousa nunca costumava falhar duas vezes. Já havia falhado no ano passado e prometido um farto ano, mas deu no que se via. Nem palha para animal. Não havia jantado no dia anterior, sentia a barriga a roncar de fome. E não tinha onde ir buscar. O ultimo empréstimo foi a uma semana e os últimos grãos de milho serviu de jantar a dois dias. Do farelo a mulher, a sua Josefa, fez camoca com que tomou o pequeno almoço no dia anterior e levou uma parte que comeu enquanto trabalha.

Com fome e com barriga a roncar pegou na enxada e já ia a sair para ir trabalhar, quando a Josefa o chamou.
-Mário
-Sim, Josefa fala!
-Hoje não temos nada para comer!
-Vou trazer o que comer.

Ele sabia e Josefa sabia que ele estava a par da situação. Mas era como se estava a dizer-lhe que o joãozinho, um menino de seis anos, o filho dele e da Josefa não tinha nada para comer. Percebeu muito bem, por isso completou a frase com:
- Vai pedir a Maria que te arranje um pouco de farinha para fazeres papa para o Joãozinho, que tratarei de trazer alguma coisa para comermos.
-Vais ! Não era ele que estava a ir trabalhar sem comer nada?
-Não preocupe comigo, se não for trabalhar a terra, como iremos semear depois?

Sim era necessário, tinham que trabalhar, não tinham outra maneira de viver. Todos os anos era o mesmo ritual, preparar a terra, cavar e semear. No ano passado nem uma pinga de agua. Ninguém, que trabalhava no sequeiro, conseguiu tirar nada da terra. Apenas o Manuel conseguiu.

O Manuel era dono de uma grande várzea situada numa ribeira. Bem, ribeira na época das águas, nos meses secos, tudo era seco, mas na várzea do Manuel sempre podia-se fazer furos e tirar água do subsolo. Toda a gente pensava que ele era bruxo. Como sabia onde podia furar e conseguir sempre agua e fazer um grande regadio enquanto o povo tinha que andar quilómetros para ter o que beber?

O Manuel tinha uma vida abastada, quase metade do terreno produtivo era sua pertença. Quase todos trabalhavam em partilha para o Manuel. Se o ano fosse bom e tivesse milho ele tomava uma parte. Bem a partilha não era em duas partes iguais. Era dez espigas para o agricultar e doze para o morgado. A justificação era o pagamento do dizimo as finanças. O morgado saia sempre a ganhar. Mesmo nos anos maus como os dois últimos ele tinha o suficiente para se sustentar e dar fiado.

Ao Mário a margem de tomar fiado havia esgotado a três dias. O Manuel foi claro. Os bens que o Mário possuía não cobria mais nada. A um ano que já estava a viver de caridade. O que tomara já era mais caro que o único bem que possuía, uma casa de pedras argamassadas com argilas e coberto de palhas. Uma casa de um quarto e uma sala. Nem calcetada estava. Uma casa onde as pulguinhas eram tantas que o Joãozinho já estava com os pés defeituosos de tanto ser o hospedeiro predilecto do parasita.

Uma casa que na verdade nada valia, por isso o Manuel nunca quisera fazer valer dos puderes que o tornava dono e senhor. O Manuel sabia que a dignidade do homem cabo-verdiano é ter a sua própria casa. Para que afrontar um homem e leva-lo a quase suicídio em troca de uma casa que muitos eram os chiqueiros com melhor qualidade?

A Josefa pouco ou nada podia ajudar. A vida circulava a volta da rara e escassa chuva. Uma economia a volta de uma terra ressequida e pobre. Se não chovesse, não havia milho, sem milho não podia criar galinhas e muito menos porcos e cabras. Muito menos podia-se ter uma vaca. Onde conseguir-se-ia desencantar palhas para os sustentar? Sem galinhas não se podia ter ovos para vender, sem milho nem feijão não se podia vender nem comer. O dinheiro era escasso. As lojas existiam, mas para vender petróleo e fósforos.

O único trabalho que lhe restava era cozinhar, quando aparecia, e tomar conta do esfomeado Joãozinho. Graças a Deus, já habituado a fome, o Joãozinho esquecia que devia comer. Quando a fome o apertava ia a um canto e dormia. Aproveitava as carícias das muitas pulguinhas e dormia enquanto estas saboreavam do pouco sangue que lhe restava.

Era quase onze horas da noite quando o Mário chegou, trazia duas mandiocas e um porco as costas. Sem fazer barulho acordou a Josefa. Fez sinal para ficar de boca fechada. Contou como conseguiu a mandioca e o porco. Não era época para que a Josefa pudesse recrimina-lo. A fome era mais forte que a consciência do bem e do mal. A muito que o bem era a comida e o mal a fome. A muito que o seu mundo era apenas isto. A fome e a comida.

- Já sabes como consegui a mandioca e o porco. Tive que os roubar, a mandioca no regadio de Manuel e o porco é do cabo chefe, José da Luz.
- não te preocupes, casamos para o bem e para o mal até que a morte nos separe. Deixa o resto comigo.

A Josefa tirou a parte que dava para o jantar e pediu ao Mário que salgasse o resto e fosse enterrar na horta.
-Deixe que amanha eu o enterrarei quando for trabalhar.
-Faça o que te disse e agora. Procura ter a certeza que ninguém te veja a ir ou a vir.
Quando o Mário regressou o jantar já estava pronto e era quase meia noite. A Josefa pôs dois pratos de comida e sobrou um pouco na panela. O que sobrou era o correspondente para o Joãozinho que inocentemente dormia de barriga vazia.

- Josefa, não consigo comer, vendo o meu próprio filho a dormir e com fome – disse o Mário colocando a colher dentro do prato cheio do guisado de mandioca.
- Mário, quanto a Mandioca não é perigoso, mas a carne de porco…tu sabes, assim que o cabo chefe souber do roubo vai sair e procurar, se eu acordar o Joãozinho, tu sabes as crianças não sabem mentir. Assim que for perguntado ele dirá que comeu carne esta noite…A não ser si…

- Josefa o que estas a pensar?
-Mário vai me dar uma lata de água, enquanto isto vou por a comida do Joãozinho no prato e vou lavar a panela.
O Mário foi ao quintal e trouxe um lata de água e entregou-a a Josefa. Esta pegou da lata foi para onde o Joãozinho estava deitado e atirou toda a água sobre o pobre do Joãozinho perante os olhos incrédulos do Mário. O Joãozinho acordou todo molhado e sobressaltado. Mal acordou foi dado o seu prato de guisado, que comeu até ultimo bocado, adormecendo em seguida. A Josefa pegou nele e o colocou de novo na cama.

Durante uma semana, o Mário ia todas as noites desenterrar a carne e cortar um pedaço que era cozinhado a noite pela Josefa. A Josefa fazia tudo metodicamente, inclusive o ritual de acordar o Joãozinho.

Uma semana depois o cabo chefe chegaria a porta da Josefa e chamaria o Joãozinho para o perguntar:
-Comeste carne nestes dias?
-Senhor Cabo Chefe, eu comi carne de porco no dia em que choveu e molhei todo durante a noite!
Há dois anos é que do bendito céu não caia nem um pingo de chuva nestas terras de Cabo Verde !

        

                          Poesia zero



Conto de Michel C.


Há dias em que estou assim para o chateado e escrevo uma história divertida, ou que procura ser divertida e nem sempre o é porque esta coisa de fazer histórias, divertidas ou não tem que se lhe diga.

Não se fiem muito naqueles argumentos que a gente vê nas novelas ou mesmo nos filmes em que as coisas parecem sempre ter elevados graus de imaginação e divertimento, tristeza ou tragédia mesmo, daquela sangrenta, com sangue a jorros ou explosões de carros, barcos, camiões (normalmente de dezoito rodas que dá mais efeito) porque aquilo é tudo feito em série e normalmente as repetições são tantas que ao fim de cinco ou seis episódios ou desde o primeiro lá andam eles, os argumentistas, à roda da mesma coisa, a contar o mesmo que já contaram.

Pois bem, e regressando que agora já me ia perdendo nos meandros dos meus encavalitados pensamentos, quando estou triste, escrevo uma história, o que me acontece com frequência, estar triste, diga-se; na verdade sou um gajo triste por natureza, já nasci assim, penso eu que sim porque na altura não estava em condições de analisar bem a situação, mas penso que aquele clássico choro provocado pelo açoite no traseiro logo à nascença teve o seu perverso e marcante efeito e estou-me a ver, a imaginar, melhor dizendo, a dizer uns quantos palavrões ao médico.

A história de hoje, para variar, não tem qualquer assunto por onde se lhe pegue, ou terá, conforme se entender porque estas coisas dos regressos ao passado são sempre interessantes e este saltitar entre datas funciona assim como um arranjo da coerência intemporal naquilo que normalmente se chama como sendo um resumo temporalmente ordenado em meia dúzia de linhas ou como sendo um apanhado menos desordenado do que estava antes de começarmos a escrever.

Assim e sem mais delongas vamos ao fundo da história que não tem fundo naquele sentido literal e mesmo não literal porque no fundo não tem fundo nenhum por mais que se remexam as palavras e se tente, como se faz muitas vezes, ver sentidos profundos nas parvoíces que se vão escrevendo ao correr do teclado como fez aquele meu amigo, objecto fundamental desta história, e que já deve ter falecido.

O S., lá pelos idos de 70/80 arrancou grandes aplausos com o seu original poema avant garde que dizia mais ou menos assim verso a verso: zero, zero, zero, alternando o número de zeros escritos verso a verso durante para aí uns dez «versos» para culminar num apoteótico final ressaltando abaixo do espaçamento das linhas com um gritado (em letra maiúscula) «ZERO À ESQUERDA!»

A questão que me preocupa se é que eu deva preocupar-me é que durante muito tempo fiquei sem saber se as pessoas aplaudiam o «poema» porque eram uns gajos porreiros com taxas de alcoolemia de assustar qualquer balão de estrada, se era porque tinham «pena» do poeta que era esquizofrénico daqueles bem sucedidos, quer dizer, daqueles que apesar de serem esquizofrénicos conseguem tratar das suas vidas independentemente, ou se o poema deveria mesmo ser considerado bom e eu fui dos poucos a não o entender.

Encontrei este poeta depois de longas ausências e desencontros numa cama de hospital depois de ter sido atropelado numa daquelas estradecas interiores no campo onde o pessoal vai conduzindo aquilo que pode até que bata em qualquer coisa dado que não se vê a ponta à noite. Levei-lhe aquelas coisas que normalmente se levam aos doentes, bolachas, sumos e deixei-lhe dois maços de cigarros escondidos a seu pedido no fundo da gaveta da mesa de metal que fazia de mesa de cabeceira. Conversámos um bocado, pouco porque ele estava nitidamente pouco compensado psiquiatricamente, mas tivemos ainda oportunidade de recordar o seu poema de tanto sucesso.

Com os olhos ainda semi - inchados das feridas e com um brilho quase lacrimejante lá me foi dizendo um dia em que se sentia melhor que tinha sido esse tempo do poema o seu único momento de glória na vida que agora ali jazia vai não vai depois de ter andado na mesma durante muitos anos. Tinha sido o seu grande tempo de auto-satisfação, o seu tempo de maior perenidade na sensação de ser útil à sociedade e não um mero peso sustentado pela Segurança Social.

Viveu feliz enquanto durou o «sucesso» do poema entre os amigos, viveu feliz depois recordando o poema e os bons momentos do seu apogeu quando estava mais só ainda e mais triste ainda e trazia-o sempre na algibeira, cuidadosamente dactilografado, ocupando o meio de uma folha A4.

E tudo isso para quê !? - disse-me enquanto me estendia a mão numa despedida que parecia não querer ainda que tivesse lugar durante os dois primeiros dias de visita. Depois, no último dia que o vi, ele recordando-me a efemeridade das coisas acrescentou: de tantos amigos e de tantos aplausos resultou que eu fui o único a visitá-lo.

E logo eu que fui também o único a «não compreender» o poema tal como ele o sabia desde sempre. Foi nesse mesmo dia, enquanto em saída deixava cair pelos corredores do Hospital algumas recordações de outros momentos bons e menos bons meus que eu compreendi finalmente que nem sempre interessa aquilo que o poema é mas sim aquilo que ele significa para nós : este poema zero e este poeta zero foram ambos vivendo e falecendo à esquerda da virgula da vida e isso estava escrito desde há muito na folha A4 que lhes coube no livro de registo que das suas leis os não libertou.

Michel C.

 

A Morte Acidental do Nobre Edil

Todo mundo sabia que o vereador Galisteu andava metido em encrencas...

Ele nunca comparecia aos encontros do Partido; nem nas viagens dos outros edis. Agora, deitado de decúbito dorsal e rodeado de flores, parece sorrir de seus adversários políticos: ele os enganou a todos.

Vivia na luxúria; nem houve uma única primeira dama nos últimos trinta anos que não lhe tivesse convidado a dividir a alcova, justamente nos dias em que havia reunião do partido.

Pena que o soldado que guardava a casa do alcaide, o tenha confundido com um ladrão, ao sair sorrateiramente pelos fundos da casa.

Agora, se pudesse dizer algo, diria que morreu satisfeito.


ACAS