EDIÇAO Nº VII
1ª SEMANA, 1º NUMERO DE FEVEREIRO DE 2009

O Joãozinho
e a fome
FURTADO
Era segundo ano consecutivo que a chuva nem vê-la. A cor castanha e
informe da terra era desoladora. Só a grande esperança desmedida do
Cabo-verdiano o fazia pegar na enxada e ir cavar para a sementeira de um
novo e incerto ano agrícola. Verdade se diga, o José de Sousa havia
visto no lunário perpetuo que o próximo ano era bom e de fartura.
O José de Sousa nunca costumava falhar duas vezes. Já havia falhado no
ano passado e prometido um farto ano, mas deu no que se via. Nem palha
para animal. Não havia jantado no dia anterior, sentia a barriga a
roncar de fome. E não tinha onde ir buscar. O ultimo empréstimo foi a
uma semana e os últimos grãos de milho serviu de jantar a dois dias. Do
farelo a mulher, a sua Josefa, fez camoca com que tomou o pequeno almoço
no dia anterior e levou uma parte que comeu enquanto trabalha.
Com fome e com barriga a roncar pegou na enxada e já ia a sair para ir
trabalhar, quando a Josefa o chamou.
Ele sabia e Josefa sabia que ele estava a par da situação. Mas era como
se estava a dizer-lhe que o joãozinho, um menino de seis anos, o filho
dele e da Josefa não tinha nada para comer. Percebeu muito bem, por isso
completou a frase com:
Sim era necessário, tinham que trabalhar, não tinham outra maneira de
viver. Todos os anos era o mesmo ritual, preparar a terra, cavar e
semear. No ano passado nem uma pinga de agua. Ninguém, que trabalhava no
sequeiro, conseguiu tirar nada da terra. Apenas o Manuel conseguiu.
O Manuel era dono de uma grande várzea situada numa ribeira. Bem,
ribeira na época das águas, nos meses secos, tudo era seco, mas na
várzea do Manuel sempre podia-se fazer furos e tirar água do subsolo.
Toda a gente pensava que ele era bruxo. Como sabia onde podia furar e
conseguir sempre agua e fazer um grande regadio enquanto o povo tinha
que andar quilómetros para ter o que beber?
O Manuel tinha uma vida abastada, quase metade do terreno produtivo era
sua pertença. Quase todos trabalhavam em partilha para o Manuel. Se o
ano fosse bom e tivesse milho ele tomava uma parte. Bem a partilha não
era em duas partes iguais. Era dez espigas para o agricultar e doze para
o morgado. A justificação era o pagamento do dizimo as finanças. O
morgado saia sempre a ganhar. Mesmo nos anos maus como os dois últimos
ele tinha o suficiente para se sustentar e dar fiado.
Ao Mário a margem de tomar fiado havia esgotado a três dias. O Manuel
foi claro. Os bens que o Mário possuía não cobria mais nada. A um ano
que já estava a viver de caridade. O que tomara já era mais caro que o
único bem que possuía, uma casa de pedras argamassadas com argilas e
coberto de palhas. Uma casa de um quarto e uma sala. Nem calcetada
estava. Uma casa onde as pulguinhas eram tantas que o Joãozinho já
estava com os pés defeituosos de tanto ser o hospedeiro predilecto do
parasita.
Uma casa que na verdade nada valia, por isso o Manuel nunca quisera
fazer valer dos puderes que o tornava dono e senhor. O Manuel sabia que
a dignidade do homem cabo-verdiano é ter a sua própria casa. Para que
afrontar um homem e leva-lo a quase suicídio em troca de uma casa que
muitos eram os chiqueiros com melhor qualidade?
A Josefa pouco ou nada podia ajudar. A vida circulava a volta da rara e
escassa chuva. Uma economia a volta de uma terra ressequida e pobre. Se
não chovesse, não havia milho, sem milho não podia criar galinhas e
muito menos porcos e cabras. Muito menos podia-se ter uma vaca. Onde
conseguir-se-ia desencantar palhas para os sustentar? Sem galinhas não
se podia ter ovos para vender, sem milho nem feijão não se podia vender
nem comer. O dinheiro era escasso. As lojas existiam, mas para vender
petróleo e fósforos.
O único trabalho que lhe restava era cozinhar, quando aparecia, e tomar
conta do esfomeado Joãozinho. Graças a Deus, já habituado a fome, o
Joãozinho esquecia que devia comer. Quando a fome o apertava ia a um
canto e dormia. Aproveitava as carícias das muitas pulguinhas e dormia
enquanto estas saboreavam do pouco sangue que lhe restava.
Era quase onze horas da noite quando o Mário chegou, trazia duas
mandiocas e um porco as costas. Sem fazer barulho acordou a Josefa. Fez
sinal para ficar de boca fechada. Contou como conseguiu a mandioca e o
porco. Não era época para que a Josefa pudesse recrimina-lo. A fome era
mais forte que a consciência do bem e do mal. A muito que o bem era a
comida e o mal a fome. A muito que o seu mundo era apenas isto. A fome e
a comida.
- Já sabes como consegui a mandioca e o porco. Tive que os roubar, a
mandioca no regadio de Manuel e o porco é do cabo chefe, José da Luz.
A Josefa tirou a parte que dava para o jantar e pediu ao Mário que
salgasse o resto e fosse enterrar na horta.
- Josefa, não consigo comer, vendo o meu próprio filho a dormir e com
fome – disse o Mário colocando a colher dentro do prato cheio do guisado
de mandioca.
- Josefa o que estas a pensar?
Durante uma semana, o Mário ia todas as noites desenterrar a carne e
cortar um pedaço que era cozinhado a noite pela Josefa. A Josefa fazia
tudo metodicamente, inclusive o ritual de acordar o Joãozinho.
Uma semana depois o cabo chefe chegaria a porta da Josefa e chamaria o
Joãozinho para o perguntar:
CONTO DE JOÃO
-Mário
-Sim, Josefa fala!
-Hoje não temos nada para comer!
-Vou trazer o que comer.
- Vai pedir a Maria que te arranje um pouco de farinha para fazeres papa
para o Joãozinho, que tratarei de trazer alguma coisa para comermos.
-Vais ! Não era ele que estava a ir trabalhar sem comer nada?
-Não preocupe comigo, se não for trabalhar a terra, como iremos semear
depois?
- não te preocupes, casamos para o bem e para o mal até que a morte nos
separe. Deixa o resto comigo.
-Deixe que amanha eu o enterrarei quando for trabalhar.
-Faça o que te disse e agora. Procura ter a certeza que ninguém te veja
a ir ou a vir.
Quando o Mário regressou o jantar já estava pronto e era quase meia
noite. A Josefa pôs dois pratos de comida e sobrou um pouco na panela. O
que sobrou era o correspondente para o Joãozinho que inocentemente
dormia de barriga vazia.
- Mário, quanto a Mandioca não é perigoso, mas a carne de porco…tu
sabes, assim que o cabo chefe souber do roubo vai sair e procurar, se eu
acordar o Joãozinho, tu sabes as crianças não sabem mentir. Assim que
for perguntado ele dirá que comeu carne esta noite…A não ser si…
-Mário vai me dar uma lata de água, enquanto isto vou por a comida do
Joãozinho no prato e vou lavar a panela.
O Mário foi ao quintal e trouxe um lata de água e entregou-a a Josefa.
Esta pegou da lata foi para onde o Joãozinho estava deitado e atirou
toda a água sobre o pobre do Joãozinho perante os olhos incrédulos do
Mário. O Joãozinho acordou todo molhado e sobressaltado. Mal acordou foi
dado o seu prato de guisado, que comeu até ultimo bocado, adormecendo em
seguida. A Josefa pegou nele e o colocou de novo na cama.
-Comeste carne nestes dias?
-Senhor Cabo Chefe, eu comi carne de porco no dia em que choveu e molhei
todo durante a noite!
Há dois anos é que do bendito céu não caia nem um pingo de chuva nestas
terras de Cabo Verde !
Poesia zero

Conto de Michel C.
Há dias em que estou assim para o chateado e escrevo uma história divertida, ou
que procura ser divertida e nem sempre o é porque esta coisa de fazer histórias,
divertidas ou não tem que se lhe diga.
Não se fiem muito naqueles argumentos que a gente vê nas novelas ou mesmo nos
filmes em que as coisas parecem sempre ter elevados graus de imaginação e
divertimento, tristeza ou tragédia mesmo, daquela sangrenta, com sangue a jorros
ou explosões de carros, barcos, camiões (normalmente de dezoito rodas que dá
mais efeito) porque aquilo é tudo feito em série e normalmente as repetições são
tantas que ao fim de cinco ou seis episódios ou desde o primeiro lá andam eles,
os argumentistas, à roda da mesma coisa, a contar o mesmo que já contaram.
Pois bem, e regressando que agora já me ia perdendo nos meandros dos meus
encavalitados pensamentos, quando estou triste, escrevo uma história, o que me
acontece com frequência, estar triste, diga-se; na verdade sou um gajo triste
por natureza, já nasci assim, penso eu que sim porque na altura não estava em
condições de analisar bem a situação, mas penso que aquele clássico choro
provocado pelo açoite no traseiro logo à nascença teve o seu perverso e marcante
efeito e estou-me a ver, a imaginar, melhor dizendo, a dizer uns quantos
palavrões ao médico.
A história de hoje, para variar, não tem qualquer assunto por onde se lhe pegue,
ou terá, conforme se entender porque estas coisas dos regressos ao passado são
sempre interessantes e este saltitar entre datas funciona assim como um arranjo
da coerência intemporal naquilo que normalmente se chama como sendo um resumo
temporalmente ordenado em meia dúzia de linhas ou como sendo um apanhado menos
desordenado do que estava antes de começarmos a escrever.
Assim e sem mais delongas vamos ao fundo da história que não tem fundo naquele
sentido literal e mesmo não literal porque no fundo não tem fundo nenhum por
mais que se remexam as palavras e se tente, como se faz muitas vezes, ver
sentidos profundos nas parvoíces que se vão escrevendo ao correr do teclado como
fez aquele meu amigo, objecto fundamental desta história, e que já deve ter
falecido.
O S., lá pelos idos de 70/80 arrancou grandes aplausos com o seu original poema
avant garde que dizia mais ou menos assim verso a verso: zero, zero, zero,
alternando o número de zeros escritos verso a verso durante para aí uns dez
«versos» para culminar num apoteótico final ressaltando abaixo do espaçamento
das linhas com um gritado (em letra maiúscula) «ZERO À ESQUERDA!»
A questão que me preocupa se é que eu deva preocupar-me é que durante muito
tempo fiquei sem saber se as pessoas aplaudiam o «poema» porque eram uns gajos
porreiros com taxas de alcoolemia de assustar qualquer balão de estrada, se era
porque tinham «pena» do poeta que era esquizofrénico daqueles bem sucedidos,
quer dizer, daqueles que apesar de serem esquizofrénicos conseguem tratar das
suas vidas independentemente, ou se o poema deveria mesmo ser considerado bom e
eu fui dos poucos a não o entender.
Encontrei este poeta depois de longas ausências e desencontros numa cama de
hospital depois de ter sido atropelado numa daquelas estradecas interiores no
campo onde o pessoal vai conduzindo aquilo que pode até que bata em qualquer
coisa dado que não se vê a ponta à noite.
Levei-lhe aquelas coisas que normalmente se levam aos doentes, bolachas, sumos e
deixei-lhe dois maços de cigarros escondidos a seu pedido no fundo da gaveta da
mesa de metal que fazia de mesa de cabeceira. Conversámos um bocado, pouco
porque ele estava nitidamente pouco compensado psiquiatricamente, mas tivemos
ainda oportunidade de recordar o seu poema de tanto sucesso.
Com os olhos ainda semi - inchados das feridas e com um brilho quase lacrimejante
lá me foi dizendo um dia em que se sentia melhor que tinha sido esse tempo do
poema o seu único momento de glória na vida que agora ali jazia vai não vai
depois de ter andado na mesma durante muitos anos.
Tinha sido o seu grande tempo de auto-satisfação, o seu tempo de maior
perenidade na sensação de ser útil à sociedade e não um mero peso sustentado
pela Segurança Social.
Viveu feliz enquanto durou o «sucesso» do poema entre os amigos, viveu feliz
depois recordando o poema e os bons momentos do seu apogeu quando estava mais só
ainda e mais triste ainda e trazia-o sempre na algibeira, cuidadosamente
dactilografado, ocupando o meio de uma folha A4.
E tudo isso para quê !? - disse-me enquanto me estendia a mão numa despedida
que parecia não querer ainda que tivesse lugar durante os dois primeiros dias de
visita. Depois, no último dia que o vi, ele recordando-me a efemeridade das
coisas acrescentou: de tantos amigos e de tantos aplausos resultou que eu fui o
único a visitá-lo.
E logo eu que fui também o único a «não compreender» o poema tal como ele o
sabia desde sempre.
Foi nesse mesmo dia, enquanto em saída deixava cair pelos corredores do Hospital
algumas recordações de outros momentos bons e menos bons meus que eu compreendi
finalmente que nem sempre interessa aquilo que o poema é mas sim aquilo que ele
significa para nós : este poema zero e este poeta zero foram ambos vivendo e
falecendo à esquerda da virgula da vida e isso estava escrito desde há muito na
folha A4 que lhes coube no livro de registo que das suas leis
os não libertou.
Michel C.
A Morte Acidental do Nobre Edil
Todo mundo sabia que o vereador Galisteu andava metido em encrencas...
Ele nunca comparecia aos encontros do Partido; nem nas viagens dos outros edis. Agora, deitado de decúbito dorsal e rodeado de flores, parece sorrir de seus adversários políticos: ele os enganou a todos.
Vivia na luxúria; nem houve uma única primeira dama nos últimos trinta anos que não lhe tivesse convidado a dividir a alcova, justamente nos dias em que havia reunião do partido.
Pena que o soldado que guardava a casa do alcaide, o tenha confundido com um ladrão, ao sair sorrateiramente pelos fundos da casa.
Agora, se pudesse dizer algo, diria que morreu satisfeito.
ACAS