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EDIÇAO Nº XV , 5ª SEMANA, 5º NUMERO  DE MARÇO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade


Amores Virtuais

S a n d r a  F a y a d

Imagino-te sensual, sensível, carente
De cada vez mais amor, mais e mais...
Pela beleza, és eternamente apaixonado.
Pela paz, guerreiro irreverente,

Portando bandeiras das causas sociais.

E, sem dúvida, o amor teu ponto forte.
Aquele que se foi, tirando-te a paz,
Deixando-te sem porto, sem um norte.

Ah, se me coubesse, se eu fosse capaz
De matar essa bactéria que te conduz à morte,
Tornar-me-ia tua amada deusa... em cartaz.

 

Hipnótico

Sandra Fayad

Há algo em ti que me hipnotiza.
Não sei se esse olhar sempre a me sorrir...
Talvez os dentes brancos por trás dos sorrisos.
Serão as maçãs protuberantes a me seduzir,
Ou teus cabelos de fios dourados e lisos?

Há algo em ti que me enlouquece.
Essa sensualidade de quem sabe o que quero,
O convencimento de quem de mim já conhece
Os desejos ardentes que de ti eu espero
Beijos molhados de quem não te esquece.

Há algo em ti que me suga os sentidos.
Talvez teu disfarce de aparente meiguice
Essa crença de que vais te entregar por inteiro.
Ah! sinto que este teu jeito moleque me vicia
Me arrasta cega e sedenta para teu cativeiro
Me amassa, me deita e devora... com magia.

 

O cultivo da desgraça num país em desgraça

Crónica de Humberto Teixeira

Portugal não é um país diferente dos outros, pelo menos não é assim tanto como normalmente se pensa, mas é comum dizer-se - quando se trata de referir alguma coisa de extraordinário, no sentido negativo - que : «isto só em Portugal».

Mas, sem ser segredo nenhum, é um facto que as mesmas coisas que se passam aqui em Portugal, se passam noutros países, por vezes com ligeiras alterações devido à especificidade de cada um deles. Ora, dito o óbvio, passemos ao menos óbvio.

Só em Portugal, mas mesmo só em Portugal, se vive de uma forma forte a saudade do tempo das caravelas. É claro que entendendo estas coisas eu compreendo perfeitamente que se tenha necessidade de relembrar um passado que de alguma forma acabou por ser glorioso se descontarmos as poucas vergonhas que foram feitas por esse mundo fora pelos portugueses de então. Eram primitivos, dizemos, e o nosso pensamento e actuação hoje, nas mesmas condições de então, já não seria seguramente o mesmo, Certo.

O problema é que há várias formas de viver essa saudade: uma a saudável, que é honrarmos a coragem, a arte e o engenho dos nossos antepassados e a outra, a mais triste e desgraçada das saudades neste país que acaba por ficar mais em desgraça logo que se levanta a necessidade de puxar desse argumento para nos contentarmos através do passado da falta de condições no presente.

Essa «doença», que por aqui se chama também a doença do «tive» na sua versão mais moderna relacionada com alguns dos chamados de retornados das ex-colónias, que, quando nalguns casos não têm ou têm menos do que aquilo que julgam merecer em termos materiais ou de posicionamento social jogam mão da memória daquele mais que tiveram nessas mesmas colónias, é, com alta significância, uma patologia grave.

É grave porque é sinónimo de introspecção negativa, quer dizer, as pessoas substituem a imagem do passado para colmatar as brechas do presente e ficam sem presente resolvido e sem necessidade de procurarem resolução para ele. Assentam arraias no imaginário, satisfazem-se relativamente nele, perdem ou reduzem a capacidade de acção, semi-adormecem, drogam-se, em suma.

É assim como olhar para uma fotografia de um ovo estrelado e ficar-se a pensar que se está a comer o dito ovo num período em que os ovos estejam ausentes do armário ou mais arrojadamente meter uns chumbos de qualquer coisa sem receita médica para ver imagens engraçadas ou não, não sei.

Mas muita gente, mesmo sem caravelas, tem este tipo de comportamento: é comum falar-se do misticismo russo, que apareceu providencialmente em maior força nos períodos do saudosismo português e quando essa grande génio que foi o Teixeira de Pascoaes se lembrou de alicerçar o ser português à saudade e ao saudosismo.

Bem (lhes) dizia o Raul Proença que aqueles saudosistas não precisavam de ter saudade de nada porque tinham tudo: estavam bem casados, eram ricos e sem canseiras... mas de nada serviu. O saudosismo foi e é um filão quase inesgotável no imaginário português visto num plano geral. É um saudosismo místico, contemplativo, com variações dentro do seu campo que levam muita gente a gostar sempre de estar onde não está e a desejar ter o mesmo mas aparentemente diferente daquilo que tem.

É a desgraça num país em desgraça que leva a tudo isto; a este retorno quase eterno, a esta saudade doentia, a este desejo de falar no que se teve mesmo não se tendo tido nada. Na verdade eu, e milhões de portugueses, todos eles, não viram e não vêm um cêntimo resultante dessas famosas conquistas. Antes pelo contrário, á conta delas, de termos sempre vivido acima das nossas posses estamos a pagar e vamos pagando, eternamente penso eu, os custos dessas mesmas conquistas.

Por isso, se uns não deviam ter saudades porque estavam mais que bem, nós neste nosso tempo não devemos ter este tipo de saudade porque estamos mais que mal por causa disso.

Estamos hoje a pagar ainda os pregos da primeira caravela da primeira viajem...que ainda por cima foi aquela que se afundou velejadas três braças!!!

 

Poema da vida

Arlete D. Fernandes

Dia e noite, noite e dia,
Assim segue o ritmo da vida.
Buscas, delírios,
Dores, martírios.

Nesta curva da estrada
A felicidade me esperou.
O sonho virou realidade,
Meu lar aqui se formou.

Família, esposo e filhos,
Emoções tantas encontrei.
Sucedem-se os dias,
O sol, o verde, a chuva e as estações.

Ali, as folhas que caem,
Aqui, as folhas que brotam.
O poema da vida
Escrito em um grande cartão.

A infância, a adolescência,
A juventude, a vida adulta.
«Nossos filhos não são nossos filhos,»
Como disse um dia Gibran .

Como a árvore que plantei,
As sementes que vi brotar,
Cresceram e seus caminhos
Um dia foram procurar.

Hoje espero ouvir o telefone,
O skipe, o Messenger, um email.
Como não sentir saudades
Do barulho das crianças?

Este ninho ficou vazio,
Procuro-os por todos os cantos.
Enquanto em meu jardim vejo
Pássaros voando constantes.

Passam dias, meses e anos.
Os rios correm para o mar,
Lá fora o poema da vida
Continua a se renovar.

 

Amigos virtuais

Arlete D. Fernandes


Nossas almas tem preocupações semelhantes.
Mesmo sendo amigos virtuais.
São pensamentos de amizade e de bem
Que nos unem em anelos fraternais.

Angustia-nos a desordem da humanidade.
Queremos ver o respeito, a paz e a unidade.
Em contrapartida vemos a cada ano,
incompreensões, guerras e desenganos.

Os dardos do mal se fortaleceram,
Dos valores e princípios o que foi feito?
Com o passar do tempo esqueceram.
Já existe em nosso meio quem pratique
a volta aos conceitos verdadeiros.

As leis universais são justas e eternas
e já se fazem sentir suas causas e efeitos.
E muitos seres unindo-se praticam conscientes
O amor e os princípios que ensinam pacientes.