Coluna
Um
A culpa é do branco
Há dias, durante a visita do Primeiro Ministro Inglês a Brasília, o
Presidente Lula da Silva afirmou sucintamente que a presente crise económica
é resultado da actuação de indivíduos «brancos, louros e de olhos azuis»,
numa referência que todos entendemos estar o mesmo Lula a dizer que os
países pobres (em princípio não brancos) estavam a sofrer aquilo que outros
tinham fabricado, e que essas pessoas apareciam antes pelo Brasil e por
outros países «julgando e dizendo que sabiam tudo».
É um facto que, de uma forma geral, a crise actual, resultando sobretudo de
especulações financeiras subidas além do chinelo da razoabilidade, tem o seu
alicerce nos países ocidentais normalmente considerados ricos e sobretudo,
na medida da sua importância em termos económicos, o seu efeito é
proporcional à sua capacidade financeira. Quanto maior a nau maior a
tormenta e neste caso concreto maior ondulação produz a grandeza dessa nau
agora sem rumo nem remos.
Esta coisa da moeda é algo de extraordinariamente simples na sua origem: a
moeda resulta das transacções de mercadoria (para as quais se estipula um
dado valor) evitando-se assim o tradicional sistema da troca directa, ainda
em uso nas comunidades rurais, por exemplo, em que se paga com ovos, por
exemplo, o café.
O intermediário capital, neste sistema, contudo, ganha vida própria, desliga-se da sua realidade de base, joga com os tempos, com remunerações para aplicação, é aplicado com remuneração, ou seja, procura reproduzir-se: quem tem mil euros disponíveis, por exemplo, entrega-os a um banco, que por sua vez o remunera numa dada percentagem e, por estranho que pareça, dizem os financeiros, esses mesmo mil euros na sua rotação podem atingir cerca de 100 voltas, ou seja, podem «transformar-se» em 100 mil euros, dos quais 99 mil são em parte substancial virtuais.
E digo que são em parte virtuais, estes 99 mil euros e não na totalidade, porque uma parte dessa virtualidade acaba por agregar-se a realidades e acaba por fazer parte dessa mesma realidade. Vejamos - e peço desculpa por ser tão primário no raciocínio mas não sei trabalhar de outra forma - vamos supor que nessa rotação uma parte fomenta uma actividade produtiva (ou outra complementar) e o milagre da multiplicação dos pães está feito.
Os mil euros iniciais, que resultavam de uma realidade, são assim acrescidos na sua realidade com mais mil, ou dois mil, ou dez mil, ou 99 mil, segundo esta lógica. É claro que isso implica um processo de rotação progressiva: não se trata de dar 100 voltas ao dinheiro e voltar a receber os mesmos mil euros. Isso seria absurdo, como é claro, e mais resultado dava tê-lo a abobrar nos cofres (não pagando remuneração nenhuma).
A COLUNA DE ARLETE PIEDADE
O
direito à água
A propósito do Dia Mundial da �?gua, vou aqui falar de uma notícia publicada
num dos maiores jornais diários matutinos portugueses a que tive acesso no
último fim - de - semana.
Para os que de longe emigram para Portugal, crentes que estão num país do
dito «primeiro mundo» já que faz parte da Europa, logo sinónimo de
civilização, desenganem-se pois que ás portas de Lisboa, no bairro
clandestino Terras da Costa, na Caparica (margem sul do Tejo) uma das
principais aspirações dos habitantes é ter um chafariz.
Este bairro tem trinta anos de existência, e a maioria dos seus 300
habitantes são imigrantes cabo-verdianos, e tal como nas suas ilhas no meio
do Atlântico, são as mulheres e crianças que para abasteceram de água os
seus lares, têm que se deslocar a pé durante cerca de 2 kms até ao centro da
Costa da Caparica, para encherem de água no chafariz, os seus garrafões de
água que são depois transportados á cabeça ou em carrinhos de mão.
EDIÇAO NºXV , 5ª SEMANA, 5º NUMERO DE MARÇO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade
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