EDIÇAO Nº VIII
2ª SEMANA, 2º NUMERO DE FEVEREIRO DE 2009
Calor Abaixo de Zero

Crónica de Zé Albano
Neste meu mirante, olhando sobre as histórias da minha vida, vou recuar aos primeiros dias do mês de Janeiro de 1981.
Na qualidade de instrutor, estava com um grupo de seis agentes da minha força policial em Coruche no Ribatejo, onde faziam o estágio da parte final do seu curso de formação, e, que acabaria em vinte do mesmo mês e ano. No dia dois à noite, houve um ligeiro beberete por eu ser aniversariante, fazia trinta anos, por sinal começou aí a melhor década da minha vida, porque quando se chega aos «entas», quer se queira quer não a pujança começa a fraquejar e numa aceleração constante à medida que o tempo avança.
Depois de se cantarem os parabéns, de se brindar, do vai acima vai abaixo, volta acima e bota abaixo, o comandante de posto, que estava entre nós pediu-me para o acompanhar ao seu gabinete. Previa eu que tivesse havido da minha parte ou de algum dos meus instruendos algum excesso, mas como não me tinha apercebido do que quer que fosse, limitei-me a fazer o que faz a grávida, basta esperar para se saber o resultado.
Dentro do gabinete, numa conversa dentro da maior cordialidade, o Primeiro
Teixeira, nome por que era conhecido, dento e fora da corporação, disse-me:
- Ferreira, eu sei que você tem um dom especial para lidar com ciganos. Já o
conheço, não é a primeira vez que por aqui passa, e, como tal, eu preciso da sua
colaboração.
Obviamente que não me ia esquivar fosse ao que fosse, limitei-me a afirmar:
-Meu Primeiro, disponha...
-Ferreira, está aqui um ofício que eu recebi da Câmara Municipal, em que
determina o levantamento de um acampamento de ciganos, que está há mais de uma
semana, ali num areal junto do rio Sorraia. Por isso eu quero que você amanhã
chegue lá com quatro homens meus e faça retirar os ciganos dali. A base legal
para esta diligência, é esta postura municipal.
A conversa continuou, falou-se um pouco da legitimidade da postura, pois tinha
já a data de 1947, acertaram-se os detalhes e para a parte final ficou a
marcação da hora a que a operação tinha início, onde eu solicitei a sua opinião,
uma vez que conhecia melhor o terreno e os nómadas do que eu, e, disse-me:
- Ferreira...em meu entender, a melhor hora é às oito da manhã. Os ciganos ainda
lá estão todos, torna-se mais fácil fazê-los sair. Mais tarde pode ser
complicado, pois se só lá estiverem as mulheres e os garotos, já não pode
efectuar o serviço.
- Com certeza! Respondi eu. Ficámos por ali, e despedimo-nos. No dia seguinte às sete horas e cinquenta e cinco minutos, entro no areal do acampamento juntamente com os quatro homens, devidamente equipados, os cinco claro! Tendo como transporte um velho Land Rover. Uma geada polar cobria toda aquela região, a temperatura segundo os meus cálculos não andaria muito distante dos dois graus negativos. Embora agasalhados todos tremíamos com o frio, sentados numa viatura sem aquecimento.
A medida que nos aproximávamos do acampamento melhor víamos a situação. Jactos de fumo branco saíam das narinas das bestas que ali estavam presas, o ar expirado turvava em contacto com o frio, e, rolando lentamente, bem perto da tenda víamos no seu interior através de um plástico transparente, que servia de toldo, umas nádegas em movimento constante em vaivém vertical. Todos sabíamos o que estava a acontecer, eu ordenei que houvesse silêncio, porque aquela tarefa não podia durar horas, tendo ali posto em prática dois princípios meus. Um deles, o mais pessoal, nestas circunstâncias nunca empato seja quem for. O outro mais moralista, ver não é pecado. Só se está contra a lei de Deus se espreitar.
O que estávamos a ver acabou, no melhor penso eu, e, já depois de o corpo estar
debaixo das mantas, eu saí e puxei pela voz:
- Pessoal! Vamos levantar.. são oito horas toda a gente a pé!
Em poucas fracções de segundo, o cigano que acabara de sair do coito, levanta o
plástico, com a cabeça junto ao solo, um tanto espantado, limitou-se a
balbuciar: - Es...espe...ére...!
Gerou-se um grande movimento dentro da tenda e talvez uns cinco minutos depois, já tudo estava em movimento. O patriarca do acampamento vem do lado oposto da tenda dirigiu-se a mim, respeitosamente e perguntou-me o que se estava a passar. Comuniquei-lhe tim-tim por tim-tim, o objectivo que me levou ali. Com alguns queixumes acabou por acatar a ordem.
Começam a aparelhar os burros a carregar as carroças e meia hora depois estavam de abalada, para bivacarem noutro local, certamente não muito longe dali. Durante a meia hora, houve conversa entre mim e os ciganos bastante cordial. Fiquei ali a saber que dentro da tenda, não era tudo ao monte. A sua bagagem malas, sacos e outra bagagem, que formam a tralha, como eles dizem, é disposta em duas diagonais de modo a haver uma certa privacidade entre eles, porque deitados nas camas, entre a tralha e os toldos laterais, não se vêem uns aos outros.
O cigano que tinha cumprido o seu dever de marido, sentia-se um pouco
envergonhado, talvez se julgasse na pele de quem cometeu um crime. Pouco falou,
só dei conta que apressadamente disse à mulher: - Trata da canalha...!
O patriarca, bastante conversador, também se apercebeu do que tinha acontecido
na tenda à nossa chegada. Penso eu que terá ouvido algo próprio daqueles
momentos, e, que também estaria ciente de que nós teríamos dado conta.
Já na ponta final, como que em jeito de desculpa, o ancião fez-me esta pergunta:
- O senhor empregado sabe porque é que os ciganos fazem muitos filhos?
- Sei! Porque são fáceis de fazer...!
Sem deixar interromper a minha conversa baseei-me, numa publicidade muito
badalada naquele tempo, em matéria de sanidade, que era o planeamento familiar,
e, fui acrescentando: - De hoje em dia o problema é evitá-los. O senhor já ouviu
falar no planeamento familiar?
- Não senhor empregado! Não sei o que isso é. Mas deve ser só para quem não tem que fazer, que o cigano não tem tempo para essas coisas. A conversa ia a ficar por ali, mas eu não deixei e questionei: - Mas diga lá a sua versão! Ainda me não disse porque é que os ciganos têm muitos filhos?
- Então senhor empregado...! Já viu o que é dormir na rua com um frio destes!
Evidentemente que me ri, e concluí que era o modo mais económico para ter
aquecimento numa tenda a temperaturas negativas.
Jogo de Aniversário

Crónica
Antônio Carlos Affonso dos Santos - ACAS
Tarde de sábado. A casa do «técnico» João Domingos fervilhava de gente. O
Bastião Goiaba, goleiro dos bons; o Ném, o Homero, filho do Jucão; o Batista e
seu irmão João Paulo; o Mané Barrinha, o melhor de todos; eu, meu irmão Nelson;
o Efigênio, o espanholzinho Pila e o italianinho Beppo. Ainda estavam lá o Dito
do Retiro, o Chiquinho Bérgamo, o Valdemar, filho do Oliveira e os irmãos Heitor
e Rubens, filhos do Anésio barbeiro, além do Zé Delfino. O João Domingos havia
acabado de chegar do eito do café, acompanhado do Darcy e do Eguimar. Ele sorriu
bondosamente para todos nós que, impacientemente aguardávamos a notícia mais
importante: - quem seria nosso adversário no jogo de futebol no dia seguinte?.
O João Domingos tirou a camisa. Do rosto escorriam gotas de suor, as quais ele
secava com a camisa suada e suja da terra roxa. A sua carapinha estava coberta
de pó, e até com algumas folhas e pequenos gravetos e formigas.
A Manega colocou uma cadeira no quintal, em volta da qual todo o nosso time de meninos se acomodou o melhor que pôde. Pouco depois, a Manega volta com uma bacia de alumínio, na qual cabiam pelo menos trinta litros de água; a seguir veio com um balde enorme cheio com água fervente. O João Domingos então se aproximou, tendo nas mãos, envolto em palha de milho, um sabão de cinzas, feito por ele próprio.
Enquanto falava com a molecada, ele tomava seu banho de meio-corpo, como se
dizia, banho que era muito comum nos imigrantes italianos que moravam na
fazenda. Ensaboou-se todo da cintura para cima e enxaguou-se como pode, até que
a Manega chegou com uma panela de água fumegante e despejou cuidadosamente sobre
sua cabeça e as costas, findo o qual, passou-lhe uma toalha branca, feita de
sacaria de farinha, cujas extremidades eram desfiadas e trançadas com maestria
pela Manega. - E os meninos esperando a notícia:
- Onde é o jogo, seu João?, perguntei, ansioso.
- E, onde é o jogo?, perguntaram vários outros.
- Calma, meninos. Eu não arranjei só um jogo pra vocês. Eu arranjei um jogo e
uma festa.
- Onde?, perguntei eu.
- Onde?, perguntaram todos.
- O jogo vai ser na Fazenda São Luiz, contra os meninos da colônia, reforçado
com os filhos dos patrões e do administrador. Os filhos dos patrões são de São
Paulo e, dizem, jogam muita bola. Nós vamos sair daqui de casa às sete da manhã.
Daqui até lá são vinte quilômetros e, portanto, devemos chegar às dez.
O jogo
está marcado para as onze horas, e todos devem estar de chuteiras ou de botina.
Depois do jogo vai haver uma missa e será servido um churrasco para todos. Vocês
estão proibidos de beber pinga, entenderam?. Podem beber gasosa, capilé,
chocolate, ou guaraná, se eles oferecerem. Estamos entendidos?.
No dia seguinte, às dez da manhã, nós estávamos na sede da Fazenda São Luiz.
Estávamos um pouco cansados, é verdade, pois a caminhada era dura. No trajeto
tínhamos que subir e descer dois espigões; um deles, o da Fazenda Santa Iria,
era muito íngreme e cheio de pedras. Era tão difícil, que o Simão Bilu, o
africano, que nos acompanhava, teve uma vertigem no meio do carreador de café e
tivemos que jogar água do coróte na cabeça dele. O Simão Bilu era um velho muito
bonzinho e que exceto quando trabalhava no eito, não se separava do pandeiro
africano (um pandeiro feito com couro de bode, com um metro de diâmetro). Por
sorte, o Dito do Retiro estava à cavalo e colocou o Simão Bilu na garupa e foram
«na frente»; o Simão Bilu agarrado na cintura do Dito com uma mão; na outra o
pandeiro.
Nós ali, na sede da Fazenda São Luiz, meio sem saber o quê fazer. O João
Domingos foi «ver» uma merenda para nós; enquanto isso, o Dito do Retiro disse
que o Simão Bilu não estava doente não; só estava bêbado, e que deram café sem
açúcar para ele e que ele agora estava bom e que estava tocando pandeiro com um
sanfoneiro no depósito da sacaria da máquina de café, ao lado da tulha.
Todos nós fizemos menção de irmos até lá, mas o João Domingos entrou anunciando
para irmos até a sacristia da capela para tomarmos nosso café. Estava uma
maravilha, bolo de milho, curau e pamonha, mandioca cozida na manteiga, bolo de
fubá, broa, pau-a-pique, mané - pelado, doce de abóbora e de pau de mamão. Tinha
também chocolate, leite, café e uma jarra de anisete, que o João Domingos não
nos deixou chegar nem perto (era feita de pinga).
O time da São Luiz tinha uniforme completo, que estavam estreando naquele dia. O
goleiro deles, filho dos patrões estava usando tornozeleiras, joelheiras,
munhequeiras e luvas; o que nos fez rir muito.
Enquanto o time de São Luiz desfilava no terreirão de secar café, que era o
campo de jogo, nós um pouco envergonhados com nossas camisas desbotadas, que
foram cedidas pelo time da Fazenda Estrela D’Oeste, onde o João Domingos era
massagista. O time deles, todinho, de chuteiras argentinas, novas; do nosso, só
três tinham chuteiras, de marca barbante, sete estavam de botina e o Nêm, nosso
zagueiro, descalço!.
Começa o jogo, toquei a bola para o Nelson, que recuou para o João Paulo, que
driblou cinco jogadores da São Luiz e tocou para o Mané Barrinha, que, de voleio,
meteu nas redes. E assim foi o jogo todo. Ganhamos de doze a um. O gol deles foi
de pênalti, porque o Ném deu uma bica no pé do Lucianinho, filho do
administrador, em que quase quebrou o pé dele (do Lucianinho). O resto do jogo,
os meninos da São Luiz chutaram o pé e a canela do Ném (que não sentiu nada).
Foram tantas faltas que, o juiz, também filho dos patrões, acabou o jogo antes
da hora. Quando terminou o jogo, os filhos dos patrões da São Luiz nos convidou
para nadarmos na piscina deles, enquanto os adultos foram à missa.
Foi uma
festa, nenhum de nós havíamos nadado em piscina, em toda a vida. Depois, cada um
ganhou um bombom «Sonho de Valsa» e fomos participar do churrasco, que era
animado por um sanfoneiro e pelo Simão Bilu. Achamos incrível aquele Simão Bilu,
que, a cada intervalo se abaixava e pegava a garrafa de pinga e dava um gole. Ao
final, estávamos confraternizando com todos. Só então o dono da fazenda anunciou
que a festa era em razão do aniversário do seu filho, que pediu para jogar num
time de verdade:
- Meu filho pensava que era bom goleiro, mas levou doze gols. Mesmo assim ele
está contente, eu também estou contente. Depois que comerem, o chofer da fazenda
vai levar esses meninos bons de bola, até a Fazenda São José. Bom divertimento a
todos.
Quando o caminhão da fazenda São Luiz, levando nosso time foi embora lentamente.
Nós todos, com muita emoção íamos sem desgrudar os olhos daquela festa. Do alto
do espigão ainda podíamos ver e ouvir o alarido, a música, os fogos.
Sentíamo-nos satisfeitos conosco mesmos, e com uma ponta de orgulho, por termos
sido escolhidos para participar da festa de um garoto tão bacana.
O caminhão
cortava veredas, sendas, palhadas e carreadores. De repente, o Simão Bilu, que
estava totalmente bêbado, deitado no fundo da carroçaria do caminhão,
levantou-se, pegou o pandeiro africano, tocou e cantou, feliz como nunca:
- Marim-Bajé, Iré-Xiré, Balafonjá, Orim-Axé, Meu Pai Oxalá, El Rei, venha me
valer, Saravá Ogum....