EDIÇAO Nº IX

3ª SEMANA, 3º NUMERO  DE FEVEREIRO DE 2009

Armando Sousa

Ladrão de beijos



Setenta e cinco anos de idade
Mais de meio século, beijos a roubar
Roubei beijos sem vontade
Mas o amor fazia amar.

Moças a quem roubei beijos
Via suas faces corar
Eram maiores os desejos
Em meus braços a apertar.

Roubei beijos a esposa meu amor
Ela beijos me roubou
Para mim mais bela flor
Que no altar me desposou.

Deu-me tantos botões, eu os via florir
Eu roubava tantos beijos
Eles se mijavam a rir
Se passaram tantos anos.

Beijos roubados destino de meu viver
Alegrias e desenganos
Dei meus beijos com prazer
Roubei beijos a esposa.

A meus filhos roubei beijos muitos anos
Também roubei aos netinhos
Também lhes mudei os panos
Me cobrem de amor e carinhos.

Filhos e netos me podem chamar
De beijos grande ladrão
Mais foi só por a todos amar
Com a força de meu coração.


(Armando Sousa - Canadá)

 

João Furtado

O amor e o sofrimento actual

Dispa-me de toda a dignidade
Espezinhe e maltrate
Faça-me passar fome
E de sede morrer
Não fome de comida ou sede de agua
Mas de amor desejado
Não me ligue e esqueça que eu existo
Se ainda este amor ficar
Deixe que seja eu o verme
E correr e ficar por baixo
Dos teus saltos
E ser esmagado
Não importe que ande rasgado
E viva nu, totalmente nu
Não das roupas
Que em qualquer canto se pode comprar
Ou mesmo desviar
Mas nu de todo o pudor
E respeito por mim próprio
Deixe que seja nada
Que seja ninguém
E se tu ou mesmo alguém
Alguma compaixão de mim tiver
Que me ofenda e me chame de nomes
Me coloque a distancia
Para que se não por vergonha
Migalhas de teu amor ainda desejar
Por medo e cobardia sofrer calado
E de novo repito
Deixe que cada «ring»
Do telefone importuno
Me faça lembrar que existes
E cada vez que o atender
Voz desconhecida ouvir
E sentir humilhado
Por em ti pensar!

João Furtado (Cabo Verde)

 

A voz do amor

Maria Petronilho

A voz do amor solta se ergue
o meu sonho te procura e segue
certo no tempo incerto
incessantemente ao teu encontro


volta vazio do teu olhar
saudoso do teu sorriso
do teu cheiro no meu cabelo solto
derramado no teu peito
Ah, como é inevitável seguir este fio!
como todos os caminhos da ternura
vão do meu para o teu coração!


nos meus ouvidos enlevados repete-se a tua voz
mas todos os meus poros anseiam pelos teus dedos
e a minha boca perdeu o dom de sorrir,
pela tua inquieta...


Maria Petronilho (Lisboa)

 

Era Julho...

José Geraldo Martinez

Na poesia mais linda que fiz,
Coloquei lembranças
Do amor que tínhamos, aprendiz,
Em nossos corações quase crianças!

Na poesia mais linda que fiz,
Lembrei-me de nossos juramentos...
Corações cravados nos arvoredos,
Resistindo bravamente ao tempo!

Das tuas tranças...
Teu peito arfante !
O primeiro beijo que o chão levou ao céu,
E o céu à terra ao mesmo instante...

Na poesia mais linda que fiz, lembrei-me
De nossas primaveras,
Onde as flores cobriam os jardins.
No esconde-esconde, tu a correres,
Dentre elas procurando por mim!

Das vezes que viajavas...
Quanta saudade eu sentia!
Século a parecer que demoravas,
Até que de repente, aparecias...

...E corrias me abraçar!
Inocentes almas apaixonadas...
Em nossos quinze anos tão precoces,
Vidas enfim, cedo, separadas!

Na poesia mais triste que fiz,
Lembrei-me desse dia infeliz,
Quando de mim te despedias
Com duas lágrimas frias...

Era julho...
A névoa cobria os caminhos!
Eu tentava ainda ter orgulho
E chorei baixinho...

Entre os pés de primavera eu te espiava,
Com a dor maior que um menino podia ter!
Era julho . Meu olhar te seguiu pela estrada,
Até que não mais podia te ver!

Não veria teus quinze anos...
A valsa que prometemos dançar!
Estão na poesia mais triste que fiz,
Saíam rimas que parecem sem par...

Na época? Pobre de mim!
Versos inocentes ...
Besteiras!
Coração flechado e pronto!
Num tronco solitário de mangueira...

Hoje? Mês de Julho...
Escrevi a poesia mais triste que fiz!
Razurados pingos de minha lágrimas,
Num papel, sem orgulho...
Com saudade de ti, de mim, de tudo!

José Geraldo Martinez (Araçatuba, São Paulo)

 

Rainha do Cerrado

Sandra Fayad

Sou árvore de raiz profunda.
- Primogênita da valentia.
Meus galhos finos contorcidos
Enfrentam ventos com galhardia.

Sou rainha gerada no cerrado.
- Nascida na seca do inverno,
Crescida no aguaceiro do verão
Sem apelar ao Padre Eterno.

Vem ser meu ipê da primavera,
A pintar de roxo, rosa e amarelo,
Esse amor que já foi quimera.

Acredita na paixão que te revelo.
Liberta-me da maldita espera
E acorrenta-me a ti, elo por elo.

(Soneto inédito, inspirado nos Ipês do Planalto Central do Brasil)


Sandra Fayad (Brasília)

 

Arlete Piedade

Nossa Valsa



Contigo quero dançar,
pelo salão rodopiar,
ainda que vacilante...
a idade vai importar?
Se ainda queremos amar
e dar passos adiante...

na valsa já enlaçados,
queremos ser namorados,
e o coração, acelerar...
pois somos apaixonados,
cabelos esbranquiçados,
mas quem vai-nos olhar?

Somos apenas um casal,
em tudo o mais normal,
que dança pelo salão...
será que tem algum mal,
na nossa idade, afinal
ainda sentirmos paixão?

E depois do baile findar,
para o ninho vamos voltar,
carinhosamente abraçados...
a sós, vamos - nos beijar,
do nosso amor, desfrutar,
esquecer erros passados!

Arlete Piedade (Santarém)

 

Este Jornal resulta de colaborações espontâneas sendo propriedade dos seus autores os créditos que delas advenham assim como a responsabilidade pelo conteúdo das mesmas. br /> Direcção interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.




 
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