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EDIÇAO Nº X

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4ª SEMANA, 4º NUMERO  DE FEVEREIRO DE 2009

Piracicaba realiza a maior «Paixão de Cristo»

Em 2009, pelo vigéssimo ano consecutivo, entre os dias 5 e 12 de abril, ou seja, durante a Semana Santa, a Associação Cultural e Teatral Guarantã realiza o espetáculo «Paixão de Cristo de Piracicaba», apresentação teatral que se concentra na epopéia bíblica e narra os últimos dias de Jesus Cristo na Terra, numa encenação com cerca de uma hora e meia de duração.

No dia 25 de janeiro foram divulgados os atores contemplados com papéis na encenação. Para o papel principal, de Jesus Cristo, foi escolhido o ator paulista Richard Tavares, de 30 anos, residente em Piracicaba há três.

Todos os atores selecionados foram avaliados durante as oficinas promovidas pelo Grupo, que vêm sendo realizadas há dois meses com a supervisão de três renomados profissionais das áreas de dança, musical e cênica.

De acordo com a diretora da peça, Rosana Baptistella, o convite especial para o dançarino Daniel Costa foi um ato específico. «Nós precisávamos de um ator mais novo para interpretar o papel de um <Jesus> mais novo, numa nova cena que estamos incluindo no espetáculo, e não encontramos isso nos selecionáveis. Porém, todos os demais foram escolhidos por meio de critérios técnicos», explicou.

Durante três semanas têm lugar os ensaios com os atores que possuem falas. No dia 1ª de março começam os ensaios gerais no Engenho Central. Como o espetáculo conta com a participação de mais de 500 pessoas, entre atores e figurantes, esta é uma das maiores montagens cênicas do país.A Paixão de Cristo de Piracicaba já é reconhecida, pela crítica especializada, como um dos melhores espetáculos do gênero em todo o país.

A história transcorre em cenas simultâneas e a montagem acontece num espaço de cerca de oito mil metros quadrados, projetado para permitir uma completa visibilidade das cenas, tudo a céu aberto.

No decorrer da apresentação o espectador sente-se envolvido pelo clima do espetáculo, num realismo obtido graças aos inúmeros efeitos cênicos e técnicos. Os palcos que compõe toda a estrutura lembram uma verdadeira cidade cenográfica. Já os recursos utilizados, tais como carruagens, bigas, cavalos, soldados e artistas circenses, remetem o espectador à própria época.


No local haverá praça de alimentação, equipe de segurança, estacionamento e serviço médico de emergência. A realização é da Associação Cultural e Teatral Guarantã e da Prefeitura Municipal de Piracicaba, por meio da Secretaria de Ação Cultural.

 

Este Jornal resulta de colaborações espontâneas sendo propriedade dos seus autores os créditos que delas advenham assim como a responsabilidade pelo conteúdo das mesmas. Direcção interina de Daniel Teixeira



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Poesia Caipira


     
      Antônio Carlos Affonso dos Santos.

                        ACAS, o Caipira Urbano.

Matutano


Ah, muié! Nóis tinha tanto amô

E fumo brigá desse jeito!

Acabamo por separá!!!

-O que foi que desandô?

Ocê num mi qué mais;

Si ocê num me qué,

Eu tamén num quero!

Tudo si acabô, sim sinhô



E foi anssim que aconteceu;

Agora samo moderno

Nóis vai fazê de conta

Que samo gente da cidade

Nóis fiquemo anssim mudo

As criança óia pra nóis

I num intendi nada

Mai nóis intendi tudo

Nóis que prometemo

Ficá dijunto inté a morte

Si separamo:

Ocê foi lá pro sur,

E eu fui pro norte!

As criança ficô co´a vó

Nóis achava que anssim é mió

Jurei préla que num quero

Vê ela, ném prum espêio

Ela disse que eu tamém

«Vô ficá pra escanteio»

Eu disse que ela é gorda

Ela disse que eu sô feio

Eu disse intão préla sumí

Que o Brasir é grande demais

Ela disse que nem por dinhêro

Si dispunha a vortá atrais

Ela deu um saluço

E eu maomeno tamén

Deitei cabelo na estrada

Ela pegô um trem....



Mai, onti nóis se encontremo

Lá drento da sacristia

Na igreja de São José

I aos pé da Virge Maria

Ela é muié de respeito

Eu sô home de muita fé

Lá nóis se viu e choremo

Na frente do Deus menino

Se beijemo, tocô o sino

Prumeno acho que tocô



Ela tremia até as perna

Fui pra riba dela cum fogo

Fogo que num se acabô

Demo tanto bêjo gostoso

Bêjo cheio de amô

Ela me deu um abraço

Pertado; quase caí....

Nóis falemo das criança:

-Nóis qué elas dijuntinho

Não lá na casa da vó

Mais lá, no nosso ranchinho.

Eu disse préla : o Brasir é grande

Mais, maió é nosso amo!

I ela me disse chorano:

O Brasir póde sê grande

Mais nóis ele num separô

Nóis samo um casár de bobo:

Queremo é casá de novo

Cum fé em Deus, e paiz na guia

Vortemo a sê namorado

Aos pé da Virgem Maria

Prometemo a São José

O protetô das famía

-Nóis prefere inté morrê

Do que se apartá um dia.



Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS

 



         
O perfume dela


               
                         
                         Por: Cecílio Elias Netto

(Por especial gentileza do autor)


Para Hobsbawm, são tempos interessantes. Vivo estivesse, Jorge Amado diria serem ásperos, ásperos tempos. Talvez, sejam interessantes e ásperos, nossos tempos. Mas, também, vulgares. E não estaria, talvez, na vulgaridade, a marca principal dessa época mais difusa do que confusa?

Fala-se em violência como se as pessoas, individualmente, nada tivessem a ver com ela. É a noção difusa das coisas, dos acontecimentos. Tudo ocorre como se ninguém fosse responsável. Agressões, farsas, espertezas, crueldades, individualismo, a feiúra de atos, de gestos, de atitudes – é como se essa confusão pertencesse a um mundo apenas exterior. Por estar difusa, não conseguimos vê-la em cada um de nós: eu, tu, ele, nós somos violentos. Ou estamos.

No entanto, há ansiedades positivas, ainda que difusas: a carência e, também, como que uma nostalgia do belo. O belo é bom. Ou, pelo menos, não faz mal. E isso está na alma humana, que foi tecida para viver no Eden. Outro dia, vi uma criança deslumbrar-se com o belo num momento de irritação. Ela exasperava-se com o choro do irmão, bebezinho ainda no berço. Enraivecido, passou a gritar.

Sugeri-lhe, então, que, para o bebê chorão, tentasse uma cantiga de ninar, o «nana nenê, que a cuca vem pegar», por que não? Tímido, ele cantarolou e viu, devagarinho, o irmãozinho deixar de chorar. O belo causara efeito. A delicadeza. A cordialidade. O menino cantador se encantou.

Confesso não saber, hoje, quem se tornou mais grosseiro e agressivo, se homem, se mulher, se ambos na mesma dimensão. Por ser algo novo, porém, é a grosseria feminina que mostra nuanças penso que alarmantes. Não fazem parte da natureza feminina a agressão, a brutalidade, quase que atributos do masculino, guerreiro e caçador. A força e o poder da mulher estão em sua feminilidade. E ser feminina nunca significou ser fraca, submissa ou ausente. O feminino encanta o mundo. Logo, sem o encanto da feminilidade, o mundo se faz desencantado.

Há poucos anos, escrevi sobre Augusta Maygton, Augusta Maygton de Azevedo Ribeiro, dona Augusta, a Augusta do Vosso Pão. Ora, sempre soubemos da personalidade fascinante, da exuberância de uma mulher polêmica mas vencedora, ao mesmo tempo feminina – de uma sensualidade natural e irresistível – e forte. A beleza e a elegância de Augusta faziam parte da sua personalidade lendária. Era impossível não ser imantado, seduzido por ela.

Eu sabia disso. Mas não imaginei fosse ainda mais poderosa a presença dessa mulher, as marcas que deixou, as impressões que causou. Tantos foram telefonemas e e-mails carregados de carinho e saudade que entendi: a mulher lendária tornara-se mito.

À época, transcrevi um e-mail – autorizado pela autora – que ainda me parece simbólico desse magnetismo que Augusta legou aos piracicabanos:

«Eu, pequenina e humilde, acompanhava minha mãe até o Vosso Pão. Mas o que me fascinava não era o pão ou os doces, era Dona Augusta. Eu ficava extasiada olhando para aquela mulher: o porte, a segurança, a pele, tailleur de linho bem amassado, geralmente branco. Mas o que marcou foi o perfume, ficava no ar aquele aroma delicioso. Levei anos até encontrá-lo e ter condições de comprá-lo: «Muguet du bonheur», de Caron. Quando o meu marido foi para a França, a única coisa que pedi foi esse perfume.»

Quando nem o tempo desfaz um perfume de mulher, mais do que o perfume o que existiu foi a mulher. A feminilidade de Augusta é uma ausência significativa destes tempos interessantes, mas ásperos e vulgares.

Bom dia.

Pode comentar este texto carregando no seguinte link da Província de Piracicaba: Comentário.


Cecílio Elias Netto é fundador do Jornal A PROVINCIA

A PROVINCIA, como jornal impresso, foi fundada em 28 de Agosto de 1987, pelos jornalistas Cecílio Elias Netto e Gustavo Jacques Dias Alvim. Durante duas décadas, com idas e vindas, ela cumpriu o seu propósito e o sonho desenvolvido: recuperar a memória de Piracicaba, especialmente através da oralidade de seus mais antigos moradores, contar a história do município e da região, com fartura de documentos e de fotos e postais. O lema continuou vivo quando, há cerca de dois anos, A PROVINCIA ingressou no universo digital, criando A PROVINCIA electrónica, com o mesmo objectivo e a mesma motivação: «Paixão por Piracicaba». Piracicaba é um município do estado de São Paulo. Sua população estimada em 2008 era de 365.440 habitantes.