EDIÇAO NºXVIII , IIIº NUMERO DE ABRIL DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Liliana Josué
FIGURAS POPULARES
CHIARETA - Personagem Trágica

I
No início do século passado, em muitas localidades catarinenses havia aldeias
indígenas em plena mata.
Alguns colonizadores, muitas vezes ao embrenharem-se na selva, encontravam-se
com os índios e os atacavam violentamente, provocando verdadeiras chacinas. Em
contrapartida, os indígenas esperavam a ocasião propícia para revidarem com a
mesma violência.
II
Chiareta, era uma senhora conhecida por todos na região. Em determinadas épocas,
saia a perambular pelas estradas, com um saco às costas, e a falar sozinha com
seus personagens imaginários.
Muitos, principalmente as crianças, temiam-na, porque ela andava o dia todo em
círculo vicioso. Ela ouvia vozes, discutia em italiano com vultos ocultos que
lhe pareciam estar dentro das moitas, pastos e matas.
III
Certa ocasião, aproveitando-se os índios da ausência do chefe da família, um grupo de mais de cinqüenta botocudos, na divisa entre Guaricanas e Apiúna, atacaram a casa, mataram a mãe de Chiareta, aos trinta e seis anos de idade, e duas filhas, com dez e doze anos respectivamente. Dois filhos pequenos, de seis e três anos de idade, escaparam da morte escondendo-se dentro de um bueiro.
IV
No mesmo dia, no mesmo lugar, os índios atacaram outra família, com flexas e
gritos de guerra. Dois filhos tentaram fugir, porém o pai não deixou, e usando
uma espingarda calibre 16, que era carregada pelos dois rapazes, trocou tiros
com flexadas, caindo morto um índio. Seus companheiros carregaram o cadáver aos
ombros, desistindo da luta.
Ao se afastarem, admirou-se este chefe de família ao ouvir falar por um deles,
em português, esta frase: - «Essa vocês me pagam»!
Descobriu-se, depois, que quando os índios foram aldeados em José Boiteaux, que
lá se encontrava o autor da ameaça. Era conhecido pela alcunha de «João
Trovoada». Confessou que ajudou a atacar as duas casas. Não era índio.
V
Chiareta, na tenra idade de seis anos presenciou cenas de grande violência.
Estas fortes impressões abalaram-lhe o juízo, manifestando desde então, sintomas
de loucura.
Casou-se aos vinte anos e teve filhos. Sempre vacilante e um pouco transtornada,
mesmo assim trabalhava com eficiência em sua própria casa. Outra desventura
contudo, penetrou em seu humilde lar, o marido estrupou a própria filha.
Abatida com o relato, foi possuída de sintomas agudos de loucura. Quando sua demência não era tão pronunciada, voltava para casa e cuidava dos filhos. Os vizinhos ajudavam-na.
Algumas vezes saía sem rumo, levando consigo os filhos. Estes freqüentavam a escola, com dificuldades. Não obstante sua debilidade mental, tinha um instinto maternal extraordinário, dispensava aos filhos os maiores cuidados.
Lúcida ou não, era de grande retidão moral. Se as galinhas dos vizinhos botavam ovos em seu terreiro, prontamente devolvia-os.
Tinha os maiores cuidados com sua limpeza corporal. Quando chegava a alguma casa, e vendo que não havia asseio, perguntava se não tinha areia ou cinza e ia limpando tudo. As panelas ficavam brilhantes.
Em idade avançada, vivia com uma filha, acariciando os netinhos, mas sempre com a aparência de doente.
VI
Como Dom Quixote, Chiareta saía de seu pequeno mundo. O personagem de Cervantes
nos seus delírios lutava contra os moinhos de vento, vendo-os como gigantes
cruéis.
Chiareta lutava contra um mundo distorcido dentro de sua alma, de sua mente,
muito mais cruéis os fantasmas, e maiores que os moinhos de vento.
Em sua imaginação via os monstros por onde andava. Os monstros que assolaram
violentamente sua vida, desde a inocente idade de seis anos.
Arlete Deretti Fernandes
O Mandarim de Eça de Queirós
Sob a visão do Orientalismo.
Por:
Arlete Brasil Deretti Fernandes
Este estudo tem como objetivo, uma leitura da novela O mandarim, de Eça Queirós,
sob o ponto de vista do orientalismo, corpo de conhecimentos acerca do Oriente
desenvolvidos pelo e para o Ocidente, apresentado por Edward W. Said em
«Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente.»
A novela apresenta Teodoro, um lisboeta típico, de «existência bem equilibrada e
suave», que tem a oportunidade de enriquecer com a simples eliminação de um
mandarim através de um toque de sineta.
Teodoro aceita a oferta, provavelmente feita pelo Diabo, e passa a desfrutar das riquezas herdadas do mandarim até que a figura deste passa a persegui-lo.
Após tentativas várias e fracassadas de se livrar do fantasma do chinês, ele decide que o meio de fazê-lo é viajando ao Oriente e dividindo sua fortuna com os órfãos do falecido mandarim.
Sua
estadia na China compreende dois momentos, um de tranqüilidade e desfrute das
«maravilhas» chinesas, no qual até «se transforma» em chinês, e outro no qual se
depara com a miséria e a violência da população chinesa, à qual ele pretendia
beneficiar.
Sua empreitada não obtém sucesso e Teodoro volta a Lisboa, onde acaba tendo que
se conformar em conviver com a figura do «bojudo» mandarim.
Do ponto de vista do orientalismo, a aventura de Teodoro na China pode ser
considerada uma empreitada colonial que é mal sucedida em função da falta de um
elemento indispensável para a conquista do Oriente que é o conhecimento, ainda
que produzido pelo Ocidente, acerca desse Oriente.
(Fazer o download do trabalho completo de Arlete Deretti em formato word aqui)
(Pode baixar todo este volume «O Mandarim» em formato pdf no seguinte endereço: ou directamente (download imediato -330 kbs ) aqui.
Três Momentos de Natureza Morta
Liliana Josué
Empregada Doméstica
Maria, moça pequena e pernas roliças
Avança decidida p’lo amplo mercado.
Apalpa maçãs, tomates; escolhe hortaliças
De semblante muito entendido e concentrado.
Sem mais nem porquê surge-lhe a lembrança clara
Do estúpido quadro na casa dos patrões:
Que coisa tão sem graça e mesmo assim tão cara...
Natureza Morta... ali, tudo aos trambolhões!
Um Casal Feliz
Certo casal mudo, quedo e talvez feliz
Coabita numa casa muito arranjadinha.
Ela, à noite, vê Morangos com Anis
Ele, lê o jornal encostado à almofadinha.
Ensonados e cada um no seu pijama
vão p’ro branco quarto. Ela boceja, ele arrota
E adormecem, pois p’ra mais nada serve a cama.
Quadro perfeito duma Natureza Morta.
Futebol na TV
Entram todos muito apressados no café
O grande desafio já tinha começado
Exaltado alguém berra: - Belo pontapé
Até o apresentador grita desgrenhado.
A casca do tremoço o chão do café criva
A cerveja nos copos espumosa exorta.
Imagem ilusória de Natureza Viva
Quadro bem concreto de Natureza Morta.
(Poema temático para Antologia da Tertúlia Mensagem - Do Sonho Se Fez a
Palavra)
Asa de Lua
Maria Petronilho
Que essa asa de lua
Que me saúda e que passa
Para se encontrar com a tua
Na manhã que recomeça
Nos traga da paz a esperança
Leve longe a ameaça
Que sobre todos nós paira
Que Deus ilumine os sonhos
Dos Senhores da Desgraça
Ilumine as suas almas
Como essa asa de lua
Que no céu divino passa
Lhes traga de novo ao peito
Seus corações de criança.