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EDIÇAO NºXVIII , IIIº NUMERO  DE ABRIL DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Liliana Josué           



CANSADA DE VIVER

Sandra Fayad

 

 

Não tive o privilégio de ter um avô que me contasse estórias ou caminhasse de mãos dadas comigo pela rua.

Vovô Miguel, nem mesmo mamãe chegou a conhecer bem, foi morto a queima roupa na porta de casa, quando ela tinha apenas 6 anos de idade. Contam que o matador era seu compadre e que o motivo da tragédia foi uma intriga de terceiros. Por esta razão, entregou-se voluntariamente à Polícia, foi julgado e condenado, e passou o resto da vida de joelhos, pedindo perdão a Deus pelo que fez.

Vovô Abrahão morreu «caduco» aos 88 anos, quando eu tinha apenas quatro anos. Lembro-me que ele era magro e andava arrastando os pés pela casa, bastante curvado e apoiado em uma bengala. Às vezes gemia, outras resmungava, coitado!

Quase nenhuma lembrança me restou da minha avó materna, que contam ter sido uma mulher muito bonita e corajosa. Montava cavalo e portava um revólver calibre 32 no bolso da «combinação». Viajava em companhia de um «capanga» para ajudar a protegê-la das emboscadas e do assédio dos fazendeiros da Região. Morreu na fazenda, «ofendida» de cobra cascavel aos cinqüenta e dois anos.

Mamãe contava que eu era o xodó dela e que, aos dois anos de idade, acompanhei todo o sofrimento porque passou, enquanto o veneno circulava em seu sangue, sem que o socorro chegasse a tempo de salvá-la.

Restou-me apenas a Vovó Julieta, que morou longe durante toda a minha infância e adolescência. Além disso, já era completamente cega quando nasci. Depois de adulta e mãe, tive a oportunidade de conviver um pouquinho com ela. Visitei-a duas ou três vezes por mês durante os últimos dez anos de sua vida. Eu a encontrava quase sempre sentadinha na cadeira de balanço, com as mãos cruzadas sobre o colo, girando os dedos polegares um sobre o outro.

Às vezes caminhava até o banheiro ou o quarto, apalpando as paredes. Ouvia novelas de rádio e se emocionava com os dramas dos personagens. Quando eu chegava e a beijava, sentia um cheirinho tão gostoso e diferente, que acredito ser a marca de uma avó, que identificava sentimentos até pelo tom da voz.

Ao pedir-lhe a benção, ela costumava dar respostas assim:
- Deus te abençoe, minha filha. Hoje você está «tristinha».
ou
- Deus continue te abençoando. Hoje você está alegre.

E segurando as minhas mãos ou apalpando os meus braços, comentava:
-Você está ficando magrinha. Não tem comido direito?
ou
- Que bom! Agora engordou um pouquinho.

Depois contava histórias da sua infância na Síria e chorava de saudades dos pais e irmãos que lá ficaram.
Seu pai a dera em casamento aos 16 anos a um amigo de mais de 40, que a trouxe para o Brasil. Nunca mais pode voltar para ver seus familiares. Sentia saudades. Relacionava as datas de nascimento de todos: os da família, os dos amigos, dos filhos e netos dos amigos. Sabia todos de cor, inclusive os nomes e os fatos relacionados com o nascimento de cada um.

Um dia, fui visitá-la como de costume. Agora era ela quem estava tristonha.
Percebi que respondeu baixinho ao pedido de bênção, com os olhos marejados de lágrimas.
Perguntei:
- Vovó, o que aconteceu? A senhora está doente?
E ela respondeu:
- Não, filha. É que eu estou cansada. Cansada de viver...

E suspirou doído... A frase curta pegou-me de surpresa. Saí da visita, com um sentimento de tristeza enorme e fiquei horas pensando sobre o que ela disse. À noite, rezei por sua saúde.

Mas, alguns dias depois baixou ao hospital. Fizeram todos os exames. Os resultados davam conta de que tudo estava bem, exceto o fato de estar um pouco acima do peso, mas coração, pulmões, rins, fígado, enfim os órgãos vitais estavam em perfeito funcionamento.

Como ela não melhorava, começaram a medicá-la, depois a levaram para a UTI. Ficou lá doze dias, partindo voluntariamente desta vida.

Bienal do Livro do Rio de Janeiro

A programação cultural da 14ª Bienal Internacional do Livro do Rio, entre 10 e 20 de setembro no Riocentro, modificou-se nalguns aspectos para atender aos diferentes tipos de público, seja o mais sofisticado, das classes A e B, ou o mais popular, as classes C e D, que a cada edição tem ganhado maior presença no evento - em 2007 as classe C e D corresponderam a 39% dos visitantes.

Também temos uma segmentação mais clara, em gênero e em relação aos jovens. É muito bom ampliar o espectro do público - afirmou Roberto Feith, vice-presidente do Snel.

Dos espaços de debates que foram criados desde o início desta década, o único que se manterá é o Café Literário. Além deste, só haverá mais um para discussões, dedicado às mulheres e com entrada proibida para homens.

Este ano, o país homenageado são os EUA.

A programação cultural se tornou uma marca da Bienal do Rio. Este é um evento importante na cidade e precisávamos da renovação, para que o público não tenha a sensação de participar de algo que já viu - diz a presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), Sonia Machado Jardim, que trabalha pela primeira vez na organização do evento.

No espaço voltado para mulheres, os debates devem girar em torno de temas como dieta, relacionamento, educação, sem esquecer a literatura. Somente autores de best-seller, como Meg
Cabot, cuja vinda está confirmada, irão se apresentar em grandes auditórios.

Além disso, o diretor João Falcão foi contratado para coordenar o espaço Livro em Cena, para leitura dramatizada por atores conhecidos, também em auditórios, em que há capacidade para 500 pessoas. Nas últimas edições, a presença de celebridades foi chamariz de público.

O número de autores convidados e de eventos deve ser menor, mas o investimento não caiu, ao contrário: teve aumento real de 15%, e passou para R$ 1,6 milhão.

A maior fatia de investimento é para o espaço Floresta de Livros, voltado para crianças e jovens entre 7 e 13 anos, que recebeu R$ 500 mil e terá área de 400 metros quadrados.

O objetivo, segundo a organização, «é misturar informação e entretenimento de forma lúdica». O novo espaço atenderá o público de visitação escolar, 40% do total de 645 mil visitantes em 2007.

Não vemos motivo para crescer. Este é um bom tamanho para a Bienal - destacou Andreia Repsold, vice-presidente da Fagga Eventos, que promove a Bienal com o Snel.

A historiadora Rosa Maria Araújo, diretora do Museu de Imagem e do Som (MIS), que criou o Café Literário em 1999, não participará este ano. Em seu lugar, para coordenar o espaço, foi chamado o professor de literatura da Uerj �talo Moriconi.Os autores internacionais confirmados, além de Meg Cabot, são: Bernard Cornwell, David Grossman, David Wrobleski, Francie Prose e William P. Young.

Também haverá espaço para duas exposições: «Grande sertão: veredas», com curadoria de Bia Lessa, já exibida no MAM e, em São Paulo, no Museu da Língua Portuguesa, e «José Olympio - O Editor e sua casa», sobre a trajetória de um dos mais importantes editores de livros no Brasil no século XX, esta exibida no ano passado na Biblioteca Nacional.