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EDIÇAO NºXVIII , IIIº NUMERO  DE ABRIL DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Liliana Josué           

FARPAS DE SEMPRE

Por Mário Henrique Matta e Silva

Ruínas

Quem vê hoje, de fora, este nosso pequeno País, não mais se lembra (talvez para não se ser estupidamente acusado de saudosista) que ele, com os seus 848 quilómetros de Costa, se aventurou pelos grandes mares e espalhou Colónias pelos quatro Continentes!

Que glórias ficaram? Alguns afirmam que não muitas mas a História contará o que um País fez de mal e fez de bem. O que se destruiu e o que se construiu.

O que se deixou e o que se não deixou para os que vieram construir novos países e novos caminhos…

Mas as ruínas de um passado ainda latente e de uma alvorada ainda deslumbrante, encontrei-as nas páginas sábias e bem construídas de Miguel Sousa Tavares, no grande livro de viagens SUL.

«(…) O meu fascínio (pelas ruínas) consiste apenas em ver e imaginar. Não tento compreender e, menos ainda, julgar: sei que mataram, que estropiaram, que escravizaram, que maltrataram.

Sei que não há nada de grandioso ou de louvável em tantas dessas vidas sepultadas nos cemitérios do Império. Mas, todavia, não julgo.

Porque eles estão mortos e eu ainda vivo, sem dúvida. Mas também porque é uma insuportável arrogância moral julgar a História com a vantagem do tempo.

Limito-me assim a olhar os sinais da sua passagem, a imaginar o que de sonhos, ilusões e saudades incontáveis está sepultado nas ruínas das casas onde eles viveram, na cova que os seus passos marcaram na pedra das lajes, séculos a fio, no mesmo mar (será o mesmo?), nas mesmas estrelas, que tantos dias e tantas noites olharam, sem terem, como eu, um avião com dia e hora certos para os levar de volta a casa».

Tais afirmações do «nada de grandioso ou de louvável» valem o que valem, pois ele faz bem em remeter para o juízo histórico, logo, para os testemunhos que ficaram e para os investigadores que virão.

Este livro, que se tornou em mais um êxito de vendas, tem a virtude de ser agradável nas descrições e nos diálogos e de começar, em São Tomé e Príncipe, em 2004, com o tal deslumbramento das «ruínas do império».

Fui buscar este interessante livro de Miguel Sousa Tavares, e estas suas citações, por me ter dado uma satisfação enorme o programa que elaborei há dois anos, como professor da Universidade de Lisboa para a Terceira Idade, de «História do Império Português» dos Séculos XV a XIX, que incluiu visitas de estudo a diversos locais e monumentos ligados a esse período.

Então, mais que por «senso pedagógico» escolheu-se também o que rodeia a Praça do Império, e, irónico ou não, foi lá que montou Salazar, com os seus acólitos, a célebre Exposição do Mundo Português. (OS ANOS DE SALAZAR - 5º vol ).

E foi esse Mundo que também, mais perto de nós do que Camões, foi cantado por Fernando Pessoa, na Mensagem: «Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!»

E ele mesmo pergunta: «Valeu a pena?(…)» E lá perdurarão, não só em Macau, como em Goa, em Moçambique, fazendo parte das ruínas que falam desse passado.

Se valeu ou não a pena, pensem comigo, também as novas gerações, porque a História, séria e isenta, do fim do Império, será feita ao longo dos próximos decénios, com heróis e criminosos, como os houve sempre, mesmo que impunes à face da justiça.

Mário Matta e Silva

 

 

 



Novas sensações

Isabel Fontes

Sente-se um rumor estranho no ar. Emanuela acaba de entrar na sala. Um escritório bastante amplo para o resto das salas, tem uma vista enorme sobre a cidade de Lisboa, onde se vê o Castelo de S. Jorge. A reunião começa ás 8.30 horas, mas como sempre chega cedo demais e não encontra ninguém. Vai contornando a mesa e verificando se está tudo em ordem. Se todos os intervenientes têm papel liso, canetas e toda a documentação necessária para a reunião sobre o investimento a fazer ou não no Algarve. Um empreendimento turístico na zona de Lagos.

Está um dia de Primavera lindo, corre uma suave brisa e as pessoas andam com aquele sorriso na cara, como se a vida corresse de feição e onde os problemas estão fechados a sete chaves. Olhando pela janela Emanuela repara no trânsito que está e apercebe-se que a reunião não vai mesmo começar a horas. Como a vista tanto da janela como da sala não lhe é agradável, decide ir até ao seu pequeno recanto, liga o computador e entra numa sala de chat, daqueles sites onde estão sempre pessoas em linha para qualquer tipo de conversa. Ultimamente, desde a separação do Rodrigo, este tipo de entretenimento era uma constante.

Entra numa sala de conversação onde começa um diálogo pouco interessante com a «Louraça_Bombástica». De repente, após uma gargalhada a uma resposta menos usual da louraça, repara que está ser observada.
- Ah! Bom dia, Francisco!
- Estás aqui…Bom dia. Andei por todas as salas à tua procura de alguém. Desculpa o atraso, mas o trânsito hoje está de doidos. Deve ser por causa do futebol de logo à noite, e já sabes como é, todos trouxeram carro para o trabalho. Chegou mais alguém?
- Ainda não.
- O corpo ainda estava húmido, tocado e o coração saltava que nem uma bomba relógio Meus Deus! -
Pensa para si. Ainda não esqueci? – Tinham passado poucas horas desde o seu último encontro.

A noite passada tinha sido mais um devaneio dos dois e mágica. Tinha trazido consigo novas sensações, que nunca tinha sentido. Mais um deslize dos dois e novas esperanças para ela. Após um breve momento de silêncio, onde o Francisco ia falar, entra o chefe, o Dr. Aldino.

Com o passar dos minutos enquanto Emanuela e Francisco trocavam olhares, o resto da equipa ia chegando. Cada um sentava-se na cadeira habitual, a troca de olhares era tão intensa que o resto das pessoas começaram a rir. Foi ai que eles acordaram do que quer que lhes tenha adormecido a mente. Acabaram por esboçar um sorriso. A reunião estava a ser dura, a empresa estava a investir muito dinheiro neste empreendimento e as novas pesquisas de mercado não estavam a ser favoráveis à zona do Algarve escolhida. Após várias deliberações, foram escolhidas as pessoas que a empresa achava serem essenciais para o projecto ter futuro, o Francisco e a Emanuela.

As reacções de ambos foram de surpresa e ao mesmo tempo de excitação. Era bastante promissor para as carreiras de ambos. Emanuela apercebeu-se no mesmo instante, que o ser bom para a carreira podia não ser bom para a relação.
– Será que o Francisco pensou o mesmo? - Disse para si própria.
Enquanto se dirige para o seu escritório, que fica no fundo daquele corredor, vai olhando para trás a ver se o Francisco já tinha saído da sala de reuniões. Apesar de estar aborrecida com a situação de não saber como vai ficar toda a história existente entre os dois, pensa positivo e diz para si mesma que vai correr tudo bem e apenas precisam de ter uma conversa séria sobre o assunto.
Emanuela gostava muito de viajar, conhecer novas gentes e lugares, um prazer que partilhava em comum com o Francisco. Talvez isso ajudasse. – Pensou para si.
- Quem sabe se até não irá resultar! - Desta vez pensou alto.
Sem reparar em quem vinha atrás, ouviu uma voz a sussurrar no seu ouvido.
- E porque não?