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EDIÇAO Nº XVII,  I1º NUMERO  DE ABRIL DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade


SONETO NOTICIAS

João Furtado

Não sei verdadeiramente que faço
Se abre ou se não abro a televisão
Quero tanto do mundo ter uma visão
Mas tamanha a morte, só nervos de aço!

Ontem foi o coitado do Nino Vieira
Antes já foi turma na América livre
Hoje a Alemanha acorda e sofre
Dezassete crianças a vida derradeira!

Porque a morte escolhe assim a toa
Tanta vida ceifar tão inocentemente
Nunca jamais poderei enfim compreender!

Mesmo que queira, não consigo entender
Porque a arma – cada vez mais precocemente
Espalha tanto terror – enquanto som soa!

 

Choram as Marias

Maria Petronilho

Eu hoje queria
qualquer nome, não Maria!
Um nome que não doesse
ser mulher que não se desse
nem por tanto amor sofresse!

Mas sendo Maria aceito
o soluço onde me deito
o mar se abrindo em meu peito

Os olhos doridos não fecho
nem o meu nome renego!

 

Análise da Poesia de Vilma Oliveira

Daniel Teixeira

A poesia de Vilma Oliveira não é, antes de mais, uma qualquer poesia do tipo Florbeliano repetido, embora seja fácil encontrar alguns pontos que assemelham uma e outra (guardadas as devidas distâncias que a própria modéstia da Vilma não pretende alcançar nem merecer). Existem influências, será um facto, mas nada nos garante que a poesia de Vilma não seria assim mesmo tivesse ela lido ou não Florbela.

O versejar de Vilma Oliveira contém em si um maior conteúdo não epidérmico que a poesia de Florbela, ou seja, é muito menos sensitiva e consequentemente muito mais reflexiva e rica de conteúdo. Se tivéssemos de fazer uma comparação, que não é forçosamente ofensiva nem para uma nem para outra, a fraseologia Florbeliana é minimalista, a imagética é seguramente rica, quase barroca, mas existe uma repetição quase sistemática de determinadas figuras mais ou menos ricamente adornadas por um domínio do jogo nas palavras.

Vilma Oliveira recorre a alguns clichés (Minh’Alma, d´Agua, etc.) tradicionais na sonetística de escola e que Florbela também usou e que nos podem iludir mas a diferença entre uma e outra é abissal.

Citando Maria Ester Torres na sua Nota Introdutória sobre Florbela Espanca no Livro de Sonetos completos de Florbela Espanca (Europa América - Lisboa) «(…) Florbela foi, essencialmente uma mulher que sentiu. (…) Sentiu a sua infância (…) num plano quase místico (…) Sentiu(…) a impossibilidade de se satisfazer na expressão/ demonstração do seu sentir». Tarefa à partida inglória porque ninguém descreve sentimentos e espera que eles sejam integralmente entendidos.

Sentiu, Florbela, ainda segundo esta autora (Maria Ester Torres) que «pensava» o que sentia ou que os seus sentidos eram pensados e sentiu ainda o fracasso da empresa da sua busca de um Eu que fosse sentimento puro.

«Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo para me ver
E que nunca na vida me encontrou!»

(Do soneto «EU» de Florbela).

Este culto do absurdo seria tolerável, ou aceitável num Fernando Pessoa ou em alguns dos seus heterónimos ou mesmo noutros poetas mas é difícil de digerir sem aquela dose de ironia magoada que nos faz levar Florbela muito para longe de qualquer sentido crítico sem o fazer acompanhar da ideia do Absoluto. A concretização não existe em Florbela…tudo se perde no reino do Absoluto, do Além, do Nada, breve, do inconcretizável qualquer que ele seja.

Ora, Vilma Oliveira está muito longe desta problemática depressiva (quase esquizofrénica) de Florbela, está longe da desidentificação consigo mesma e está longe da busca de um Absoluto em que se não crê e que se persegue porque se sabe precisamente que ele não existe.

Ao contrário de Vilma a dialéctica Florbeliana não é uma dialéctica construtiva tendente à chegada a um fim, é sim um percurso conturbado que se satisfaz / insatisfazendo-se na exploração minuciosa dos meios, do qual vamos encontrar ainda traços na sua conhecida visão Don Juanística do amor (como refere Urbano Tavares Rodrigues, mesmo com as nossa reservas).

Ora, quer o desejar quer as referências de Vilma (ainda que bebidas em campos comuns a ambas muitas vezes) têm a solidez descritiva de um sentir verdadeiramente dominado, que o não anula enquanto processo sensitivo, mas lhe estabelece balizas, muitas vezes delimitadas nalguns casos através do afastamento sadio do observador que se reconhece a si mesmo na imagem espelhada.

«Se acaso me ouvires distante a chamar-te,
São juras contidas em mim por amar-te…
Se já não me escutas, porque sofro assim?»

(Vilma Oliveira em Ânsia Reprimida)

As formas e as imagens recolhidas por Vilma resultam de um processo psíquico tendente à obtenção de um fim, que mesmo quando não conseguido acaba por valer na tentativa (e este será um dos aspectos que mais diferencia Vilma de Florbela). Vilma não foge ao amor:

«Ama-me meu amor, e porque não?»

«(…) O amor

(…)«É uma febre - terçã que de mansinho
Toma todo nosso corpo, a Alma….
Aos poucos se esvai e se acalma
A febre, o rubor devagarzinho….

(Vilma Oliveira em Ama-me muito)

Já Florbela foge ao amor, procurando o impossível e aquilo que não existe, jogando bastante no cósmico por receio do telúrico.

Eu queria mais altas as estrelas
Mais largo o espaço, o sol mais criador,
Mais refulgente a lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas.

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais Montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida
-Quanto mais funda a lúgubre descida,
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa…, em paz, contente,
Um dia adormecer serenamente
Como dorme no berço uma criança!

(Florbela Espanca)

De reparar que neste poema, de uma forma clara, depois de conseguido o mundo de Florbela existe como que um retorno ao útero materno…como se a vida, com tudo ou quase tudo conseguido (com a tarefa acabada) tivesse passado sem traços que maculem a inocência infantil. E sabemos como a infância foi paradigmática em Florbela, uma infância mística, a infância de Soror Saudade ou o mundo do conto As Orações de Soror Maria da Pureza.

É difícil não estabelecer algum paralelismo entre este conto e as famosas cartas de Soror Mariana Alcoforado embora neste conto exista um afastamento propositado de qualquer relação entre ambos. O processo descendente na escala moral religiosa de Soror Mariana corresponde neste conto ao processo ascendente de Soror Maria da Pureza no caminho místico religioso, mas há um exacerbar do afastamento corporal e o amado não parece aparecer como entidade no conto senão para exaltar as qualidades de beleza e aura mística de Soror Maria da Pureza e servir de pretexto para a sua entrada no Convento e consequente exaltação da mesma.

Não tendo nunca sido muito apontado este conto (aliás muito mais bem escrito que muitos outros que Florbela fez em prosa) é no entanto para mim paradigmático quanto à ambição de Florbela para um isolamento, para uma auto-flagelação mística mas com bastante de masoquismo, que aliás parece ter sido um mal da época: os poetas deste período (e não só) entretiveram as suas mentes balançando nos limiares da necessidade de afirmar a sua impotência, cujas conotações com a sexualidade reprimida por ofício são não só aparentes como evidentes.

Ora a Vilma está muito longe desta problemática (e ainda bem a meu ver). Sente-se perfeitamente que, embora escondida sob uma capa Florbeliana que explora tanto a sua temática como a sua forma (como vemos abaixo em Ânsia Reprimida) não existe qualquer namoro da morte, qualquer vontade de fazer desta um cume a atingir. Existe, isso sim um lamento, de alguma forma impotente mas cujas causas se devem ir buscar não à psique de Vilma mas a factores estranhos a ela mesma (a um destino, se quisermos) mas que não tem (este destino) uma carga nem fúnebre nem excessivamente pesada ao ponto de se não divisar uma saída.

ANSIA REPRIMIDA (Vilma Oliveira)

Li nos teus olhos por todos esses anos
Que juntos estivemos tão longe e perto
Tu eras meu oásis, às vezes, só deserto,
Universo de areias nos meus desenganos!

Li nos teus olhos em doces devaneios
A erguer-se exausto imenso castelo...
Tu foste da inspiração o verso mais belo!
Um mar de saudades de dores e anseios...

Tu leste nos meus olhos tristes rasos d'água,
O pranto que inunda os sonhos da minh'Alma,
São vertentes a se perpetuar dentro de mim;

Se acaso me ouvires distante a chamar-te,
São juras contidas em mim por amar-te...
Se já não me escutas, por que sofro assim?

Trata-se de uma mulher / poeta que canta a sua paixão mas que inteligentemente sabe não racionalizá-la mas sim enquadrá-la instintivamente dentro de parâmetros que não a fazem uma depressiva típica nem uma vencida da vida.

E é este facto, entre outros que aqui não cabem, que dá a meu ver um valor superior à poesia de Vilma Oliveira. Tem bastante a trabalhar ainda mas o caminho é certo…trata-se de uma quase sempre bem conseguida forma de superar a fórmula Florbeliana, numa afirmação de personalidade que luta e não de uma personalidade que se «rende».

Dá gosto ler alguém que consegue (ainda com muito trabalho pela frente como dissemos e repetimos) ultrapassar Florbela Espanca partindo do seu ponto de não – retorno.

Para ler Vilma Oliveira carregue aqui. - Ou aqui.

 

Das idades

Maria Petronilho

A velhice é um rompimento
do compromisso
entre a alma e o corpo,

divórcio adiado.

Às vezes adormeço quieta
na juventude tão certa...
De noite algo transcendente acontece:
Acordo nas garras de mil anos
que me carregam os ossos.

Enquanto os olhos lentamente despertam,
peço encarecida aos nervos
que me reconheçam,
me sustentem e reúnam.

Geralmente sinto-me menina,
como pareço.

Passo largas horas brincando,
esquecida de quanto sou breve.

Procuro
ir aprendendo à revelia dos mestres,
das primaveras, das chuvas.

Reconheço que é raro
medir-me e saber-me na idade
que, dizem, tenho
embora seja estranho;
porque de atingi-la e vivê-la,
em coerência com a minha poesia,
é das acções que mais prezo.

 

A Sentença da Rosa

Sandra Fayad

Rosa murcha mergulhada
No meio do meio copo d’água.
- Copo de vidro transparente!
Folhas cabisbaixas, amareladas
- Olham pra mesa ou pra nada?
Haste ereta, mas podre.
Pétalas cadentes, arroxeadas
Despencarão ao simples toque.
- Se não queres sujar a mesa
Não mexe! Não toca!
- Está morta?
- Essa, nem comporta
Banho de formol...
Já cumpriu seu papel.
Nasceu botão, abriu-se ao sol,
Deixou-se escolher (como eu).
Para ser usada como anzol:
Fisgou um coração solitário,
Em momento crucial.
- Pecou!
Não lhe ofertou um santuário.
Foi co-responsável por tê-lo
Confinado em um aquário:
- Adoeceu!
No confessionário
Penitência dura: Morrer!
- Mereceu?

Bsb, 28/11/2008

 

P A Z

Alexa Wolf

Brilha-me o Sol
com 1001 raios dourados,
sobre o azul água dos Céus.

Nuvens de prata deslizam
planando abaixo dos Deuses.

Sopra-me a brisa quente
que brinca por entre o verde claro - escuro
entre montes e vales
arrastando aromas e cores.

A lua tímida,
espreita ao fim da tarde
transformando o silêncio
em algazarra veloz
adivinhado no reino animal.

A noite que se avizinha
de asas abertas
em toda a sua glória
voa a Pomba Branca da Paz

PELO SONHO E A ALMA DO POETA!

 

Sem Você...

Arlete Piedade

Sem você sou barco á deriva no mar,
sou órfã de pai e mestre da vida...
sou viúva, chorosa sempre a recordar,
aquele para quem sou ainda querida...

sem você, sinto as mãos cheias de nada,
vazio, desolação, lágrimas escorrendo
na face parada, uma triste alma penada,
passos sem rumo, a estrada percorrendo!

Sem você já não sou mais a poeta amada,
sem você voltei a ser a mulher cansada,
indo derrotada ao encontro da morte...

quero chegar depressa a essa entrada,
quero poder te abraçar oh alma ansiada!
- Sem você perdi meu rumo, o meu norte.