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EDIÇAO NºXVI , 1º NUMERO  DE ABRIL  DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade

Mário Matta e Silva

Notas Biográficas

MARIO HENRIQUE MATTA E SILVA, nasceu em Algés, Oeiras em 12.03.1941, Professor (Licenciado em História) reformado da FP como Assessor, tem formação em Jornalismo, Belas Artes, Recursos Humanos e Psicologia das Organizações.

Poeta, Coordenador de Tertúlias Poéticas (Benfica, Amadora, Paço de Arcos) colaborador / cronista do Jornal dos Reformados, Jornal da Amadora, Revista Montepio Geral.

Autor dos livros de Poesia «Nunca Vos Direi Tudo» - 2002,

«...E Vou Nos Cânticos da Terra»- 2004,

«com eles Noutra Atitude» (glosados 44 autores nacionais e estrangeiros) 2006,

co-autor de «Duas Gotas a Mesma Fonte» 2007,

Lecciona em Universidades para a Terceira Idade, com Bloger na Net, colaborador em vários Grupos na NET, foi colaborador:

da Universidade Aberta,

da Direcção Geral da Administração Publica,

de Sindicatos e Câmaras Municipais.

Leccionou e colaborou em projectos comunitários para a recuperação e reintegração de jovens bem como no ensino à distância.

Durante vários anos foi jornalista em Moçambique e Lisboa, o que vem ainda fazendo como cronista.

 

JORNADA CREPUSCULAR

Crónica de Mário Matta e Silva


Atenção: Portugal está em alerta cinza - escuro


Ao voltar da minha jornada pelo crepúsculo tudo me parece estar a ficar em alerta cinza - escuro. Este não é um alerta meteorológico mas sim económico - político.

Alerta por estarmos em ano de eleições. Já vão aquecendo as turbinas e ganha-se velocidade para as acostumadas promessas ao povo, de todos os lados e quadrantes, para ver quem ganha votos.

Porém o crepúsculo desce manso e mostra-nos sem subtilezas as manhas que vão por aí em acaloradas retóricas que fazem pasmar qualquer incauto ou menos avisado, que não saiba lidar com a distinção precisa entre o falso e o verdadeiro.

O partido que nos governa vai fazendo o seu cozinhado, misturando partido político e Governo, para darem estatísticas animadoras, promessas absurdas, tudo no maior dos alaridos.

Ai desacreditada «política de pacotilha», como já lhe chamava Ramalho Ortigão, nos finais do século dezanove.

O Parlamento anda todo alvoroçado, com os deputados do poder e os da oposição engalfinhados na maior das «guerras de capoeira» da legislatura.

Toca a pedir maiorias absolutas e a acenar com eventos à «Magalhães», obras públicas e subsídios disto e daquilo. Toca a atirar contrapropostas ao governo, das bancadas da oposição, em golpes de rins de malabaristas.

Vamos deitar mão dos sofismas tão apetecidos dos políticos para manobras de persuasão. Discursos acalorados e promessas bisonhas não irão faltar dentro ou fora do hemiciclo.

E esta malvada da recessão poderá agravar-se por influência de uma indefinição politica que um ano de eleições sempre traz. A economia agrava-se mais no nosso país que noutros de maior importância e maior capacidade económica, mesmo que a braços com uma mesma recessão.

Mas quem nos faz ver isso? Os deficits vão mostrando cenários alarmantes e ao mesmo tempo o desemprego vai-se alastrando, arrastando uma crise social de muita gravidade.

Os orçamentos são geometrias erradas dentro de uma conjuntura desfavorável e o mais pequeno, ou mesmo a classe média, vão por certo sentir mais tão prolongada e profunda crise económica. Neste quadro cá está o «alerta cinza - escuro» que não permite birras de políticos a favor de políticas erradas que a confrontação partidária irá arrastar neste ano de 2009, ainda agora iniciado.

Ainda vamos em Abril e já tanto se promete, em descarado tom eleitoralista, sem se pesar bem dos seus efeitos na recessão que tanto nos penaliza. Esta é uma jornada de incertezas, de incredulidades, de confrontos, de erros, de insucessos, em busca de votos em três actos eleitorais no mesmo ano, em ambiente hostil de crise económica profunda.

Todos os erros serão graves suicídios para a estabilização dada a nossa imaturidade sociopolítica. E volto ao crepuscular, em tarde invernosa, onde o frio da jornada nos lança o alerta de um Outono quente, envolto em combates políticos de grande envergadura e desperdício, o que vale pela rotatividade tão saudável à democracia.

Soa assim um alerta à recessão acompanhada dos exorbitantes gastos com os três actos eleitorais que aí vêm, sem possibilidade de travar tudo isto.

Por fim, a mesma comunicação social que nos mostra o encerramento diário de empresas, os salários em atraso, os despedimentos, a distorcida avaliação de professores e de alunos, as greves, os assaltos, os crimes, a pobreza, os sem abrigo….mostrará também os discursos, as promessas, as inaugurações, as manobras de sedução, as palmas, as trompetas, os bombos, as bandeiras dos comícios por esse país subalimentado e pálido porque afundado em crises sucessivas, por arbitrariedades da classe política, por rombos bancários, por fragilização da justiça e dos cuidados de saúde, por salários baixos, por pensões de miséria…

A banda dos comícios passará, inundada de abraços, de beijos, de promessas, de astúcias. Como estaremos mais falidos daqui a um ano! Falidos politica e economicamente… falidos na honra e no orgulho… falidos na esperança de dias melhores.

Tudo isto nasce e cresce em cada crepúsculo no adiar da nossa exaltação patriótica que nem as transferências dos emigrantes podem enaltecer, num choro de vergonha que tantas famílias vão sentindo nesta escalada de desempregados.

Que nos restem uns crepúsculos feitos de muita, mas muita, paciência, para aguentarmos todo este infortúnio vestido de cinza - escuro…

 

Encontro de músicos de países lusófonos em Maio

A primeira mostra Cariri das Artes dos Países de Língua Portuguesa vai promover, entre 12 e 16 de maio, um encontro de músicos de Portugal, Angola, Cabo Verde, Moçambique e Brasil. O evento ocorrerá na cidade de Nova Olinda, a 570 quilômetros de Fortaleza, e a expectativa da Fundação Casa Grande - Memorial do Homem Kariri, promotora da mostra, é receber 200 participantes por dia.

Além dos recitais no Teatro Violeta Arraes - Engenho de Artes Cênicas, de propriedade da fundação, os artistas foram convidados a realizar oficinas de um dia, «para mostrar um pouco da realidade musical de sua região».

De Angola, está confirmado o nome de Filipe Mukenga; de Moçambique Stewart Sukuma, enquanto Cabo Verde e Portugal estarão representados por Vadú e JP Simões, respectivamente, segundo o presidente da entidade, mais conhecido pelo nome de Alemberg Quindins.


Uma exposição com cerca de mil títulos de folheto de cordel, espécie de poesia popular, «que chegou ao Nordeste através dos portugueses», também faz parte da mostra.

 

 



Isabel Fontes

Apontamentos biográficos

O poema «Sou», é a melhor definição que possam ter da minha pessoa, como ser Humano.



 

SOU
Todos os dias renasço,
Para iluminar centenas.
Sou como todos,
Sou como o mar,
Sou como a luz.
Adoro ver multidões,
Pessoas agitadas.
Atitudes inseguras.
Adoro quando a sombra me preenche,
Quando o frio se instala.
E, a chuva começa…

Adoro escrever, é o meu escape para tudo o que existe de mal na vida e no mundo. Tenho 32 anos e designo-me «bombeiro de serviço». Tudo que inclua imaginação, objectividade e ginástica mental é onde me sinto mais à vontade. Apesar de tudo, adoro o que faço e isso é o principal.

O meu início literário começou muito novinha, tinha eu 6 anos, foi quando recebi o meu 1º livro mal sabia eu as letras do alfabeto. O meu avô ofereceu-me «A Mensagem» de Fernando Pessoa. Desde aí que não parei e não paro seja de ler ou escrever.

Sou uma pessoa que adora absorver «vidas», situações, tudo o que me rodeia faz parte do meu imaginário e sinto-me bem com isso.

Sempre escondi o que escrevia, inclusive mantenho, ainda, um diário que não irei publicar jamais. Mas com a novidade da Internet, comecei a divulgar-me e o que escrevia, sempre com o meu nome, não que tenha algo contra pseudónimos.

Mas gosto de mim e do meu nome. Numa dessas viagens «virtuais» conheci bons e maus poetas, boas e más pessoas, como tudo na vida. Numa dessas viagens conheci uma pessoa que agora é uma das minhas melhores amigas, Malu. E com ela lancei-me no meio literário, na edição de livros.

No início de 2004 em dueto com Malubarni, editámos o livro de poesia livre/sonetos «Pensamentos de um Diário». Que não chegou a grandes «aventuras», mas que nos fez ficar completas.

No meio «virtual», existem diversos sites de literatura, seja poesia, prosa, romance, existe de tudo. Numa das minhas rondas descobri o Projecto Cultural Abralli, onde me voltei a lançar em aventuras.

Fui convidada, também no mesmo ano, a participar na Antologia Internacional «Terra Lusíada» - Projecto Cultural Abrali, livro lançado em Portugal no dia 29 de Julho de 2004.

No ano de 2005 ganhei o 3º lugar na categoria de Contos no concurso Internacional efectuado pela AG Edições, de onde saiu o livro «Agreste Utopia» lançado em diversos países latinos.

No ano de 2006, voltei a participar no Projecto Cultural Abrali em 2 Antologias Internacionais: «Cantos do Mundo» e «Margens do Atlântico», também, através de uma parceria com o site Ecos da Poesia/Projecto Cultural Abrali «Dois povos
Um destino».

No mesmo ano de 2006, entrei no concurso da Arte Literária «Contos para viagem», onde fiquei colocada nos 23 primeiros lugares e de onde saiu um livro com o mesmo nome do concurso: «Contos para viagem».

Através de um amigo «virtual», e após um convite dele, lancei-me na área do Romance. Começámos a escrever, ele em Espanha e eu em Portugal. Conseguimos fazer o impensável, escrever um romance com tanta distância entre nós e que uma editora apostasse em nós, isto tudo no espaço de 3 meses.

E assim, este ano, editei a quatro mãos o livro «O Silêncio das Almas» com o Hugo Girão. Entre projectos, vou escrevendo sempre que a inspiração surge e tenho utilizado diversos sites para os publicar. A inspiração, ou lá o que é, surge na minha cabeça esteja acordada ou a dormir...Quantas as vezes acordei de madrugada e fiquei a escrever até serem horas de ir trabalhar...Muitas...

Sinto-me bem tanto na área de poesia, prosa, conto, crónica...Gosto de escrever e de colocar todas as ideias que turbilhão na minha cabeça cá para fora...E depois, ir construindo. Vamos ver até onde a imaginação me vai levar....

 

Sem a mínima precisão semântica

Isabel Fontes


Por vezes, penso, no que raio me leva a acordar todos os dias?

Tento distrair-me com as luzes lá no alto e com todos aqueles anúncios com cheiro a morte. Ando sempre numa velocidade vertiginosa, para lá da ordem. �s vezes, chego mesmo a desejar um deslize, um pequeno azar com a embraiagem ou com a direcção do volante, qualquer desculpa para poder faltar uma vez, uma única vez, sem sentir a culpa que carrego todos os dias, nem que para isso tenha que ficar imóvel numa cama de hospital.

Por vezes, penso, o que é que venho aqui fazer todos os dias?
Enquanto empurro a merda do portão, que todos os dias se queixa de ser aberto, preparo o meu sorriso de plástico, para quem me vir entrar; esse sorriso que preparo todas as manhãs ao espelho da casa -de -banho, antes de entrar no duche. Chego sempre a tempo de ouvir as lamúrias do vizinho do lado, encolho os ombros, abano com a cabeça e dou uma resposta sem a mínima precisão de semântica.

Chove?

Por vezes, penso, mas afinal que faço eu de tão especial aqui? Dirijo-me para a minha secretária. Enquanto atravesso o corredor, encontro um colega a quem cedo um aperto de mão cordialíssimo e o sorriso já programado. Sempre demasiado atempado. Antes de me afundar no cadeirão, com um cheiro a pele rasca, ainda tenho tempo de enfiar a cabeça no túnel de segredinhos e maldizer, que sobrevoa como uma nuvem escura aquela sala do posto de comando. Demasiado pesado. Ainda há tempo de preparar a minha íris, tal e qual os violinos aguardando o sinal do maestro, para mais um dia de fuinha em frente ao computador.

Por vezes penso, mesmo antes de começar a roer as unhas, qual a lógica de todas as reuniões?

Mesmo antes de me debruçar sobre os assuntos, cujos conteúdos nunca relato a ninguém por ordens da direcção, senão à estátua que fica do outro lado da janela mesmo por cima da minha cabeça, costumo andar às voltas na cadeira, a tentar perceber se algum dia chegarei a entrar na órbita do cimento que me rodeia. Todos os dias reparo que o parapeito da minha janela mais uma vez foi esquecido pelas empregadas de limpeza. Será que faço parte de um sistema novo de munições onde o excesso faz rebentar?

Quando começa a época da chuva? Será que nunca chove?

Talvez quando chover possa retirar «do meu couro cabeludo» estes pensamentos que me absorvem e consomem todos os dias, talvez consiga dissipar tudo o que há de mal em mim e consiga ver para além do muro que existe à minha volta.

Talvez depois consiga abrir o portão sem ele fazer barulho e passar despercebida por todos sem ter de ouvir os mexericos que me furam os tímpanos todas as manhãs. Vou tentar abstrair-me dos comentários de toda aquela gente que não consegue estar satisfeita com o seu trabalho, com os seus chefes, com tudo o que fazem na vida medíocre que levam, e que falam pela calada.

Só quando chover, vou poder deitar fora todos os meus casacos escuros e chapéus-de-chuva de varetas partidas, quebradas por tácticas de olhares e ritmos vocais que consumo diariamente sem pedir. Talvez até deixe de fumar e apague este rasto de fumo que os faz chegar sempre até mim. Só quando chover, vou poder estar apta a ver o céu sem nuvens e conseguir vislumbrar as estrelas que nele pairam.

Mas até lá, vou continuar a praticar o meu sorriso de plástico, abrir o portão que teima em ranger, a ouvir a voz estridente do meu vizinho e perguntar sem a mínima precisão semântica.

- Chove?