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EDIÇAO NºXIX , Iº NUMERO  DE MAIO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Liliana Josué           



Causo e Poesias


     
      Antônio Carlos Affonso dos Santos.

          ACAS, o Caipira Urbano.



Semeando o dilúvio

 

Boi Assado

Diz que vai chegá o dia
Que na Terra vai decê
Um capeta mui perverso
Que se cuide vossuncê
Pro causa das demanda
Da tar de poluição
O chifrudo tamém vem
E vai sê triste a função

Se jogá cumida fora
O demônio te judia
Dexano fartá pra um ano
Cumida pra sua famía
Se ocê puluí um córgo
Coisa que ninguém merece
Vem o chifrudo e te benze
E suas lavôra num crece

Se ocê inda fais parte
Dessas gente que são tonta
Só vai sarvá sua arma
Quando ela tivé pronta
E Deus vai mandá fogo
Pra acabá com o mundo
Vai morrê tudo us inocente
E não sobra um vagabundo

Mais Deus vai mandá tamém
Um anjo decê do céu
Trazeno mensage nova
Em meio do fogaréu
Com ele vem tamém
Pra corrê tuda a Terra
Um enorme Boi Assado
Que mêmo assim ele berra

Já vem cum garfo e faca
Na carne bem espetado
Quem fô da religião
Pode cumê um bocado
Mais tudo quem num fô
Da certa e boa religião
Num pode cumê, seu moço
Nem um pedacinho não

E vão se embora da Terra
Sem cumê ninhum pedaço
E o Lúcifer inda corre atrais
Pra intentá pegá no laço
E cada um que ele pegá
Vai sê mandado pro inferno
Vai quemá os seus pecado
Bem longe do Pai Eterno.


Coleirinha

Como eu gostaria de ser
Um coleirinha do brejo:
-Pra disputar teu amor
Nesta terra do Além-Tejo!


Rima

Eu conheci a rima;
Quando ela era criança;
Aprendi como ela pensa;
Como nossa vida alcança;
Tem delas que pesa o poeta;
Como se fosse u´a balança;
Tem gente que faz pouco caso;
Isso eu vi, posso contar;
Mas aquele que é poeta;
Não poeta por acaso;
E gosta de fazer verso,
E fazer tudo rimar,
Faz do verso seu reverso,
Pois que pra falar com verso,
É preciso poetar!


Vivacidade

Ocêis pensa que os adurto é ladino
Ma, tudo os mulequim é muito mais:
-Os adurto faiz de um tudo;
Já os mulequim; nada faiz

 

Uruguai ensinará português nas escolas públicas a partir de 2010

O anúncio foi feito na 12ª Conferência Ibero-Americana de Ministros da Cultura, que se realiza nesta quarta-feira em Portugal.

A ministra uruguaia da Educação e Cultura, Maria Simón, anunciou que a partir de 2010 seu país terá o ensino do português como segundo idioma nas escolas públicas. O anúncio foi feito na 12ª Conferência Ibero-Americana de Ministros da Cultura, que se realiza esta quarta-feira em Portugal.

«Este ano (o ensino do português) começa nos Centros de Línguas, que são locais onde as pessoas podem aprender idiomas estrangeiros de graça. No próximo ano (letivo) vamos começar nas escolas públicas», afirmou. Além do português, os Centros de Línguas já ensinam o inglês e o francês e alguns também têm aulas de alemão e italiano.

Segundo a ministra, a introdução do português no currículo escolar deverá ser gradual. «Vamos começar pela fronteira, onde é mais fácil, por que existe o bilinguismo. Há casos de crianças cuja língua materna é o português. Muitos na região da fronteira falam uma espécie de dialeto, o portunhol, que vemos não como algo negativo, mas como uma possibilidade de ampliar os conhecimentos para as duas línguas».

Ela acredita que em cinco anos todos os estudantes uruguaios estarão aprendendo o português e em 11 o idioma será de conhecimento generalizado. «Acho que estarão todos falando português em mais seis anos, quando terminarem o ensino fundamental. Para nós, o ensino do português é o cumprimento de uma das nossas obrigações com o Mercosul e esperamos que os outros também cumpram.»

Algumas escolas poderão adiantar o processo, começando antes do que está previsto. «Na nova legislação, reservamos uma verba para cada escola - por meio dos Conselhos de Participação, em que participam os pais e a comunidade - decidir o que fazer. Podem decidir fazer uma reforma no estabelecimento ou ensinar uma língua estrangeira, como o russo, no caso de uma coletividade em que grande parte da população seja de origem russa»"

Simón considera que a ampliação do ensino de línguas vai ser uma forma de diminuir o abismo social no país. «Até agora, apenas as escolas privadas ofereciam o ensino de línguas, o que gerava uma diferença de oportunidades. Sou professora titular da Universidade de Engenharia e muitos dos livros são em inglês. Nós oferecemos um curso gratuito de inglês técnico na faculdade, optativo, mas isso não é a mesma coisa.»

Professores

Para as aulas de português, a ministra não prevê a contratação de professores brasileiros, mas a formação dos uruguaios. «Até agora temos intercâmbio com Portugal, que nos ofereceu os cursos de formação e livros».

Os cursos também poderão ser dados com a ajuda de computadores - no Uruguai, cada criança que está na escola tem a partir deste ano um computador. «O professor poderá atuar como mediador. Ele pode não ter a pronúncia perfeita, mas pode ajudar a corrigir quando as crianças repetirem as palavras do programa de computador de ensino do português».



 

                         
                         Por: Cecílio Elias Netto

(Por especial gentileza do autor)

Era tal o preciosismo de Flaubert – em busca da perfeição literária – que, dizia-se, passou a vida à procura de uma palavra para substituir outra, pensando tê-la usado inadequadamente. Palavras podem matar. Por isso, o mestre hindu ensinou a lição maior da sabedoria: o silêncio. Tolos – entre os quais me incluo – nunca aprendemos.

Acompanhando o massacre que a maioria da chamada grande imprensa busca fazer do governo Lula – apesar de seus êxitos notáveis – e estendendo-o à Dilma Roussef, lembrei-me de um texto, de certo articulista da «Folha», há alguns anos passados, acho que uns cinco anos.

Lembrar daquilo foi rever – com nitidez doída – cenas de um filme feito de fel. O artigo ressuscitava uma velha escola jornalística rançosa, que marcou a minha geração e que a nada levou. Bebíamos o fel de Carlos Lacerda, de David Nasser, de Chateaubriand, de Edmar Morel – e, intoxicados de rancores, destilávamos os nossos. O Brasil terminou em tragédia.

Ora, apenas ingênuos, tolos e comprometidos não perceberam, desde o primeiro mandato, a orquestração de estridências para abalar os alicerces de Lula. Suas fragilidades são conhecidas, mas machucá-las agora é evocar as bruxas.

Aconteceu antes. E os atores são os mesmos segmentos rançosos da sociedade brasileira, posseiros da economia, dos grandes veículos de comunicação, dos bancos, das negociatas sem fim. Se a história se repete como farsa, há que se lembrar ser, ela, perigosa, capaz de criar abismos intransponíveis, fraturas que não se recompõem. A repetição dessa burrice mostra-se patológica, soando como roncos de moribundos.

O articulista da «Folha» não se importou onde atingir, se fígado, baço, coração ou a alma de Lula. E confirmou que ódios políticos não têm limites. O título do artigo foi «Alcoolismo marca três gerações dos Silva» – título à Chateaubriand – enveredando por psicologismos de botequim.

Recolhia confissões amargas e dolorosas do Presidente Lula, registradas em livro – e, portanto, em outro contexto – doendo-se da saga de uma pobre família nordestina na secular toada da miséria de um Brasil miserável: violência, abandono, alcoolismo. Até a avó de Lula ficou exposta, pobre mulher de que os próprios netos – com saudade compassiva – se lembravam: «caía no barreiro e ficava gritando para a gente ir acudir ela.»

Lembrei-me de Flaubert por ver-me procurando a palavra correta para qualificar aquele texto: indecente, impiedoso, repulsivo, torpe, desprezível? Revi, ainda vivos, os panfletários que ensinaram ferocidade à minha geração. Aquele Brasil – que nada respeitou – esfacelou-se diante da autoridade esfacelada. E os melhores pedaços foram abocanhados pelos mesmos grupos ainda insaciáveis.

Tem sido óbvia, pois, a manobra pelo fracasso do governo de Lula, que responde com sucessos aplaudidos em todo o mundo. Na verdade, Lula teve parte de culpa nisso, trocando a fidelidade ao povo pela aliança com coronéis de todos os naipes. Para eles, não há cidadãos, mas consumidores. Não há país, mas capitanias hereditárias. Não há nação, mas mercado.

O fracasso de Lula teria sido, para essa gente, a prova da tese secular que lhes interessa: o povo tem que ser tutelado. No entanto, o impiedoso texto do articulista acabou sendo, penso eu, ser um divisor de águas. A partir dele, Lula não teve mais ilusões: o seu lugar e sua força estão no coração do povo que o elegeu por esperança, esse povo formado por muitas gerações de Silvas, sofridos, desamparados.

Aquele artigo contrapôs um Brasil de avós enlouquecidas, que bebem pinga por desespero, a um outro Brasil: o dos que saboreiam champanha nos salões de Higienópolis. Insensatos, tentaram e ainda tentam entregar Lula às turbas. Criam um Luiz XV às avessas: «Après Lula, le déluge.» Pois, se Lula fracassar neste final de mandato, depois dele, virá, sim, o dilúvio. Quem sobreviver verá.

Bom dia.

Pode comentar este texto carregando no seguinte link da Província de Piracicaba: Comentário.


Cecílio Elias Netto é fundador do Jornal A PROVINCIA

A PROVINCIA, como jornal impresso, foi fundada em 28 de Agosto de 1987, pelos jornalistas Cecílio Elias Netto e Gustavo Jacques Dias Alvim. Durante duas décadas, com idas e vindas, ela cumpriu o seu propósito e o sonho desenvolvido: recuperar a memória de Piracicaba, especialmente através da oralidade de seus mais antigos moradores, contar a história do município e da região, com fartura de documentos e de fotos e postais.

O lema continuou vivo quando, há cerca de dois anos, A PROVINCIA ingressou no universo digital, criando A PROVINCIA electrónica, com o mesmo objectivo e a mesma motivação: «Paixão por Piracicaba». Piracicaba é um município do estado de São Paulo. Sua população estimada em 2008 era de 365.440 habitantes.

 

Recortes e Dimensão

 Poema de Mário Matta e Silva

 

 

 

 

Porque me tornei curioso
Querendo desvendar tudo
E ansioso
Para tudo entender – não sei.
Remexo em catadupas de livros
E vou multiplicando os recortes
De jornais e revistas que espalho
Em desalinho duvidoso
Desordenadamente pelas prateleiras atulhadas
Do escritório.

Porque me desfaço em desânimo
Cada vez que me recorto no espelho
Caprichoso
(maldizendo o tempo decorrido
desde a primeira ruga pronunciada
a recortar-me a face e a testa)
Ao que assisto num ai clamoroso.

Mas o certo é que esse desânimo
Vem de fora e estremece cá dentro
(recortado em receios e enlevos)
Até me agitar os neurónios
Tornando-os num emaranhado de prós e contras
Em desespero odioso.

Tudo suporto afinal, já não na esperança
De dias melhores feitos de velhice recortada em datas
E calendários
Em tom tenebroso
Mas na (quase) certeza
De que o passado quer justificar o presente
E se afasta cada vez mais do futuro
Que conscientemente
Não sei dimensionar.