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EDIÇAO NºXIV , 4ª SEMANA, 4º NUMERO  DE MARÇO  DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade

Crónicas de Santarém

 

 

Por Arlete Piedade

Festas de S. José em Santarém

Realizaram-se em Santarém, durante a passada semana, as tradicionais festas de S. José, dedicadas ao padroeiro da cidade, cujo dia se comemora a 19 de Março, dia do Município e também Dia do Pai.

Estas festas começaram há alguns anos a realizar-se no antigo campo da Feira do Ribatejo, junto á praça de Touros, espaço emblemático da cidade, que desde que a feira se transferiu para um moderno espaço fora da cidade, ficou ao abandono esperando decisões sobre o seu aproveitamento para urbanizações, ou espaços verdes, ou ambos.

Ainda lá existem alguns dos edifícios antigos da feira do Ribatejo, como seja a Casa do Campino, onde todos os anos se continua a realizar o Festival de Gastronomia, o Restaurante Adiafa e o edifício da Inatel, onde se realizam actividades desportivas e recreativas.

No entanto como o piso circundante continua em terra batida, e também se realizam nesse espaço os mercados quinzenais, nem sempre as condições são as mais adequadas, para os visitantes, em especial quando chove.

Mas como não é o caso, as festas incluíram largadas de touros para os mais atrevidos rasgaram as calças e esfolaram os joelhos e cotovelos na areia e na terra, isto é, se não forem parar ao hospital, mas enfim como os ribatejanos também já andam mais pacatos, pode ser que não aconteça nada de grave.

Bem desculpem eu baralhar os tempos verbais, mas estou a escrever esta crónica durante a vigência das festas e não sei o que irá acontecer, mas como será só publicada depois de acabarem, é um bocado complicado para a minha cabeça gerir este presente e futuro que já será passado.

Também haverá tourada, mas essa é para quem pode ir para a Monumental Celestino Graça ver o espectáculo da bravura dos touros que depois de torturados para alegria dos assistentes, recolhem aos curros sem nada entenderem e sem saberem o que lhes aconteceu.

Mas nisso nós também muitas vezes somos picados e ficamos a sangrar, e andamos a correr de um lado para o outro ouvindo gargalhadas e música, sem chegarmos a perceber a razão disso, indo depois lamber as feridas em silêncio e remoendo os traumas do passado.

Bem, também houve espectáculos musicais, com o Quim Barreiros e o Camané, bem como outros artistas, assim como tasquinhas, mercado tradicional e artesanato, tudo isto á mistura com pó e muito calor.

Estamos a chegar ao início da Primavera e Santarém já é a cidade mais quente do país, destronando Beja e outras cidades do interior alentejano e algarvio. Que vai ser nos meses de Julho e Agosto? Como suportar as temperaturas desta cidade em que todos os jardins estão em obras, as árvores são derrubadas, o pó instala-se na garganta e o sol sufoca?

Bem é por isso que eu fico em casa e só vejo as festas nos folhetos promocionais, acham que ia realizar a reportagem ao vivo, não?

Isto não é um jornal rico meus caros leitores, temos que ser poupados e usar os meios mais baratos para uma informação de qualidade.

Desculpem lá hoje acordei de mau humor, e apetecia-se trocar Santarém por Faro, alô Daniel, manda-me daí um garrafão de água do mar e um barril de areia….



Semelhanças e diferenças entre o Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente e o Auto da Compadecida de Ariano Suassuna.

Por Arlete Deretti Fernandes



São duas obras grandiosas do teatro de literaturas da Língua Portuguesa. A Obra de Gil Vicente, de 1517 e a de Ariano Suassuna, de 1955, estão separadas por 438 anos.

Ambas são humanistas e representativas do pensamento da época em que foram escritas.

Gil Vicente procura chamar a atenção para a necessidade de uma nova postura, não apenas clerical, mas também de uma sociedade corrompida. Critica os costumes da época e tem forte influência humanística, que procura valorizar o homem e a natureza, ao contrário do Teocentrismo medieval. Nesta obra é mostrado o contraste entre o bem e o mal. Estes autos, na época medieval eram mostrados ao público com o fim de moralizar e instruir.

No Auto da Barca do Inferno, o anjo é implacável ao determinar a sentença divina que cabe aos pecadores, e para a qual não há apelação. É utilizada a representação da morte, do juízo e do destino posterior dos homens, com argumentos satíricos e divertidos. Nem o anjo, nem o diabo esperam modificar homens e mulheres. Eles rematam, não conduzem o processo. Não criam condições, apenas sublinham aquelas que as personagens se pautaram.

No Auto da Compadecida, o Juízo Divino caracteriza-se de forma diferente., pois João Grilo apela e a Compadecida interfere em seu favor.

Ariano Suassuna, em O Auto da Compadecida faz uma releitura do aspecto formal do auto, no qual insere elementos diferentes sem haver muitas diferenças entre os personagens.

A figura do parvo, de Gil Vicente e de João Grilo, de Suassuna, se aproximam quando representam o homem simples em busca da sobrevivência e que por isto, cometem «Pecados».

Os Autos se aproximam quanto aos seus objetivos de criticar uma sociedade hipócrita. No Auto da Barca do Inferno o clero é libertino. O Auto da Compadecida, mostra também um clero corrupto, assim como o comerciante explorador e o avarento, ou ainda a mulher promíscua e infiel, todos condenados à Barca Infernal ou ao purgatório.

Os julgamentos dos autos divergem. São dois planos antagônicos de apreensão da moral cristã. Para Gil Vicente há um julgamento divino pré-determinado pelas sentenças cabíveis, não podendo recorrer ou apelar. Para ele, a concepção de juízo é de um juízo inflexível e determinante.

Ariano Suassuna apresenta um julgamento em que as personagens podem dialogar, apelar e interceder. Há uma ampla comunicação entre os três planos: divino, terreno e infernal. Suassuna propõe um exercício de salvação contínuo dos personagens, em um jogo bastante criativo entre o bem e o mal.

Quanto à Lingüística, os dois autos apresentam gírias e expressões da época representada. Suassuna caracteriza a influência e a crença do povo na Compadecida – imagem forte para os nordestinos. Gil Vicente, em sua obra critica a igreja e os que se afastaram de seus princípios morais.

Suassuna valoriza o verdadeiro preceito cristão, compadecendo-se do homem que peca, devido à injustiça da sociedade, e que por isso tem direito de apelar e se defender, buscando salvar-se. Este escritor é mais humanista em sua peça, dando ao homem, uma singular importância.

Arlete B. Deretti Fernandes.

Florianópolis, 04 de março de 2009