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Continuação de «A Lingua de Eulália», Novela sociolingüística, escrita pelo Lingüista Marcos Bagno, por Arlete B. Deretti Fernandes.

(ver início)

Depois de amanhã eu passo na sua casa - Se eu passo é presente, como explicar seu uso numa frase que está proposta para o futuro?

Onde andará agora aquele nosso amigo? Andará é futuro e no entanto está numa frase que comporta uma dúvida relativa ao presente, indicada inclusive pela presença do advérbio agora.
Você bem que podia passar lá em casa amanhã. – Se podia é imperfeito, ou seja, ação incompleta ou continuada no passado, como explicar seu uso em : Você bem que podia passar lá em casa, amanhã – que indica uma possibilidade de ação no futuro?
Os verbos nas frases acima suscitam que reflexões acerca do paradigma modo - temporal em português ?

Listar os fenômenos lingüísticos, típicos do falar paulistano, considerados como tendo sofrido influência da língua italiana:

O cantarolado típico do falar paulistano, muito do seu vocabulário e muitas construções gramaticais que caracterizam este falar são facilmente identificáveis nas diferentes variedades de italiano que os imigrantes falavam quando chegaram aqui. Chamar as pessoas de belo e bela e reduzir os nomes próprios à primeira sílaba. Júlia vira Ju, Sônia vira Sô, Luís, vira Lu. São expressões de afetividade tipicamente italianas.

Até mesmo alguns palavrões e xingamentos são de pura raiz italiana... O adjetivo cafona vem do italiano do sul, cafone, usado primeiramente para designar o camponês, para depois significar de mau - gosto, antiquado. O tchau, que aportuguesamos e usamos para nos despedir, vem do ciao italiano, que para eles é usado não só para se despedir mas também para se cumprimentar quando chegam.

O falar paulistano também desnasaliza as vogais seguidas de N ou M mais vogal, ao contrário do que acontece no resto do Brasil... Ex: fóme, hómem, António, viémos, fizemos, por causa do contato da vogal com a consoante nasal que vem depois dela. Isto também pode ser atribuído à influência do italiano, que é uma língua que não tem as vogais nasais tão características do português. O italiano é uma língua que não apresenta as reduções de o em u que caracterizam o português. Em italiano, o que se escreve em E, é sempre pronunciado E, o mesmo acontecendo com o O . Os italianos que chegaram tiveram que aprender o português e assim eles transferiram para a nova língua algumas características do italiano. (p.102)

Os mininu quebraru as teia, ispaiaram us cacu pertu da garagi, começaru a gritá e fugiru di bicicreta pela istrada.

Distribuir os fenômenos de variação verificados na frase acima em dois grupos:

a) português - padrão e português não padrão.
Na frase acima, como português - padrão estão os artigos os e as , a conjunção de e pela.
As demais palavras todas fazem parte do PNP.

Analisar a construção «Aceita-se roupas novas», com base na seção identificada pela própria frase proposta para análise.

Nessa frase há uma inversão do sujeito, o verbo vem anteriormente. (VSO). O grande problema é para os gramáticos aceitarem o se na frase como sujeito, porque para eles o português procede do latim e em latim, se não podia ser sujeito mas somente objeto.

O se, pode ocupar o lugar do sujeito na ordem canônica da língua e aí exerce plenamente sua função. Ele corresponde a outros sujeitos «neutros» ou «indeterminados» que existem em tantas outras línguas., como on em francês, one em inglês, uno em espanhol e man em alemão. È por isto que os tradutores, ao encontrarem uma destas palavrinhas em texto estrangeiro, traduzem logo pelo nosso se . (p.135).

Destacar um dos princípios apresentados nas considerações finais, que você acha mais importante. Justificar a escolha.

A «unidade lingüística do Brasil» é um mito: em nosso país, além das línguas indígenas e das línguas trazidas pelos imigrantes, fala-se diferentes variedades da língua portuguesa, cada uma delas com características próprias, com diferenças em seu status social, mas todas com uma lógica lingüística facilmente demonstrável.

Este livro desmistifica a crença de que a língua portuguesa é uma só em todo o Brasil. Oferece uma visão muito interessante de língua, especialmente a nossa, como alguma coisa dinâmica, que vem evoluindo. Posso dizer que revi o meu conceito anterior de língua e que é muito agradável estudá-la como um fenômeno com muitas variantes, entre elas a Norma padrão.

Arlete B. Deretti Fernandes
Florianópolis - SC

 

 


EDIÇAO NºXIV , 4ª SEMANA, 4º NUMERO  DE MARÇO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade


    
VER E SENTIR


                  
Cristina Maia Caetano
   (XIV)

Bom dia!

�s vezes, dou por mim, à procura de respostas simples e objectivas, quando o assunto roda o tema «beleza». Para mim, pode e é um conceito que tanto tem de verdadeiro como de polémico… Afinal, o velho provérbio «cada um com o seu gosto», ou «quem ama o feio, bonito lhe parece», tem lógica, mesmo muita lógica…

É certo que a «beleza», «toca» padrões entre os humanos, animais, natureza, objectos e por aí fora…. Mas será que os critérios serão os mesmos para todos? Será que dependem dos olhos de quem analisa e vê? Será que depende da cultura? Será que varia consoante as faixas etárias? Será por este ou aquele motivo? ….

Sinceramente, julgo mesmo que todas as razões acabam por se tornarem válidas… O perigo, mesmo, consiste no melindramento de sensibilidades e em comparações pouco abonatórias…

Entre dois ou mais irmãos, é normal comentar: «ai que bonito, sais mesmo ao teu pai», ou entre dentes «aquele irmão é bem mais bonito, do que o que ali está…», e esquecem-se que as «paredes têm ouvidos» … e… daí à auto-comiseração é um passo curto, mesmo muito curto… felizmente que os animais não entendem a linguagem humana… felizmente que apenas percebem os gestos genuínos de amor… Bem parecem saber, que é no apresamento de pseudo-julgamentos que se analisa o exterior, o que apenas salta mais à vista. Bem parecem saber, que do interior se esquece, do que está escondido, daquele local, onde nem mais nem menos reside a verdadeira «beleza», o verdadeiro EU…

Se partirmos do princípio, que é cada um que ao reencarnar escolhe os progenitores, a comparação entre «ambos», tende a ter outro objectivo: afinal, se calhar, foi o filho que resolveu ter determinadas parecenças com o pai ou mãe, e não o contrário… Reparem, que tudo é discutível e, principalmente coerente de acordo com o que cada um acredita… No entanto, toda a gente sabe reconhecer um ladrão porque rouba, um assassino porque mata. E porque será? Porque esses, sim, são padrões quase comuns a todas as sociedades… Ou seja, os gestos, as atitudes, … E depois, também existem as marcas que cada um vai produzindo, quer no modo de decorar a casa, no modo de lidar com os outros seres humanos, os animais, a natureza…

No meu singelo ver, bela, belo, beleza, são sinónimos puros da natureza…pois ela vive sempre sem necessitar de aconselhamentos, de modas, de preconceitos, … ela vive sempre nas condições mais agrestes… ela ressuscita até das cinzas… ela é por si mesma a «beleza»!

Lembrem-se pois, de pensarem carinhosamente no assunto e com a certeza que o melhor, é mesmo não se fazerem julgamentos...