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EDIÇAO Nº XIV , 4ª SEMANA, 4º NUMERO  DE MARÇO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade


Pocinha de Lágrimas II

Vem cobrinha vem

Conto de Armando Sousa

O tempo ia frio e seco, o pasto da serra era muito escasso, e o pequenito mal agasalhado de trapos esfarrapados, a cada dia lá seguia para os baldios, com uma dúzia de cabras e algumas ovelhas , dois cordeirinhos e três cabritinhos, que o rapaz já sentia uma grande dor de alma ao saber a sorte que iriam ter aqueles animais saltitantes que nunca deixavam as mamitas das mães.

Por vezes o rapaz sentado no penedo da fraga pensava porquê sua mãe nunca lhe podia dar um pouco de carinho, sem que o Senhor Morgado Conde de Margarida não insultasse aquela que sempre o embalava ás escondidas mas com medo da rudeza do senhor das redondezas onde todos da aldeia lhe prestava vassalagem.

Sempre que o pequeno entrava no quinteiro com as cabras, lá vinha o Conde ver o peso dos cabritos, e com má cara virado para o moço, dizia estes cada dia estão mais magros , a Páscoa está á porta, amanhã levaras sova se os animais chegarem arrepiados, pois a brincadeira não te deixa encaminhar os animais para bom pasto.

Noite de insónia e de medo, tendo o palheiro por cima da corte das cabras como o seu grande palácio e a presa do quinteiro era o seu lavatório com o quarto de banho para as suas necessidades, mais á frente entre o couval ; desde que se não esquecesse de cobrir as fezes.

De manhã pegando na saca dependurada na sebe logo ao descer das escadas presumido conter umas azeitonas e um naco de pão milho para matar a fome durante o dia; mas a mãe não se esquecia de depositar um pequeno naco de queijo na corte das cabras escondida do Morgado de Margarida mas onde o moço nunca se esquecia de o meter entre os trapos que o cobriam.

Lá seguia monte fora por vezes tocando em sua flauta feita de cana de bambu melodias que ouvira sua mãe cantarolar já lá iam anos. por vezes boiava de uma maneira que só os pastores compreendiam a linguagem, mas os animais esses sim seguiam até o lugar determinado.

Ali com seu amigo Joli assim se chamava o cão de Castro Laboreiro que o defendia de tudo e de todos mesmo do próprio Conde de Margarida; com o cão guardando o rebanho sentava-se contra um penedo abaixo do penedo da fraga do qual tantas historias ouvira contar a respeito da cobrinha dos olhos azuis.

Talvez a princesa mourisca encantada depois de milénios. confiante no cão e depois de uma noite de insónia com o medo do Morgado cheio de sono apenas disse vem cobrinha vem, enche-me meu sono de amor, faz-me feliz na vida que não vivo, talvez um dia na vida que viverei.

Foram duas horas tão belas que o rapaz passou correndo com sua mãe, abraçando-a; perguntando-lhe pelo pai, a mãe chorando respondeu; enviaram-no para o degredo por ordem do Conde de Margarida,; a cobrinha levou-o visitar o pai nas poucas horas de sonho.

Grande abraçar de seu pai ao reconhecer seu filho pelo seu próprio retrato com sua mãe que guardava como um precioso tesouro; lembrança de tantos abraços e beijos de sua mãe recebidos dos tempos em que o país estava livre da ambição do Conde de Margarida.

Seu pai abraçando-se dizia;,,, se eu pudesse voltar,,, a nossa aldeia seria uma grande família cheia de alegria; a cada dia haveria festa depois das nossas horas de trabalho.

Pareciam sinos tocando a seu ouvidos, o pequeno foi com a mão e encontrou os chocalhos e os cornos da malhadinha que lhe lambia a cara como procurando-o acordar para seu almoço; na ânsia de acordar parecia-lhe ter ouvido uma vós que lhe dizia, lembraste sempre da cobrinha dos olhos azuis e eu voltarei para te arrebatar ao teu sofrimento e dar-te o amor, família, e a alegria que te roubaram.

Por entre urzes e mato macio pareceu-lhe ver rastejar em direcção ao penedo da fraga, talvez a cobrinha entrando no seu palácio encantado ao bater do meio-dia,,,,,,,, a seguir o pequeno esfregou os olhos mais uma vez para tomar realidade do que se tinha passado...

Sonhou; mas que belo sonho; e dizia para com ele, mas a cobrinha disse-me para a chamar sempre que fosse necessário.

A malhadinha deitou-se muito perto do rapaz e todos os outros animais se deitaram debaixo do frondoso carvalho com a excepção dos cabritinhos e cordeiros fazendo o Joli dar umas corridinhas para manter os animais de baixo de sua guarda; depois que o moço comeu o naco de pão e as azeitonas juntamente com o queijo que sua mãe ás escondidas lhe pendurava na corte das cabras; chamou a malhadinha e pegou na escudela fazendo jorrar o leite com que se deliciou a beber.

Pegou na flauta e deu duas pifadelas como chamando outros pastores que não tardaram a responder, meia hora mais tarde estavam juntos fazendo grande algazarra com o que ouviam uns dos outros.

Parte desse dia foi passado cheio de folia jogando mosca moscardo, ao eixo, jogando ao bicho com malhas feitas de pedras lascas, jogaram ao esconde esconde; cantaram, boiaram, mesmo jogaram a macaca e ao caracol, enfim um verdadeiro dia de pastoragem ao redor do monte de S. Miguel do Anjo. O pequeno rapaz temia a volta ao quinteiro; a imagem do Conde de Margarida aterrorizava-o, agora mais que nunca depois do belo tempo que passou com seu pai no sonho guiado pela cobrinha dos olhos azuis.

Eram horas de regressar, o sol já descia no horizonte para se esconder para além daquele grande espelho que nos diziam ser o mar....... O mar que tantas almas ainda não viram, nem quando canta ou assobia, mansinho ou quando esta zangado com a terra, que arremessa com tudo contra os penedos despedaçando mesmo os maiores navios, roubando a areia ás praias ou então enchendo-a com destroços ou algas.

Mas certos dias quando a fúria termina, enrola-se na areia deixando-a cheia de beijinhos, deixando vaguear seu pensamento descia o monte, ao atravessar a calçada do caminho de S. Tiago chamou por seu amigo joli, para o ajudar a guiar o rebanho para dentro do quinteiro; sentia-se mais confiante com joli a seu lado; mas o medo do Conde fazia-lhe perder as forças das pernas, que iam a tremer; mas de repente um grande sorriso estampado na cara e seus olhos iluminados de contentamento; era sua mãe que o esperava junto ás escadas do solar; então entregou os animais aos cuidados de joli e correu para os braços do único refúgio e consolo da sua vida de criança.

Abraçado á mãe restou longos momentos; ate que ouviu uma vós meiguinha sussurrando a seus ouvidos...... Alcino..... Alcino; era esse o seu nome....... sua mãe dizendo, hoje o Tio não está, foi fazer uma caçada no condado de Vermoim.

Alcino ficou pasmado e perguntou, o Conde meu tio?... e como se faz que tão mal nos trata: Olha mãe, hoje vi meu pai, a cobrinha dos olhos azuis levou-me no meu sonho até junto dele... é forte e disse-me para te abraçar e te dizer que voltara para fazer justiça, para que haja festa e alegria na aldeia, para me ensinar a ler e contar e sobretudo para te amar muito e fazer de ti a Condessa de Margarida...









 


Do mundo olvidado de Alice

Conto de Maria Petronilho




Se Alice sofria, quem o saberia?

De há muito condenada, jamais se queixava.

Deixava que tomassem por si todas as decisões e providências.

Engolia, com a mesma silenciosa indiferença, tanto as pílulas da farmácia quanto as mezinhas caseiras de ervas, poções de todas as feiticeiras famosas na raia entre Portugal e Espanha.

Fizessem o que lhes aprouvesse e depois deixassem-na!

Não tinha paciência para visitas.

O seu tempo, precioso, passava-o bordando e fazendo renda, buscando novas formas nas tramas, desenhos únicos, modelos e motivos em pontinhos perfeitos.

As agulhas eram varinhas mágicas, nas suas mãos rechonchudas, de unhas ovais e longas, impecavelmente polidas.

Além das rendas e bordados, Alice deliciava-se em cantos.

Na sua voz todas as escalas se encaixavam.

Não sabendo ler música, parecia que de si nasciam os tons, dos agudos aos graves, encaixando-se impecáveis todos os timbres que a fantasia lhe ditasse.

Não cantava em Sol, cantava em sombra.

Em Fá, cantava fados, sobretudo os de Amália, totalmente à Lisboa onde fora menina sadia, recém casada feliz e dera à luz, descobrindo-se então a lesão oculta no seu coração de mocinha.

«Ai Mouraria, da velha Rua da Palma; onde eu um dia deixei presa a minha alma!»

Eram então bem-vindas as visitas, que chegavam de aldeias e hortas, de lugares remotos e se mantinham a distância, num silêncio reverente.

Iria também vinha, encostava-se ao batente da porta, inclinava para trás a cabeça e soltava a voz, na companhia da sua amiga de infância.

Desafiavam-se. Improvisavam quadras e tons; brincavam com as notas, saltitando entre agudos e graves com a alegria cristalina com que a água salta de seixo em seixo no riacho límpido.

O povo juntava-se à volta, as bocas entreabertas, as mãos calosas pendentes.

As deles, ao longo dos safões ou das calças surradas, as delas escondidas sob a capa dos aventais.

Até o canto dos pássaros emudecia nos altos ramos, os olhinhos redondos pasmados, as asas tremendo hesitantes entre o pouso e o voo.

O mundo ficava suspenso naquele instante.

Pairava no som que fluía da cabeça loira de Alice, rosto de pérola rosada; da cabeça morena de Iria, os cabelos negros enrolados numa trança sobre a nuca, lenço bordado de pontas caídas sobre os ombros do vestido de Domingo.

Entregavam-se por completo à magia que lhes nascia no peito, subia na garganta, ressoava na cabeça e enfim se soltava modulada, reverberando, tremeluzindo como raios de sol inexplicáveis.

Nas jugulares visíveis de Alice iam, aos poucos, abrandando as pulsações.

Soltava a última nota, longamente entoada a despedida.

Depois deixava pender a cabeça, o queixo tocando o peito, as mãos cruzadas sobre o ventre contendo um mar morto que a ia matando. Que, incontido, rompia a pele fina das pernas, desaguando pinga a pinga, ensopando as ligaduras.

Sem um som, os assistentes dispersavam, como se saíssem se uma capela cuja abóbada era o próprio céu, os ramos quietos das árvores, uma capela suspensa numa outra dimensão onde o divino estava presente e os fascinava.

As botas grosseiras não rangiam sobre a terra batida e varrida.

Alice ficava sozinha, aliviada, numa felicidade inaudita que afastara de si aflições e sofrimentos... se os havia, vá-se lá saber!

À noite, o sono não vinha.

A filha pequena aninhava-se junto dela, remexendo com a tenaz as brasas da lareira.

Nos olhos imensos reflectiam-se as cores e o fascínio das chamas.

Não falavam nem se tocavam.

A presença, no entanto, unia-as como se um fio de prata as ligasse, inquebrantável como a vida em si mesma, invisível como só os fios que unem duas vidas interligadas para sempre.

Alice pedia um livro.

A filha corria a buscá-lo, alvoroçada.

Abria-o no capítulo claramente assinalado na sua memória.

Colocava-o sobre as mãos entreabertas de sua mãe, sempre apoiadas sobre o bojo da barriga.

Acomodava-se no chão polido da pedra do lar e recostava o tronco miúdo sobre um tropeço de cortiça.

O cepo, enfim crepitava em paz, lançando faúlhas no poço negro da chaminé.

Alice recomeçava a leitura e a pequena, desligada de tudo o mais, seguia linha por linha os mapas traçados na sua fantasia.

Desenhava palmeiras, praias semeadas de conchas, de ondas brandas desfolhando flores de espuma na brancura da areia onde o drama se desenrolava.

Qual o drama?

O drama seguia-o Alice, que não sua filha pequena, enlevada num mundo repleto de devaneios, descobrindo as cores e aromas descritos, como se um tapete mágico se tivesse desenrolado a seus pés e um mago lhe houvesse segredado ao ouvido:

Sobe!

Levar-te-ei onde quiseres!